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"Alimentos Justos": agricultura criada nos EUA combate escravidão e vira modelo internacional

Programa representa uma das mudanças mais dramáticas em décadas e é resultado de anos de luta de trabalhadores sem direitos, a maioria imigrantes
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Representantes do governo e agricultores chilenos, junto com suas contrapartes do Departamento do Trabalho e de Estados dos Estados Unidos, se encontraram em uma esquina agrícola de produção de tomates na Florida para aprender em primeira mão a experiência inédita do Programa de Alimentos Justos no nível local, nacional e internacional criado e promovido pela Coalizão de Trabalhadores de Immokalee.

Enviados do Ministério da Agricultura e do Ministério do Trabalho do Chile e representantes de associações e cooperativas de produtores desse país, junto com algumas contrapartes governamentais dos Estados Unidos fizeram um recorrido guiado pela Coalizão de Trabalhadores de Immokalee (CIW) para ver “ao vivo” como funciona o Programa de Alimentos Justos nos campos da Florida, onde se encontraram com diaristas, pequenos produtores e executivos de cadeias nacionais de supermercados.

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“Somos sócios da CIW desde 2010, temos a humilde honra de ser o primeiro cultivador na Florida em firmar um acordo direto com o CIW”, depois de ter evitado, contou Jon Esformes, dono da Pacific Tomatoes (que tem operações na Florida, Georgia, Tennessee y México), aos visitantes. Explicou que ao firmar o acordo, foi notado quase de imediato a diferença nos campos entre os trabalhadores e os patrões sob as novas normas e mecanismos de proteção trabalhista. “Antes eu era parte do problema, agora sou parte da solução”, concluiu. 

Estas visitas são importantes, afirma Lucas Benitez, um dos coordenadores fundadores de CIW, porque se difunde e compartilha “um programa que saiu de um povo esquecido na Florida para oferecer luta neste mundo tão escuro da agricultura no nível mundial”, comentou em entrevista ao La Jornada.

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Não é a primeira visita internacional aos campos e trabalhadores sob o inovador código de conduta da CIW, nem a primeira vez que ofereceram sua experiência a outros ao redor dos Estados Unidos – onde opera em 10 estados – e várias partes do mundo. Trabalhadores de lácteos em Vermont que produzem leite para os sorvetes Ben & Jerry’s empregaram o modelo e a assessoria de CIW dentro deste país, entre outros. 

No nível nacional e internacional, está sendo impulsionada uma nova iniciativa com grandes cultivadores e comercializadores de tulipas e outras flores tanto dentro deste país como no Chile, na África do Sul e no México, e agora levam o selo de Programa de Alimentos Justos. Sob esta iniciativa que já opera nos Estados Unidos, estas flores de Whole Foods agora estão envolvidas em papel com uma etiqueta que diz “Fair Food” do Programa de Alimentos Justos e com os dizeres: “Apoiando trabalhadores, comunidades e o meio ambiente”. Essa etiqueta também está nos tomates e outros produtos comercializados sob o programa.

Programa representa uma das mudanças mais dramáticas em décadas e é resultado de anos de luta de trabalhadores sem direitos, a maioria imigrantes

CIW
Delegação chilena visita local de nascimento do Programa Alimentos Justos




Acordos sem precedentes

Sob acordos sem precedentes entre as grandes cadeias de comida rápida e supermercados – entre esses Taco Bell, Burger King, McDonald’s, Subway, e Whole Foods (agora propriedade da Amazon) e Walmart – e os pequenos produtores e trabalhadores ao longo dos últimos 123 anos, a Campanha de Alimentos Justos não só elevou os pagamentos dos trabalhadores, mas melhorou as condições de trabalho, a resolução de disputas e pela primeira vez fez cessar a importunação e o abuso sexual contra mulheres.  

Em pequenas propriedades dentro do acordo, os trabalhadores gozam de normas para evitar abusos e violações de seus direitos, incluindo programas de capacitação sobre seus direitos, um processo de investigação e resolução de queixas, auditorias independentes das propriedades e acordos legais com até agora 14 dos maiores compradores de produtos agrícolas do mundo [https://fairfoodprogram.org/].

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Os acordos foram fruto de campanhas nacionais encabeçadas pela CIW e aliados religiosos e estudantis durante anos, e algumas delas ainda continuam hoje contra a Wendys, Kroger e a Publix, quase as últimas grandes cadeias que ainda não aceitaram negociar. O árbitro do primeiro acordo, com Taco Bell, foi ninguém menos que o ex-presidente Jimmy Carter. 

A família Kennedy também apoiou estes esforços, que foram reconhecidos com todo tipo de prêmios e elogios, incluindo a Medalha Presidencial outorgada aos coordenadores fundadores da VIW, o mexicano Lucas Benitez e o armênio-estadunidense Greg Asbed pelo Presidente Barack Obama, como outros reconhecimentos da Organização das Nações Unidas [https://ciw-online.org/].

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Benitez comentou que “o desafio agora é seguir incorporando mais empresas compradores, os grandes supermercados no nível global como Tesco, para que limpem suas linhas de produção com o Programa de Alimentos Justos e continuem esta transformação”.

Assinalou que agora estão expandindo este esforço na Europa com o sindicato ITF entre os pescadores da zona da Escócia e Irlanda, onde os trabalhadores são africanos e da Indonésia. 

Estas transformações, através do Programa impulsado por CIW, onde antes imperavam condições qualificadas de “escravidão moderna”, são uma das mudanças mais dramáticas em décadas para trabalhadores diaristas, e são resultado de uma luta de anos de trabalhadores sem direitos e, em sua maioria, imigrantes do México, da América Cantral e do Caribe, muitos deles indocumentados. 

“Os trabalhadores diaristas outorgam a este país nossas necessidades mais básicas, e em troca, agimos como se não importassem ou não existissem”, comentou John Oliver em seu programa de notícias e sátira influente na HBO “Last Week Tonight” que enfocou sobre os trabalhadores do campo e concluiu elogiando os esforços do CIW. Assista:

David Brooks e Jim Cason | La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.
Tradução Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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