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Alternativas progressistas e a contraofensiva das direitas

Nils Castro

Tradução:

Nils Castro*

Nils-Castro-Perfil-Diálogos-do-SulOs três primeiros lustros do século XXI na América Latina tiveram como características o surgimento de governos “progressistas” e a consequente orquestração de uma contraofensiva multidimensional das direitas, cujos propósitos ultrapassam uma simples restauração das condições prévias a tal surgimento.

No início do período, a atenção jornalística e acadêmica registrou a surgimento do fenômeno e comentou as circunstâncias que possibilitaram sua aparição, as similitudes e contrates entre esses governos e seus principais efeitos e repercussões nacionais, regionais e internacionais. Ao mesmo tempo abordou o campo de oportunidades que esses processos abriam em Nossa América -desde o combate à pobreza até a integração regional-, caracterizando suas contribuições e limitações, bem como as diferenças entre suas possíveis variantes progressistas ou revolucionárias –e se as primeiras podem converter-se nas segundas-, tentou juntar certo marco teórico ao tema. Não obstante, muitas vezes definindo à sombra de instrumentos e propostas conceituais tomados do período anterior de auge das ideias revolucionarias nos anos 1960 e 1970, anterior à implosão do “socialismo real”, a ofensiva neoconservadoras e a hegemonia neoliberal dos decênios seguintes, e de seus efeitos socioeconômicos, políticos e culturais.
América-Latina5-400x383A interpretação do sentido e implicações dessa maré progressistas, em suas respectivas modalidades e etapas, despertou varias controvérsias no seio das esquerdas, porém com frequência adotou caracterizações mais focadas em exaltar ou em desqualificar seus diferentes aspectos que em discernir a originalidade e a natureza do fenômeno e, portanto, das oportunidades e consequências que isso aporta.
Provavelmente isto contribuiu a que a atenção jornalística e acadêmica dispensada demorasse em advertir a bem previsível contraofensiva das direitas, não só no que concerne a seus recursos, instrumentos e modos de atuar, como especialmente no que respeita seus objetivos de maior alcance. Consequentemente, demorou em prever as ações que as organizações e partidos de esquerda, e os governos progressistas, deveriam assumir para superar suas próprias falhas, vencer essa contraofensiva e empreender a etapa seguinte do desenvolvimento regional. Não poucas vezes aqueles que desde a esquerda foram mais críticos das insuficiências desses governos progressistas, ao mesmo tempo foram os mais fracos analistas da projeção estratégica que esta contraofensiva se propõe alcançar como contrarrevolução preventiva.

