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Amantes de aço

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Fernanda Pompeu*

Gabriel García Márquez (1927-2014), autor do romance mágico Cem Anos de Solidão e de outras iguarias jornalísticas e literárias, declarou certa vez que para escrever necessitava ter uma flor amarela sobre a mesa. Até parece que o talento de Gabo precisava ser visitado pela inspiração, puro fetiche. Escritores são particularmente tocados por manias. Uma amiga minha, colombiana como Márquez, só escreve ao lado de uma vela acesa. Se o vento sorrateiro janela adentro apagar a chama, ela interrompe a frase e o dia de trabalho.

Imagem: Régine Ferrandis
Imagem: Régine Ferrandis

Mas o maior fetiche dos profissionais e amadores do texto foi, sem erro de memória, a máquina de escrever. Amantes do Aço. Pois ela é instrumento especializado, como o pincel para o pintor, a sapatilha para a bailarina, a frigideira para a cozinheira. David Nasser (1917-1980), redator e letrista de qualidade rara, amava tanto a sua Royal que ao viajar de avião levava a pesadona juntos aos seus pés. Nem pensar em despachá-la no compartimento de bagagens.
Mudei de casa semana passada. Pus na estante, em posição de destaque, a valente Remington que herdei do meu pai. Ele a comprou em 1955, ano do meu nascimento. Jovem bancário e sindicalista, papai a financiou em muitas prestações. Nela – ele redigiu panfletos políticos e incitações a greves. Lembro dela como um objeto proibido. Nem eu, nem meus irmãos tínhamos acesso. Ainda a olho com resquícios de temor e extrovertida reverência.
Aliás a palavra reverência tem se afastado dos escritores atuais. Afinal, como cultuar um computador nascido para morrer em três ou quatro anos? Quem dirá: “Faz vinte anos que este computador me acompanha!” Ou: “Não troco por nada neste mundo minha impressora matricial!” Ou ainda: “Se eu perder este original, o mundo deixará de ler uma obra-prima.” Apenas os sem-noção falariam tais bobagens.
Na era digital o consolo é que provavelmente sobreviveremos aos nossos equipamentos. Até um certo ponto, é claro. O fato é que nunca escreveremos as palavras de David Nasser dedicadas a sua máquina de escrever: “Vamos nos separar um dia – e a lei da física estabelece que o primeiro seja eu, pois você é de aço, eu sou de carne – e não estou muito certo da imortalidade da alma nem da eternidade da coisa. Apostamos a corrida do tempo, entre os dedos e as teclas.” Datilografou?
*Colaboradora de Diálogos do Sul – Imagem: Régine Ferrandis


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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