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Alargar muro fronteiriço de Trump é a nova jogada eleitoreira de Biden

Agora, republicanos e democratas disputam qual partido é mais efetivo em aplicar medidas falidas contra a questão migratória em busca de votos
Jim Cason
La Jornada
Washington

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A decisão do presidente Joe Biden de construir um pouco mais do muro fronteiriço do ex-mandatário Donald Trump foi denunciada por vários legisladores e uma ampla gama de organizações liberais, mas é quase seguro de que seja só um prefácio do que será um aparente concurso entre democratas e republicanos para se projetarem como os mais efetivos em controlar a migração entre agora e as eleições presidenciais de novembro de 2024. 

Políticos de ambos os partidos nacionais, associações empresariais, defensores de imigrante e uma ampla gama de especialistas neste país entendem que nenhum muro nem uma tecnologia ou campanha anti-imigrantes pode frear o fluxo de pessoas tentando ingressar aos Estados Unidos sem documentos, sem adotar também uma estratégia muito mais ambiciosa para abordar o fenômeno migratório e suas causas a fundo.

O muro de Trump contra América Latina

Ao mesmo tempo, muitos estão conscientes de que agora, como foi no passado, este debate político inclui uma realidade às vezes oculta na retórica política: Estados Unidos necessitam mais imigrantes, algo que inclusive republicanos como os governadores de Indiana e Utah e diversas agrupações empresariais repetiram este ano. 

Mas os fatos e as soluções reais de longo prazo não importam até que se consiga um giro no jogo político, algo que não se conseguiu e que não se perfila em meio a um ciclo eleitoral como este e sobretudo quando os republicanos colocaram posição anti-imigrantes no centro de suas campanhas e estão logrando ganhar o apoio da opinião pública. 

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Wayne Cornelius, diretor emérito do Mexican Migration Field Research Program na Universidade de Califórnia-San Diego, comentou ao La Jornada que “a politicagem doméstica nos Estados Unidos sobre esse tema mudou em maneiras que fazem que opções políticas “razoáveis” sejam quase irrelevantes”.

Frisa que “depois de oito anos do trumpismo virulento infectando nosso corpo político, cheguei à conclusão de que o gênio nativista/nacionalista branco escapou da lâmpada. É muito perigoso, e as forças potenciais que poderiam ajudar a neutralizá-lo por ora estão demasiado débeis para fazer uma diferença”

Agora, republicanos e democratas disputam qual partido é mais efetivo em aplicar medidas falidas contra a questão migratória em busca de votos

Governo dos EUA
"Democratas financiaram muros desde a presidência de Carter. Inovação de Trump foi fazê-lo como espetáculo", diz historiador




Mudança de rumo

O resultado é que Biden e seus estrategistas aparentemente concluíram que necessitam seguir construindo o muro de Trump que tanto denunciaram anteriormente, e que os democratas e republicanos provavelmente apoiarão mais fundos para mais muros e outras barreiras, iniciativas para frear o ingresso de imigrantes não autorizados nas negociações sobre o orçamento federal deste outono.’

“Dado o fluxo elevado de gente, e a pressão política da direita e dos liberais, Biden teve que ser mais agressivo em medidas [de controle]”, explicou Muzaffar Chishti, analista no Migration Policy Institute, em entrevista a Político. “Mesmo seu próprio partido esteve solicitando medidas mais firmes”, comentou. 

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Perguntado por sua opinião sobre a decisão de Biden de construir outro segmento do muro fronteiriço, o deputado democrata texano Colin Allred, que está lançando uma campanha desafiando o republicano conservador Ted Cruz pela disputa ao senado, disse ao Político que as cidades fronteiriças do Texas estão abrumadas com a alta onda de migrantes”. 

Mas políticos, incluindo democratas progressistas e agrupações de imigrantes, rechaçam esse argumento e protestam contra o que alguns consideram uma traição à promessa de anular as medidas anti-imigrantes de Trump e seus aliados.

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“O governo de Biden não estava obrigado a ampliar a construção do muro fronteiriço – e certamente não estava obrigado a suspender várias leis ambientais para fazer expedita essa construção”, afirmou a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, só uma de muitos dentro do partido ou alinhado com os democratas em condenar a decisão.

No entanto, para os democratas e suas estratégias, pesquisas recentes mostram que 75% dos estadunidenses opina que a “imigração ilegal” é um grande problema para este país. Enquanto uma maioria esmagadora de republicanos vê a migração como um problema maior, está crescendo o número de democratas que compartilham essa percepção.


Fluxo mudou

O fluxo da migração também mudou, aponta Cornelius, que é um dos especialistas veteranos sobre este tema e que estudou o fenômeno desde os anos 1970. “O que pensávamos que era uma tema de fronteira entre os Estados Unidos e o México agora deve ser percebido como só uma subsérie de um fenômeno muito maior, de fato global, impulsionado por forças como os meios sociais e telefones celulares facilmente adquiridos que não existiam em décadas anteriores”.  

Até a data de hoje, não se vislumbram medidas efetivas para controlar o que todos os dias se qualifica para fluxos “sem precedentes” nas notícias, algo que continua nutrindo o ataque anti-imigrantes de republicanos conservadores e seus aliados. E isso apesar de que as condições materiais para fazer um giro real na política estejam presentes. 

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“Temos que recordar que tudo isso está sucedendo em um momento em que há uma taxa de desemprego real historicamente baixa nos Estados Unidos, existem cerca de 10 milhões de empregos vagos em todos os setores da economia, centena de milhares de novos empregos estão sendo gerados a cada mês, milhões… estão chegando à terceira idade, há um déficit crescente de trabalhadores para cuidar de todos esses aposentados” entre outros fatores, afirma Cornelius.

Ele conclui que “se jamais houve um momento em que a política migratória deveria engrenar-se sistematicamente com a demografia mutante do país e seus mercados de trabalho, este momento é agora, mas essa forma de abordar o tema está tão longe das realidades políticas atuais que ninguém leva a sério”. 

Para Cornelius, não se pode impulsionar as mudanças necessárias e racionais baseados na evidência em torno da migração sem primeiro mudar essa realidade política imposta pelo Partido Republicano de Trump; se só uma das câmaras do Congresso ainda está sob o controle de republicanos, estas mudanças necessárias não são possíveis.

Outros concluem que ambos os partidos compartilham a culpa. O historiador Greg Grandin, da Universidade de Yale, diz que “os democratas financiaram muros e barreiras fronteiriças desde a presidência de Carter. Mas sem ruído. A inovação de Trump foi fazê-lo como espetáculo… O que Biden está fazendo agora teria sido visto no passado como rotina. Trump nos fez o favor de fazer-nos ver quão brutal era essa rotina”.

Jim Cason e David Brooks | La Jornada, especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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