Contorno inicial do fenômeno

Usualmente, os registros sobre essa maré de governos progressistas começam pelo primeira eleição de Hugo Chávez em 1998 (reeditada em 2001, 2007 e 2012). Não obstante, poucos desses registros recordam que não muito antes, em 1988, o stablishment político mexicano havia escamoteado a significativa vitória do movimento encabeçado por Cuauhtémoc Cárdenas.
A vitória chavista foi seguida de sequela de outros triunfos progressistas a escala regional: o da Concertación chilena em 2000 e os liderados por Lula d Silva em 2002 e 2006; o de Néstor Kirchner em 2003; Martín Torrijos y Tabaré Vásquez em 2004; Manuel Zelaya em 2005; Evo Morales em 2006, 2009 e 2014; Daniel Ortega em 2006 e 2012; Michelle Bachelet em 2006 e 2014; Rafael Correa em 2006, 2009 e 2013; Álvaro Colom em 2007; Cristina Fernández em 2007 e 2011; Fernando Lugo em 2008; Maurício Funes em 2009; Pepe Mujica em 2010; Dilma Rousseff em 2011 e 2014; Nicolás Maduro em 2013; e, Salvador Sánchez Cerén em 2014.
A esses, deve-se acrescentar as importantes demonstrações eleitorais encabeçadas , em 2006, por Carlos Gaviria, Andrés Manuel López Obrador e Ollanta Humala. Apesar da decepção logo provocada por este último, naquele momento os que nele votaram acreditavam apoiar uma opção progressistas.
Mais do que compreender seus respectivos perfis políticos, aqui interessa observar que essa maré –reeleições incluídas-, estendeu-se por todo o decênio e foi especialmente notória em 2006. Antes desse ano, o que estava ocorrendo pode parecer uma exceção venezuelana à qual pouco depois foi acrescentada uma réplica no Cone Sul. Não obstante, as vitórias de Evo Morales e Rafael Correa na região andina evidenciaram que o que ocorria era o surgimento de um fenômeno de caráter continental. Não é de surpreender-se, portanto, que ainda que a ponta do iciberg assomou em 1988 e cristalizou em 1998, foi a partir de 2006 que a literatura jornalística e acadêmica o entendeu como tal, ainda que ainda percebendo através de reminiscências ideológicas de época anterior mais do que questionando na originalidade e natureza do novo fenômeno.
Além disso é um equivoco além de inútil julgar o caráter destes governos segundo os relatos das premissas e expectativas conceituais características dos anos 1960 e 1970, dado que o de agora é um fenômeno de outro tempo e caráter.
Essa maré surgiu através de dissimiles processos nacionais que em poucos anos somaram um conjunto heterogêneo, sem que isso negue e sim confirme a vigência de um fator comum: o esgotamento dos modelos conservadores antes constituídos pelas direitas locais e os grupos financeiros internacionais que, seguindo a imposição das prédicas e práticas neoliberais, rapidamente agravaram a crise social e suas consequências políticas. Apesar da intensa implantação dos mitos neoliberais, que antes bastavam para controlar a situação, o mal-estar e inconformidade exacerbados por esse drama ultrapassaram os sistema políticos e eleitorais que, país por país.
A conseguinte maré progressista logo significou que milhões de latino-americanos pudessem comer três vezes ao dia, melhorar suas condições de vida, sair da marginalidade e obter cidadania e tudo mais que sabemos e que não é necessário repetir aqui.
Essas conquistas consolidaram notáveis progressos em matéria de justiça e solidariedade sociais, oportunidades de organização popular e de renovação da cultura política, mais que notáveis em contrate com a situação deixada pelo neoliberalismo, não trazem consigo um pressagio ou antessala da conversão de tais processos em revoluções socialistas, coisa que requereria a formação, mobilização e eficácia de outros setores.
A esse fenômeno não faltam precedentes na América Latina, como a marca que Lázaro Cárdenas imprimiu na Revolução Mexicana, a tentativa de Jacobo Árbenz na Guatemala ou o ímpeto inicial da Revolução boliviana, entre outros. Na avaliação, alguns dos atuais críticos radicais parecem muito mais dogmáticos que os daquela época.
Por outro lado, apesar da heterogeneidade, a maré progressista deixou pra trás a época em que as condutas latino-americanas eram padronizadas pela hegemonia estadunidense, as políticas neoliberais eram implantadas em alternativas e seus porta-vozes podiam se reeleger. Cada uma das nações envolvidas recuperou importantes cotas de autodeterminação, soberania e recursos, ainda nãos todos aqueles que a dominação neoliberal tinha arrebatado-. Entre as realizações está a de potencializar a integração latino-americana, já não só como um bem em si mesma mas como uma das condições para potencializar o papel de América Latina no mundo, assegurar a defesa da democratização e das conquistas políticas e sociais alcançadas e garantir coletivamente sua continuidade e manutenção.
A integração assou a ser um ideal a constituir-se em importante instrumento desenvolvimento, criação de novos horizontes e sustentabilidade, o que lhe aporta um sentido emancipador e muldimensional, não estreitamente comercial. Sentido que, por outro lado, tem contribuído a multilateralizar as relações internacionais e a erodir a hegemonia estadunidense n a região. O que se bem propicia a aquisição de novos sócios, ao mesmo tempo define e mobiliza a hostilidade estadunidense e suas ações conspiratórias.

