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Ainda há motivos para agir em defesa da democracia e da dignidade no Brasil

Na ausência de ações efetivas do governo federal, profissionais de enfermagem e assistência sociais seguem salvando cidadãos e a democracia

Verônica Lima
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Com números crescentes de casos e mortes por Covid-19, o Brasil aparenta caminhar para certo estado de torpor. É verdade que os escândalos políticos, a falta de um projeto governamental nítido de enfrentamento da pandemia, a violência policial, entre outros absurdos diários ajudam na sensação de formigamento que vivemos diariamente. Mas se há sensação, ainda há corpo. E se ainda temos um corpo social, há ainda motivos para agir em defesa da democracia e da dignidade nesse país. Assim, a vontade democrática sobrevive e persiste nas trincheiras que buscam garantir saúde e condições sociais básicas de vida para os brasileiros nesse momento de pandemia. 

Nesse contexto, foram feitas homenagens expressivas a médicos e enfermeiros no início do enfrentamento ao vírus no Brasil, quando os números ainda não colocavam o Brasil como o epicentro da Covid-19 no mundo, tal como atualmente. E vimos, ao longo desses 3 meses, uma outra realidade se delineando. As notícias na mídia retrataram a mudança de tom ao mostrar os protestos por melhores condições de trabalho por parte de profissionais da saúde, especialmente da enfermagem, e até mesmo ataque físico a esses profissionais. 

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O desenvolvimento desse cenário culminou num dado preocupante e triste: o Brasil já é o país com maior incidência de morte de profissionais de enfermagem no mundo. Essa terrível estatística parece não ter mobilizado nem a opinião pública, nem o governo de forma expressiva, como acontecia no início da pandemia no Brasil. E num momento em que todo o mundo se volta para as questões relacionadas às desigualdades raciais, talvez fosse importante homenagear a categoria que fica na linha de frente do combate à Covid-19 e que é majoritariamente negra: segundo estudo realizado em 2016 pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) 53% das pessoas que compõem as equipes de enfermagem são negras. 

O olhar desatento para a vulnerabilidade da área de enfermagem tem lastro: a inexistência de diretrizes e posicionamentos claros por parte do governo federal é absurdamente irresponsável, especialmente no que diz respeito à atuação do Ministério da Saúde – que já teve 3 diferentes chefes, em 3 meses, sendo um deles não especialista na área. Não se posicionar de forma responsável diante das mortes de trabalhadoras e trabalhadores da enfermagem não é só negligência, mas é fazer da própria ausência a política de Estado. Como complemento, os escândalos de corrupção, falta de decoro e intolerância, característicos da cúpula do governo, reforçam o processo de anestesia da opinião pública. 

Tal estado de torpor também encobre a importância outra categoria que tem sido fundamental no combate à pandemia: profissionais de assistência social. Em grande parte dos hospitais e postos de saúde, é de responsabilidade da assistência social manter contato com familiares dos doentes em processo de recuperação. Além disso, são as assistentes sociais que mantêm vivos os aparatos de proteção à população mais vulnerável nesse momento, como centros de acolhimento e projetos de atenção, oferecendo apoio e dignidade à vida de muitas pessoas em situação de pobreza. 

Uma pesquisa realizada entre abril e maio pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e divulgada neste mês de junho, revelou que mais de 80% dos profissionais de serviço social não se sentem preparados para atuar especificamente no contexto da pandemia ou não responderam sobre esse aspecto. Ao mesmo tempo, mais de 90% dos profissionais afirmaram ter medo de serem infectado, e menos de 13% afirmaram ter recebido treinamento específico para atuação durante a pandemia. Foram ouvidos 439 profissionais de todas as regiões brasileiras. 

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Os dados são também sintomáticos da política de ausência do Estado na área. O Ministério da Cidadania, que engloba desde o início do mandato atual deste governo o extinto Ministério de Desenvolvimento Social, foi um dos que também sofreu mudança de seu chefe em meados de fevereiro e também não apresentou um projeto consistente de combate à pandemia. A não ação do governo na proteção social dos cidadãos também pode ser considerada a partir do viés racial: sendo a população pobre do país majoritariamente negra, a garantia de direitos a essa população também contribui no combate à desigualdade racial, pauta tão latente na contemporaneidade.

Desde 2018, a campanha “Assistentes sociais no Combate ao Racismo” está em curso, com destaque ao protagonismo de assistentes sociais negras na condução da ação. Conforme a própria descrição da campanha, “o trabalho de assistentes sociais tem relação direta com as demandas da população negra que reside nos morros, nas favelas, no sertão, no campo e na cidade”. Embora os dados atualizados do percentual de assistentes sociais negros no Brasil ainda estejam desatualizados, a própria existência de reflexão e ação sobre as questões de raça e desigualdade denotam a presença atuante de profissionais negras e negros, tal como na área da enfermagem. 

O que acontece com essas duas categorias é um espelho da ausência de projeto de país que caracteriza o governo atual. Tomar consciência desse descaso, nos traz duas responsabilidades: a primeira é valorizar e agradecer trabalhadoras e trabalhadores, que seguem honrando o compromisso democrático de exercer suas funções de proteger os cidadãos de doenças e vulnerabilidades sociais. A segunda, e mais desafiadora, é criar as condições para responsabilizar o governo por suas incompetências e, assim, trilhar o caminho para construir um país onde haja compromisso democrático, articulando diversidades e promovendo cidadania. Um país onde seja possível novamente sonhar (e realizar). 

Links para acompanhar o artigo:

https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/05/27/brasil-e-o-pais-com-mais-mortes-de-enfermeiros-por-covid-19-no-mundo-dizem-entidades.ghtml

http://www.cfess.org.br/arquivos/PesquisaFGV-rel03-social-covid-19-depoimentos-v2.pdf
http://servicosocialcontraracismo.com.br/


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Verônica Lima

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