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Agentes da ditadura econômico-militar continuam atuantes, denunciam argentinos

Celebração pela "Memória, Verdade e Justiça" acontece em memória aos militantes, intelectuais e sindicalistas desaparecidos pela ditadura argentina
Helena Iono
Diálogos do Sul
Buenos Aires

Tradução:

Aos 46 anos do golpe cívico-militar-eclesiástico que resultou num dos mais brutais terrorismos de Estado na América Latina ao perseguir, assassinar, e desaparecer com mais de 30 mil militantes sociais, ativistas políticos, estudantes, intelectuais e sindicalistas que lutavam pela justiça social, o movimento popular argentino, limitado nas suas ações por 2 anos de pandemia (2020/21), rompeu o silêncio e reocupou massivamente as ruas neste 24 de março, data histórica da celebração da “Memória, Verdade e Justiça”. 

Participaram centenas de milhares; uma manifestação multitudinária, ao nível das últimas realizadas, em 2019, no bojo das insatisfações contra o governo de Macri. Neste 24 de março, porém, teve um significado especial; um misto de comoção, tristeza pelos desaparecidos, pela justiça inalcançada, com a alegria pelo reencontro da militância consigo mesma e com o povo na rua, restabelecendo a vida coletiva e o debate político na histórica Praça de Maio. Aí, presentes, sempre as protagonistas da luta pelos direitos humanos na Argentina, as aguerridas mães e avós dos lenços brancos, de oitenta a noventa anos; algumas em cadeiras de roda, outras, apoiadas em bastões, mas com a cabeça erguida, a voz firme, as ideias claras, combatendo o neoliberalismo, exigindo justiça social. Por isso, o lema desta vez resume melhor o que há que fazer no contexto atual: “Memória para defender a soberania. Verdade pelos e pelas 30 mil. Justiça para o povo”.

Celebração pela "Memória, Verdade e Justiça" acontece em memória aos militantes, intelectuais e sindicalistas desaparecidos pela ditadura argentina

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24 de março, é uma data histórica da celebração da “Memória, Verdade e Justiça”

Mais uma vez, o povo argentino surpreende, demonstra o seu alto grau de consciência política, e solidariedade humana, consolidadas ao largo de anos de mobilizações e conquistas sociais respaldadas no peronismo-kirchnerismo, e na resistência à ditadura militar dos anos 76. Afluíram das províncias (onde também houve mobilizações locais) à capital de Buenos Aires, como nunca, um leque enorme de partidos e organizações políticas, militantes sociais e da esquerda, organismos de direitos humanos e sindicatos, com um notável destaque ao volumoso cordão kirchnerista do “La Campora” (que marchou paralelamente 13 km desde o Espaço de Memória da ex-ESMA até a Praça de Maio, repetindo com mais força o que tem feito desde 2016).  

Ao mesmo tempo, juntou-se à multidão, uma maré comovedora de cidadãos comuns, não pertencentes a grupos organizados, associações de familiares de nisseis (japoneses) ou de armênios desaparecidos na ditadura, argentinos mortos pelo franquismo; e o que era notável era uma juventude transbordante (nascida no pós-ditadura), famílias com crianças, abarrotando os metrôs e os transportes coletivos rumo à Praça de Maio. Muitas lideranças se surpreenderam; nem a chuva, nem o frio outonal freavam o desejo de participação, de debate político, e de impulso à unidade de Alberto e Cristina dentro das forças governistas; unidade colocada em risco nas últimas semanas, frente ao abismo das discrepâncias internas, e o oportunismo da mídia hegemônica do Clarin e La Nación para dividir a Frente de Todos. A militância com o povo na rua, deu o recado, pôs ordem, e fez a síntese do processo que, nas últimas semanas antes e durante a votação do recente Parlamento do acordo com o FMI, criou tensões e desesperanças no campo da frente nacional e popular da FdT. Tudo isso, no contexto mundial de guerra na Ucrânia aumentando as incertezas econômicas e políticas no plano nacional.

Neste 24 de março, o povo na rua, junto à sua vanguarda extra-parlamentar, pôs ordem no debate. Não para contê-lo, mas para marcar presença e dar a mensagem de que o poder popular é decisivo na unidade da FdT; e que sem esta unidade não há como garantir um Nunca Mais. Os agentes da ditadura econômico-militar continuam vivos, seja através do FMI, do poder das oligarquias rurais, sustentados na Corte Suprema de Justiça e na mídia hegemônica. 

Ao mesmo tempo, as organizações de base e populares deram o recado de que as necessidades de sobrevivência são urgentes, e de que o governo deve avançar mais rápido; de que a participação direta das mesmas na elaboração e execução de medidas econômicas a favor dos 40% de excluídos, é condição imprescindível para uma unidade transformadora. O recado foi dado: o governo deve falar mais grosso, impor rapidamente a mão forte do Estado contra a oligarquia rural, contra os monopólios de distribuição e marcação de preços dos alimentos, das tarifas de energia, e controlar os mecanismos inflacionários. Só assim poderá contar com o apoio popular, e desta forma evitar que a direita retorne a governar nas eleições de 2023.