A agenda inconclusa

Contudo, os três lustros progressistas não bastaram para que os diferentes participantes políticos conseguissem superar o emaranhado composto de distorções econômicas, sociopolíticas e culturais que nos anos 1980 e 1990 foi introduzido no tecido de nossas sociedades pela ofensiva neoconservador.
Deve-se recordar que, para começar, no início daquele período a crise da dívida quebrou a inspiração latino-americana que ainda se podia ver em alguns governos. Logo, depois da implosão soviética, a mudança da estratégia internacional chinesa e a fadiga das teorias revolucionarias latino-americanas dos anos 1960 e 1970, um desarranjo temporário reduziu a capacidade as esquerdas para resistir a essa ofensiva. A hegemonia neoliberal degradou a cultura política e organizativa de importantes segmentos sociais, que sofreram degradações e deserções. Isto, se de um lado propicia a aquisição de novos sócios, por sua vez define e mobiliza a hostilidade estadunidense e suas ações conspiratórias.
Ao acabar com o apogeu neoliberal, os êxitos progressistas alcançados nesses primeiros lustros do século XXI, se materializaram em dois campos que é preciso distinguir:

  1. o do Cone Sul, em que os pactos para destronar as ditaduras de segurança nacional permitiram aglutinar grandes partidos ou coalisões políticas como o PT, a Frente Ampla, o peronismo Kirchenrista e a Concertación chilena. Ainda dentro do subsequente regime político de democracia restringida, isso permitiu, a posteriori, eleger governos comprometidos com promessas progressistas, com as limitações que essas restrições comportam; e
  2. O da região andina (especialmente Venezuela, Bolívia e Equador), em que os partidos e sistemas políticos existentes padeciam de descrédito que os tornara incapacitados, facilitando que os protestos sociais os ultrapassassem através de grandes mobilizações populares. Isto logo permitiu dar respaldo eleitoral a iniciativas mais audazes e a realizar importantes reformas no marco constitucional dos respectivos Estados.

