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Além da cultura, Semana de Arte Moderna de 22 também revolucionou educação

Artistas de destaque na época tiveram protagonismo na Revolução de 1930, que apostou no ensino como condição para o desenvolvimento
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Comemora-se, neste ano, o bicentenário da independência e o centenário da Semana de Arte Moderna. A independência, em 1822, foi um arranjo entre famílias para dividir territórios e poder, uma farsa, portanto. Na realidade, o país se manteve dependente tanto de Portugal como da Inglaterra por séculos, dependência que apenas trocaria de potência a partir do século 20.

Já a Semana de Arte de 1922, foi uma demonstração de que o Brasil existe, com a força do pensamento liberto. Ela transcorre numa São Paulo que se preparava para ser a grande metrópole. Criatividade e Construção — eis a chave, o binômio do desenvolvimento acelerado. 

São Paulo ganhou o título de cidade que mais crescia no mundo, em todos os sentidos. Edificando num ritmo de quatro casas por hora, absorvia a mão-de-obra desesperada por trabalho do Brasil inteiro. Com isso, tornou-se a maior capital dos estados do norte e nordeste.

Artistas de destaque na época tiveram protagonismo na Revolução de 1930, que apostou no ensino como condição para o desenvolvimento

Montagem
Manoel Bandeira, Di Cavalcanti, e Anita Malfati

Anita Malfati, Di Cavalcanti, o Candinho de Brodósqui, Manoel Bandeira, o príncipe dos poetas, Villa Lobos, o músico, e não estava Pixinguinha, que como um Mozart redivivo encantava o mundo com sua música brasileira. 

Cândido Portinari não estava na semana, tinha 19 anos e estudava arte no Rio de Janeiro, mas falar de artes plásticas sem Portinari é ignorar o que foi o maior. 

Tampouco estava Tarcila do Amaral, que estudava em Paris e voltou para, em 1928, lançar com Mário e Oswald o Manifesto Antropofágico e figurar entre as grandes do mundo.

Falar dos ausentes é falar dos mais importantes intelectuais e artistas brasileiros de mais de uma geração.

Oswald e Mário de Andrade

Oswald de Andrade foi um grande articulador e agitador no meio intelectual, já Mário é a quintessência da brasilidade. Brasilidade resumida no Manifesto da Poesia Pau Brasil. 

Lembro de Antônio Carlos Brasileiro, o Tom Jobim, dizendo numa entrevista: “a culpa é do Mário, quem disse: ‘faça música brasileira’”. Ele não o conheceu pessoalmente, mas leu tudo e se entusiasmou.

Eu poderia dizer o mesmo. A culpa é de Mário de eu ter mergulhado nesse nosso Brasil profundo, cavucando suas entranhas, me impregnando de brasilidade. Aliás, vale dizer que, o que fui e sou hoje, devo a Mário, pelas razões expostas, a Nietzsche, por ter me libertado do jugo de deus e a Frantz Fanon, por ter me libertado da Europa. Tornei-me um ser liberto a lutar pela liberdade e independência de meu país e da pátria humanidade.

Antecedentes do modernismo

Eram mais de 40 artistas. Essa turma vinha agitando o cenário cultural desde o início da década de 1910. Eram os playboys da época, diria candidamente Guilherme de Almeida, décadas mais tarde. De fato, riquinhos e filhos de oligarcas.

Para Ruy Castro, autor do livro “Metrópole à beira-mar”, publicado pela Companhia das Letras, em 2019, a semana arrombou uma porta aberta e a propaganda escondeu a grande maioria de talentos, como Euclides da Cunha, Edgar Roquette-Pinto, Lima Barreto – aliás, foi Lima Barreto quem inventou o que mais tarde seria o realismo fantástico – João do Rio, Augusto dos Anjos, Julia Lopes de Almeida, Gilka Machado, Carmen Dolores, Orestes Barbosa, Alvaro Moreyra, Agrippino Grieco, Elysio de Carvalho, Adelino Magalhães, Pixinguinha, Sinhô, entre outros.

Rio era a capital, a maior melhor organizada e conectada com o mundo, fervia intelectualmente, não precisava de uma semana para se modernizar. Em 1922, centenário da independência, a cidade comemorou, realizando uma Exposição Universal. 

Inaugurada em setembro a exposição, durou até abril de 1923, com cerca de 10 mil expositores, 15 pavilhões estrangeiros, cada um com enormes palácios. O Rio estava sendo virtualmente demolido e reconstruído para ressurgir como uma cidade moderna.

Importante registrar o contexto. Não foi um fato isolado e transcorreu num clima de grande agitação e uma crise econômica profunda que desembocou na Revolução de Outubro de 1930, essa sim, com caráter modernizante, porque antioligarca e anti-imperialista.