Depois do 24 de março a Frente de Todos dá um importante passo unificador. O projeto dos senadores da FdT de criação de um Fundo para pagar parte da dívida com o FMI, cobrando dos sonegadores fiscais que não declaram seu capital desviado aos paraísos fiscais, é um ponto fundamental de costura da unidade da FdT no governo. De fato, Alberto Fernandez já declarou, como Governo Nacional, seu apoio a esse projeto. A vice-presidenta, Cristina Kirchner, reuniu-se com Stanley, o embaixador dos EUA, para que o seu país apoie a Argentina a recuperar para esse Fundo os capitais desviados ilegalmente ao exterior. A reunião oferece uma simbologia política para indicar de quem é a culpa da enorme dívida com o FMI. A lei permitiria arrecadar 20% dos bens não declarados que são cerca de 417 bilhões (US$). A arrecadação poderia chegar a uns 20 bilhões (US$) ou muito mais, superando o valor total da dívida com o FMI se for considerada a totalidade da fuga de capitais ao exterior. A idealização de tal projeto da FdT no senado baseou-se nos discursos de Cristina Kirchner em várias ocasiões, cujo momento épico foi em 10 de dezembro de 2021, no dia da Democracia, diante de centenas de milhares na Praça de Maio, com a presença de Lula da Silva e José Mujica, ao dizer que a dívida tinha que ser paga pelos que evadiram os dólares ao exterior:  “diante das grandes adversidades, grandes ações. Digamos ao Fundo que nos ajude. Fala-se muito que faltam dólares na Argentina. Não, os dólares dos argentinos foram levados ao exterior“. Cristina Kirchner chamou a que o FMI contemple “cada dólar que foi ao exterior na fuga de capitais promovida no governo de JxC (Cambiemos), para que se pague a dívida com o Fundo”. 

Este projeto dos senadores (FdT) imprime um golpe econômico, mas sobretudo político à oligarquia e aos especuladores financeiros cujos representantes parlamentários e midiáticos já reagem enlouquecidos. Desmonta-se a manobra da mídia hegemônica que difunde a “disputa de Cristina versus Alberto”. A FdT não se quebra como desejaria a oposição (JxC), e esta se põe histérica pois começa a fracassar o seu “dividir para reinar”. A extrema direita que instigou ataques criminosos com pedras ao escritório de Cristina Kirchner no Senado durante a votação do acordo com FMI no Congresso, se dedica a espalhar agora, nos muros das ruas e redes sociais, cartazes denegridores e violentos de inspiração fascista contra a vice-presidenta, demonstrando desespero; sobretudo porque neste 24 de março, o povo provou que não perdeu a Memória e está disposto a lutar. Mas, a direita, além de ter o Clarin e La Nación a seu favor, não pede licença. Por isso, o presidente Alberto, com seus ministros, está sendo chamado a superar sua falha comunicacional-institucional. Lopez Obrador, presidente do México, por exemplo, é um bravo comunicador diário. É hora de usar, sem mais delongas, antes que seja tarde, o direito e o poder da cadeia nacional de rádio e TV para dialogar com o povo, anunciar de que lado está, e explicar minuciosa e didaticamente cada decreto ou medida presidencial. Este projeto contra os sonegadores fiscais da fuga off-shore oferece uma grande oportunidade política para comunicar à cidadania quem contraiu a dívida com o FMI e, portanto, quem a deve pagar. 

Está previsto que, uma vez superada a votação no Congresso sobre o polêmico acordo com o FMI, o governo anuncie passos econômicos de maior impacto, e os setores combativos e kirchneristas dentro da FdT também radicalizem propostas, como agora no Senado. É verdade, que de 2021 para este ano, o governo recuperou a macroeconomia, a atividade industrial e o nível de emprego. Mas, não basta isso. Os movimentos sindicais discutem que o aumento da produtividade deve parar a inflação e gerar uma distribuição justa das entradas, ajustando o poder aquisitivo dos trabalhadores à alta inflacionária do preço dos alimentos e aluguéis. Há indicações de que a base sindical combativa vinculada ao kirchnerismo assumirá uma maior força através da substituição de direções burocráticas na UOM (União Operária Metalúrgica), bem como no sindicato de empregados do Comércio. A crise da FdT deve ser uma crise de crescimento; pode-se reverter, acentuando a sua unidade através do crescimento das lutas em todos os níveis de atuação, desde os parlamentares, governadores, prefeitos, organizações de bairro e sindicatos, dialogando com as bases para impor soluções e medidas concretas aos problemas que são urgentes, da fome, do desemprego, dos sem-teto, já e agora, e com letras maiúsculas.

Seguramente, a manifestação deste dia 24 de março pela “Memória para defender a soberania. Verdade pelos e pelas 30 mil. Justiça para o povo” demonstrou que a força motora para qualquer unidade transformadora da Frente de Todos (FdT) e para um Nunca Mais no país, está no povo organizado, consciente, informado, objeto e sujeito participativo dentro do Governo Popular peronista-kirchnerista, incluindo suas crises de crescimento. E isso, considerando que com o recente acordo com o FMI, o governo não haverá de frear o caminho das negociações de Alberto/Cristina com a China e a Rússia, apesar da guerra na Ucrânia. A Argentina, que rege, neste ano, a presidência da CELAC, com incorporações de novos governos progressistas (Chile e Honduras), poderá ser agente e beneficiária da imprescindível Frente Única anti-imperialista, com a reintegração soberana da América Latina.

29/03/22 H.I.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Helena Iono Jornalista e produtora de TV, correspondente em Buenos Aires

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