De tudo isso de depreende que os êxitos progressistas alcançados durante esta primeira parte do século XXI não foram resultado do desenvolvimento e disseminação de propostas política-ideológicas mais avançadas, nem da formação de uma nova cultura política no seio das maiorias sociais e eleitorais que a tornaram factíveis. Foram, sim, manifestações sociais e eleitorais espontâneas resultante da inconformidade com a situação existente, de repúdio moral e de castigo político ao regime vigente, à corrupção, a insensibilidade e incapacidade para defender os interesses nacionais. Portanto, foram expressões emocionais, sujeitas aos vaivéns das conjunturas eleitorais, como foi evidenciada pelos votantes nas eleições intermediárias e locais. Eleições em que, para um mesmo eleitor, as razões comunitárias, familiares e conjunturais podem se sobrepor a avaliação nacional, ética e estratégica dos temas.
Ou seja, o surgimento desse fenômeno deixou claro tanto a demanda como o limite político do que essas maioria desejavam e eram capazes de acolher, eleger e sustentar. A referencia conhecida –ou recordada- de um projeto mais radical era o das esquerdas revolucionárias dos anos 1960 e 1970j. Tanto no Cone Sul como na região andina afloraram grandes contingentes maduros para reclamar e manter até determinado ponto um processo de mudanças, mas não disponível )ainda) para assumir os riscos e rigores de um projeto revolucionário cujos contornos e esperanças foram apagados nos anos 1980. A grosso modo, dos anos 1970 ficaa a memória dos custos e sacrifícios que acompanharam o esforço revolucionário sem que as esperanças se realizassem.
Tratou-se de vitórias eleitorais, não de revoluções. Faltava o projeto de massas apropriado para que a nova situação alcançasse maiores patamares. Nesse sentido, as discussões sobre se esses governos progressistas são ou não revolucionários, ou se poderiam ser, tem sido mais retóricas ou especulativas que proveitosas. Esses governos tem sido, aquilo que eles podem ser, nos limites de suas oportunidades e propostas eleitorais, e nos limites sociopolíticos, econômicos e culturais de suas circunstancias e do movimento popular. Pelo menos até que mais adiante novas condições permitam instigar o apoio de massas capaz de ultrapassar essas limitações.
No terreno histórico, mais que na imaginação ideológica, a coincidência e a diferenciação entre as oposições progressistas e revolucionárias foi claramente evidenciada no início da Revolução Cubana/ Nos primeiros dois anos, suas realizações e discursos tiveram não poucas similitudes com os de alguns dos atuais governos progressistas. Na terminologia daqueles anos, os esforços comparáveis com o cubano de então –e os tentados pouco antes na Guatemala e na Bolívia- foram qualificados como revolução democrático-popular ou movimento de libertação nacional, conceitos compartilhados pelas esquerdas da época e que hoje não há razões para sustentar, mas sim para reatualizar.
Por exemplo, em 1960, Blas Roca, respeitado dirigente do Partido Comunista Cubano, caracterizou o que ocorriaem Cuba como um processo característico de “uma revolução democrático burguesa nos países coloniais, semicoloniais ou dependentes, ou seja, uma revolução agrária e antimperialista”. Ver 29 artigos sobre a Revolução Cubana, Publicações do Comitê Municipal de La Habana, do Partido Socialista Popular, 1960, p. 20
Porém, hoje, que é o que impede estes governos dar o salto que Cuba de então decidiu dar nas vésperas de Playa Girón? Entre outras coisas, o fato de quando na ilha terminou a guerra revolucionária, o Exército Reblde tinha substituído o velho exército, a clique política tradicional tinha debandado, a direita política, o Parlamento e a Corte Suprema tinham desintegrado, o entusiasmo patriótico e revolucionário martiniano tinha tomado a cultura política dominante e os grandes meios de comunicação quebraram sob o peso de suas cumplicidades com a oligarquia e a ditadura.
Havia uma situação revolucionária, o que é muito mais do que ter vencido as últimas eleições presidenciais. Nesse contexto, diante do povo indignado pelos bombardeios que precederam o desembarque que o governo estadunidense organizou pela Playa Girón. Fidel Castro e seus companheiros decidiram cruzar o Rubicão quando as maiorias populares já estavam dispostas a combater pela opção socialista. Reclamar que os atuais governos progressistas os imitem sem dispor de condições equivalentes mais parece um pretexto que uma ingenuidade.
Para resumir, em fins do século XX e início do XXI, o repúdio coletivo às consequências sociais da dominação neoliberal desencadeou crescentes mobilizações populares. Não obstante, ficou inconclusa a missão estratégica de converter essa inconformidade, e seu enorme potencial político, em um novo conjunto de conhecimentos e convicções duradouras. Um conjunto não só motivador, mas também eficaz para entender os mecanismos desse estado de coisas e os meios requeridos para transformá-lo a favor das reivindicações e expectativas dos setores sociais majoritários.
Essa missão agora pode e deve ser cumprida. Não obstante, ;por seu caráter, corresponde principalmente às organizações, movimento e partidos políticos expressivos das reivindicações populares, com a colaboração dos intelectuais afins. Inclusive depois de ganhar eleições essa missão é indelegável, posto que os governos de esquerda têm outras funções que os comprometem a servir igualmente aos setores sociais não filiados ou de outras preferencias políticas.
A crítica de certas esquerdas destacando que esses governos não formam quadros nem organizações revolucionarias é uma forma de eludir a responsabilidade que lhes corresponde por não cumprir essa missão. Desde sempre, a formação de quatros idôneos para implementar seu projeto tem sido uma das missões medulares dos partidos, governantes ou não.