Cronologia

Em 1917, ocorreu a greve geral, em São Paulo. A oligarquia ficou estupefata, sem entender o que estava ocorrendo, mandou reprimir. O evento ocorreu numa São Paulo que se urbanizava numa velocidade incrível, por operários, na sua maioria imigrantes, pioneiros na organização dos trabalhadores através dos sindicatos e com consciência de classe.

Em fevereiro de 1922 é realizada a Semana de Arte no Municipal de São Paulo. A São Paulo provinciana queria modernizar-se. Oligarcas se misturam a comunistas e integralistas para fazer a arte brasileira.

Já em março de 1922, é fundado o Partido Comunista do Brasil, logo Partido Comunista Brasileiro, o Partidão, semente de onde germinaram movimentos e organizações revolucionárias. Foi extinto em 1992

Em Julho de 1922, ocorre a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana. Nela estava o tenente Antônio Siqueira Campos. A questão militar não resolvida que levou ao golpe de estado militar contra o Império e à proclamação da República, mantém em tensão o interior das casernas por todo o país.

Setembro de 22: a Exposição Internacional traz para o Rio de Janeiro gente do mundo inteiro.

Em julho de 1924 ocorre a Revolução Paulista, com o general Isidoro Dias Lopes, o capitão Miguel Costa, quem se negou a cumprir ordem de massacrar os grevistas de 17 e parlamentou com eles. São Paulo foi praticamente destruída pelas tropas legalistas.

Coincidentemente, no Rio Grande do Sul, são várias as unidades militares sublevadas, ai se destaca a que tinha no comando o capitão Luís Carlos Prestes.

Coluna Prestes: Em 1925 é realizada a Coluna Prestes, uma grande marcha que percorreu 25 mil quilômetros e chegou a ter, no auge 1.500 homens. Durou até 1927. Era formada por oficiais de baixa graduação e alguns civis, inclusive mulheres. Cabe um parêntesis: 1926: Coluna Prestes; 1931, Prestes em Moscou; 1934, reunião da Internacional Comunista; 1935, Prestes e Olga no Brasil; 1935, insurreição começa em Natal e se instala no Recife, ficou conhecida como a Intentona de 35.

1928: Manifesto Antropofágico, como o anterior da Poesia Pau Brasil, escrito por Oswald, mas carregado de Tarcila: 

“tupi, ou not tupi, that is the question. Contra todas as catequeses. (…) Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. (…) Antes dos portugueses descobrirem o Brasil. O Brasil tinha descoberto a felicidade”.

Setembro de 1929 é formalizada a Aliança Liberal, envolvendo os estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. Vargas no comando proclama que a solução da questão social é primordial para consolidar a República.

Revolução de Outubro de 1930, também conhecida como Revolução dos Tenentes. Ali estavam Isidoro e Miguel Costa, agora sob o comando de Vargas, um civil que vestiu farda e empunhou armas para fazer a revolução.

A Aliança Nacional Libertadora surge por volta de 1934 como uma reação ao restabelecimento do poder oligárquico e surgimento de grupos fascistas, como a Aliança Integralista. É como uma retomada dos ideais da Aliança Liberal, com protagonismo dos comunistas. Queriam que Prestes assumisse o comando, mas o Cavalheiro da Esperança achou que era coisa de pequena burguesia. O golpe de 1937 acaba com a festa e se impõe pela força.

Revolução na educação

Falar de outubro de 1930 é falar de Revolução, porque foi antioligarca e se deu principalmente na educação. O projeto das elites era manter o povo analfabeto. Já o projeto do Brasil moderno tinha a Educação como condição sine qua non para o desenvolvimento. 

Gustavo Capanema atuou no Ministério da Educação e Saúde Pública de 1933 a 1945, tendo a seu lado os intelectuais mais notáveis e semeou o país de escolas. Foram construídas milhares de escolas normais para formar professores para o ensino básico; escolas técnicas para formar a mão-de-obra necessária para a industrialização e a modernização da agricultura, além da criação de universidades.

Seu chefe de gabinete era o poeta Carlos Drumond de Andrade, que trouxe Mário de Andrade, Manoel Bandeira, Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Burle Marx, Lúcio Costa,  Vinícius de Moraes, Afonso Arinos de Melo Franco, Cecília Meireles, Heitor Villa Lobos para colaborarem. Por sugestão de Villa, nas escolas se ensinava Canto Orfeônico.

Tinha a seu lado Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, e em São Paulo, Zeferino Vaz. Ganharam protagonismo os intelectuais não só da Semana, mas de todas as épocas. 

Em 1948, foi criado o Conselho Federal de Educação que se efetivaria somente em 1961, com Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, no governo de João Goulart.

Pra encerrar: Tudo isso durou pouco. A ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro nos levou a um governo militar de ocupação a serviço do imperialismo dos Estados Unidos, o que nos remete à necessidade de uma ampla frente de salvação nacional que abra espaço para a libertação nacional.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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