As direitas voltam à carga

É falso que as políticas econômicas dos governos progressistas estão atadas ao auge do extrativismo, isto é, a financiar suas políticas assistencialistas com os ingressos procedentes da exportação de commodities, ambientalmente depredadora. Também os governos de direito ou alheios ao progressismo aproveitaram o auge da valorização dessas exportações. Porém isto não faz a diferença entre uns e outros. Esta diferença consiste em que os primeiros aproveitaram essa oportunidade para investir no desenvolvimento social e os segundos em favorecer o lucro das empresas interessadas na concentração da riqueza.
O problema está em confiar em que esse fator surtiria efeitos durante longo prazo. Assim, é correta a crítica de que se demorou muito em diminuir recursos dirigidos a mitigar a pobreza e a injustiça distributiva –às vezes por motivos de legitimação eleitoral- para encaminhá-los a aumentar o valor agregado nacional aos bens exportados, objetivo que continua pendente em muitas agendas progressistas.
Assim, concluído o ciclo de valorização das commodities, os governos e projetos progressistas têm que assumir o desafio de se sustentar e proponer novas metas sem contar com esse auxílio. Isto exige das esquerdas e do progressismo um esforço especial para renover suas capacidades política, político-educativas, organizativas e comunicacionais, e para conceber melhore estratégias de desenvolvimento. Precisamente, as dificuldades políticas que durante 2013 e 2014 vários governos progressistas sofreram para poder se reeleger refletem que esse esforço ainda está negligenciado e, ao mesmo tempo, que as direitas souberam aproveitar essa omissão.
Este é o marco de novas oportunidades que agora se oferece para reforçar a contraofensiva das direitas e a incrementar seus objetivos de longo prazo.
Ha que lembrar que as direitas políticas, econômicas e socioculturais vencidas em várias eleições nos primeiros lustros do século XXI, não po isso estão derrotadas. Porque esses revezes não as privaram de seu poder econômico, de suas relações transnacionais nem do controle dos grandes meios de comunicação. Portanto, passada a perplexidade inicial, passaram a prever e reorganizar suas próprias opções –de velho e de novo tipo- para recuperar seu anterior poder político e governamental. E, ao sentir seus interesses fundamentais ameaçados, para reassumir esse poder como instrumento de uma contrarrevolução preventiva orientada a muito mais que uma simples restauração da ordem anterior ao progressismo.
Assim como o golpe contra Allende impôs uma reestruturação que foi muito além de refazer o anterior marco institucional. E isso está afinado com a ideologia a evolução neoconservadora e o tea party estadunidense e com a nova direita europeia.
Nesta organização de suas tentativas não falta o apoio organizador, logístico e midiático de sucessivos governos estadunidenses, enquanto que o progressismo latino-americano tem um sentido emancipador que prejudica a hegemonia estadunidense.
Esse potencial das direitas econômicas, midiáticas e políticas hoje se mobiliza tendo em conta que a conjuntura econômica que antes facilitou os trabalhos dos governos progressistas agora se restringe, confrontando uma conjuntura mais favorável a seu proselitismo. Nesse contexto, a contraofensiva da direita dispõe de ingentes recursos financeiros e técnicos que permitem desdobrar-se em várias frentes. Combina as velhas artimanhas políticas dos partidos conservadores e democrata-cristãos com avançados recursos empresariais como assessorias estrangeiras, pesquisa de mercado, técnicas de publicidade e métodos gerenciais de formação de quadros etc. Como igualmente combina velhos e novos modelos de partidos, lideranças, cooptações e retóricas políticas e métodos de manipulação eleitoral e formas mais brutais de desestabilização da ordem pública e assalto ao poder.
Há poucos anos elaborei para o CIPI um estudo sobre a contraofensiva reacionária e a chamada “nova” direita, discutido em uma das Conferências. Seria necessário muito espaço para voltar a descrever cada um dos principais aspectos ideológicos e operacionais, sobre os que já há farto material informativo disponível, assim, limito-me a resumir as características de interesse mais imediato. Sobre esse tema ver ¿Quién es la “nueva” derecha? en Agencia Latinoamericana de Información (Alai) del 14 de abril de 2010 y en Rebelión del 15 de abril de 2010.
Essa direita reatualizada conta com ajudas transnacionais suficientes para nutrir um discurso e a formação de quadros. Abundam as conferências, seminários e cursos patrocinados por fundações e universidades privadas, organizações internacionais de partidos políticos e ONGs de diferentes tipos, bem como agências governamentais como a USAID. Entre suas atividades proliferam os encontros patrocinados por fundações ligadas ao PP espanhol e à Heritage estadunidense, adornados com ex-presidentes e personalidades da reação latino-americana e espanhola do coturno de José María Aznar, Álvaro Uribe, Luis Alberto Lacalle, Henrique Capriles e até o inapresentável Ricardo Martinelli. E também os cursos e treinamentos oferecidos pelas universidades da área de Miami sobre técnicas como marketing político, projeto e interpretação de pesquisa e manejo de politicas e métodos de comunicação.
Na articulação de grupos e lideranças, a definição de objetivos, a seleção de temas e a orientação de condutas e ações, desempenha um papel especial o manejo dos meios de comunicação. A relevância desse papel, em não poucos casos faz com que os que fixam e instrumentalizam a política editorial assumam de fato a direção estratégica da ofensiva, deixando aos políticos de ofício o papel de operadores das linhas de ação que traçaram. Não é pra menos: esses meios guarnecem, atualizam e manejam a hegemonia ideológica, cultural e política do bloco socioeconômico dominante. Justificam suas decisões, condutos e atuações e, al mesmo tempo, desacreditam e isolam as pessoas e propostas dos que se opõem ao bloco hegemônico, e despersonalizam suas iniciativas.
Como peças da contraofensiva reacionária, essas instâncias e instrumentos formam “estados de opinião” que resultam tanto de promover as figuras, opiniões e projetos que ao bloco dominante interessa realçar, como de tergiversar os que lhe são adversos ou banalizam suas ideias, para justificar os ataques e marginalizações cometidas contra eles no transcurso das campanhas para desqualificar os setores populares e desestabilizar a situação geral, já seja com vistas a objetivos eleitorais ou para mascarar os assaltos “brandos” ou “duros” ao poder governamental.
Um antecedente conhecido foi o da longa campanha midiática para desestabilizar o governo de Salvador Allende. Mais recentemente, a prolongada campanha conspiratória e violenta na Venezuela, que deixou um elevado saldo de vítimas morais e que nos médios jornalísticos internacionais continua recebendo ampla cobertura.
De 2006 ao presente se tem apelado a varias modalidades de assalto ao poder similarmente preparadas e avaliadas pelos grandes meios locais e internacionais de comunicação. A conspiração para culpar de assassinato o presidente Álvaro Colom, o golpe sui generis através do qual o exército depôs e expatriou a Manuel Zelaya e em seguida entregou o governo ao reacionário presidente do Congresso; a conversão de empresários em candidatos presidenciais para derrotar os socialdemocratas em Panamá e Chile; a intentona separatista da Media Luna para tirar do poder a Evo Morales; o massacre de camponeses urdida para justificar o golpe parlamentar contra Fernando Lugo; a insubordinação policial dirigida a derrubar Rafael Correa; e, ultimamente, as campanhas de desestabilização e descredito empreendidas contra o governo de Cristina Fernández e os escândalos midiáticos fabricados para desprestigiar o de Dilma Rousseff, com vistas a erodir suas posições etc.
Isso sem contar mais de meio século de conspirações, sabotagens, atentados e toda sorte de ataques materiais, econômicos, diplomáticos e midiáticos contra a revolução e o povo de Cuba, entre os quais, ultimamente, tem prevalecido o patrocínio, treinamento, equipagem e suporte internacional para “blogueiros” e outros tipos de operadores e meios digitais.
Por outro lado, nada disso ocorre por iniciativa meramente local. Cada uma dessas ações, desde sua etapa preparatória, dispõe de um coro internacional que vai além dos meios e agencias de comunicação e os alimenta. Isto inclui declarações de organismos de direitos humanos, de clubes de escritores e de executivos do FMI, de parlamentares estadunidense e órgãos da União Europeia etc. Isto é, as campanhas da chamada “nova” direita não se circunscrevem à associação com seus congêneres latino-americanos, espanhóis e estadunidenses, mas formam parte de uma estrutura global mais nutrida e articulada.
Entre os objetivos principais dessa estrutura está o de degradar o sentido do processo latino-americano de integração. O simples fato de que na chamada Aliança do Pacífico tenham sobressaído personagens como Felipe Calderón Hinojosa, Álvaro Uribe e Sebastián Piñera, e ter recebido imediatamente forte estímulo estadunidense, fala por si mesmo. Portanto, na conjuntura que temos pela frente, defender a projeção emancipadora, solidária e desenvolvimentista do processo de integração deve ser um de nossos maiores empenhos, ainda que as organizações latino-americanas de esquerda estão distantes de converter esse tema em um assunto de interesse popular.

Mas, essa história não termina aqui

Esta é a natureza do adversário que os governos progressistas e as esquerdas latino-americanas têm que enfrentar. Não será com o apoio de grandes recursos financeiros, empresariais nem midiáticos que poderão enfrentar. Isto só poderá ser alcançado renovando tanto ideias e propostas, como formas de linguagem e comunicação, especialmente as de natureza juvenil e popular.
Tanto mais quanto, depois das sucessivas reeleições dos partidos e dos líderes progressistas, os anos não deixam de acumular=se e, aos olhos dos jovens nós e nossas conquistas começamos a formar parte do passado. O tempo abre aos conservadores a oportunidade de se apresentasrem como os portadores da ‘mudança” que aspiram os insatisfeitos de hoje. Aos doze anos de governos do PT, por exemplo, as demoras na reforma agrária ou da reorganização do transporte metropolitano não podem ser atribuídas a Collor de Mello ou a Fernando Henrique Cardoso nem muito menos aos militares.
Diante da “magia” da publicidade e a manipulação da maquinaria midiática burguesa, e de sua capacidade para reciclar o reinado da velha cultura de sua conveniência, só construindo uma contracultura ou nova cultura politica popular se pode dar a nossos povos a solidez da convicções indispensáveis para enfrentar criticamente as ofertas dos grandes meios.
Essa contracultura é indispensável para contrapor e superar a hegemonia ideológica e política do bloco econômico e midiático dominante. Precisamente porque isso não pode ser alcançado a curto prazo deve ser a primeira de nossas dedicações, transversal a todos os demais esforços.

Hora de mudar

O impacto da contraofensiva política das direitas não é um assunto colateral. Há quatro anos algum otimismo ou autossatisfação imprudente poderiam tornar o assunto manejável. Porém, durante este última período, a reeleição dos candidatos do PSUV, do FMLN e do PT foi mais difícil e renhida do previsto. Alianza País sofreu revezes inesperados em quito e outras cidades, e os êxitos só voltaram a ocorrer na Bolívia e em menor grau no Uruguai,
No Brasil, uma difícil vitória presidencial foi acompanhada de importantes perdas parlamentares e o fantasma da derrota ameaçou o destino da integração latino-americana e caribenha.
A esquerda progressista está hoje na defensiva e isto deve fazê-la extrair importantes lições e renovar métodos, estilos e objetivos. Rafael Correa iniciou uma prometedora reação reflexiva e política ao convocar os partidos, organizações e movimentos progressistas latino-americanos a debater como enfrentar a estratégia de “restauração conservadora”. Ver o discurso inaugural do Encontro Internacional de Partidos, Movimentos, Frentes e Organizações de Esquerda Progressista “América Latina Unida e Soberana diante da Restauração Conservadora”, em Quito, 29 de setembro de 2014 (www.elap2014.com).
Os partidos e movimentos políticos são experiências vivas que com o tempo tendem a reproduzir esquemas discursivos e modelos de liderança ja trilhados, sem reajustar-se ativamente à evolução das realidades e expectativas de sua base social originária. Não obstante, sua tarefa medular não é conservar a legitimidade antes alcançada, mas sim promover novas metas de maior alcance. Propor outro futuro, mais que manter o presente já conquistado. Essa tendência autocomplacente danifica sua função de ser renovadores da cultura política popular e de seus objetivos.
As dificuldades eleitorais dos últimos tempos demonstram que é peremptório renovar a vigência dos princípios e propostas –éticas políticas- que lhes deram origem. Ao mesmo tempo, essas mesmas dificuldades igualmente comprovam que a contraofensiva da direita alcançou êxitos precisamente nos flancos onde os governos progressistas e os partidos de esquerda estão vulneráveis. Repetidas vezes os êxitos da direito são menos resultado de seus recursos e astúcias do que de seu oportuno aproveitamento do abrandamento de nossa identidade e valores.
Nisto as atitudes morais têm especial relevância. Certo é que os pró-homens e organizações da direita soem ser mais indecorosos e corruptos. Porém no seio das esquerdas esses vícios produzem efeitos muito mais mortíferos. Diante da sensibilidade cidadã, par os que antes predicavam contra a corrupção e a isso devem em parte seu reconhecimento, qualquer deslize é imperdoável. Os partidos de esquerda e os governos progressistas têm que ser muito mais severos com os maus sintomas de seus próprios integrantes e amigos que diante da corrução de seus adversários. Nas esquerdas a autodepuração é necessariamente uma exigência iniludível e permanente.
No fim das contas, além dos acertos e erros desses partidos e governos, e de suas maiores ou menos dinâmicas e conquistas, podem esses três lustros de governo progressistas serem reduzidos a um conjunto de eventos de conjuntura, ou expressar fenômenos estruturais de maior significado? Aqui, a eleição e reeleição de governos progressistas e parte de suas realizações são irreversíveis. Porém, seria irresponsável deduzir que sua passagem não deixará marcas. Ainda no pior dos desenlaces, durante este período o cenário regional mudou e já há acumulações que fincaram raízes na evolução das culturas políticas, as conquistas e as exigências dos povos da América Latina.
A mobilização social e eleitoral de grandes massas, que colocou na cena novos sujeitos e objetivos políticos, derrubou governos ou os fez balançar, expressa movimentos profundos do desenvolvimento latino-americano: as classes sociais se moveram, suas exigências se ampliam e as consciências passaram a fazer um novo balaço das possibilidades.
Os latino-americanos também sabemos aprender de nossos erros e voltar à luta fortalecidos. Si se conta com lideranças adequadas, mesmo a derrota pode ser fonte para ulteriores fortalecimentos se a decisão de superar deficiências éticas e políticas supera a tentação de justificar-se.
Se o progressismo é sintoma de um fenômeno estrutural, as eventuais conquistas da contraofensiva da direita deve ser assumidas como revezes aliciadores cuja análise autocrítica ajudará a realimentar a continuidade da ofensiva das esquerdas.
Por sua natureza, as direitas são inevitavelmente conservadoras, pois sua missão é reproduzir ou recuperar estruturas e privilégios do passado, por muito que se travestem com roupas de “mudanças”. Como, por sua vez, as esquerdas legítimas só podem ser inovadoras, dado que expressam a força criadora dos que se indignam diante das causas das injustiças e desigualdades do presente, e se mobilizam para superá-las e fundar outra realidade.
Este dado essencial deve incidir sobre nossas organizações e projetos, sobre suas formas d abordar e somar a nossos povos, sobre suas linguagens e modos de escutar, renovar propostas e persuadir. Só assim elas poderão convocar, formar e ajudar a organizar por si mesmos os contingentes sociais necessários para passar do progressismo agora possível à necessária transformação revolucionária e sustenta-la.
 
*Colaborador de Diálogos do Sul, Ciudad de Panamá, Panamá. A versão original deste ensaio foi exposta na 12a Conferencia de Estados Americanos, do Centro de Investigações de Política Internacional (CIPI), em La Habana, em 24 de outubro, pouco antes do seguindo turno das eleições presidenciais brasileiras.
 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Nils Castro Um dos mais prestigiados intelectuais da região. É autor do livro “As esquerdas latino-americanas em tempo de criar”

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