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“América está de volta”: Biden inaugura lema de sua política externa com bombardeio à Síria

O ataque estadunidense não foi autorizado pelo Congresso, e sua justificativa foi que era necessário para proteger tropas estadunidenses no Iraque
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

“América está de volta”, é a consigna de política exterior do novo governo de Joe Biden com o objetivo de recuperar a “autoridade moral“ (se é que alguma vez existiu) e a “liderança mundial” e com isso regressar a algo antes chamado de “normalidade”. 

Aparentemente isso inclui coisas como bombardear a Síria. Foi, segundo a versão oficial, resposta a um ataque por milícias respaldadas pelo Irã contra instalações estadunidenses no Iraque.

De fato, a ação era tão “normal” que algumas pessoas comentaram que era de se esperar esse ritual de cada novo governo mostrando que é “duro”, ou como escreveu Charles Pierce em Esquire com ar sarcástico, “não és realmente presidente dos Estados Unidos até que faças que algo exploda no Oriente Médio”.

O ataque estadunidense não foi autorizado pelo Congresso, e sua justificativa foi que era necessário para proteger tropas estadunidenses no Iraque, também aí sem autorização. Ou seja, tudo é tecnicamente ilegal, mas tão normal que é só mais uma de múltiplas “operações antiterroristas” pelas forças armadas estadunidenses que foram levadas a cabo em 85 países apenas desde 2018.

O ataque estadunidense não foi autorizado pelo Congresso, e sua justificativa foi que era necessário para proteger tropas estadunidenses no Iraque

Flickr | Joe Biden
“América está de volta”, é a consigna de política exterior do novo governo de Joe Biden.

Outras guerras

Outra guerra, a que dizem que é contra o narco, continua enchendo as prisões e condenando gerações de gente pobre à violência nos Estados Unidos como também no Afeganistão, Colômbia e México entre outras “frentes”.

Continuam falando igualzinho quando foi inaugurada  há quase meio século, ou seja, o normal. Mas a Virgínia já se somou a mais 15 estados nos Estados Unidos legalizando a maconha (o primeiro no sul), nutrindo a esquizofrenia entre um governo federal que continua levando a cabo suas operações internacionais manchadas de sangue e corrupção enquanto seus cidadãos – e novos empresários – gozam cada vez mais de maneira legal essa “droga”. 

Em outra guerra interna, os supremacistas brancos e neonazistas que continuam sendo soldados de Trump estão agora ameaçando “fazer explodir” o Capitólio com a intenção de matar dezenas de legisladores quando o presidente Biden se apresentar para seu primeiro informe do “Estado da União” no início de março, revelou o chefe interino da Polícia do Capitólio. Essa guerra interna, parte da qual tem raízes na primeira guerra americana, continua ameaçando o país. 

Ah, e falando de guerras e impunidade, resulta que o governo de Biden não castigará o autor intelectual, segundo a conclusão de forças de inteligência estadunidenses, do delito de sequestrar e esquartejar o jornalista Jamal Khashoggi. E é que o responsável é o príncipe saudita Mohammed Bin Salman e chefe desse grande governo aliado e líder em democracia, direitos humanos e liberdades civis da Arábia Saudita.

Ainda com mudanças potencialmente significativas, continuam muito presentes ecos do que era “o normal”, incluindo os mais antigos da primeira guerra americana, a que se travou contra seus povos indígenas.

Alguns dos descendentes dos conquistadores submeteram a congressista Deb Haaland a um interrogatório questionando seu “entendimento” do manejo dos recursos naturais e acusando-a de ser uma “radical” durante audiências no Senado para ratificar sua nomeação como secretária do Departamento do Interior – a primeira indígena nominada para ocupar um posto em um gabinete ministerial na história do país.

Se for aprovada, a ecologista especializada sobre o impacto dos combustíveis fósseis estará encarregada de terras sob controle federal (quase uma quinta parte do território nacional) incluindo as reservas indígenas. 

“Uma mulher indígena está para encabeçar uma secretária que uma vez foi encabeçada por um homem que declarou que sua missão era “civilizar ou exterminar” os povos indígenas. Há grande ironia quando republicanos agora estão descrevendo (a Haaland) como uma ameaça existencial à sua maneira de vida”, comentou Crystal EchoHawk, ativista indígena e diretora de IllumiNative.

Algumas coisas já não são, nunca deveriam ser, normais. Angelique Kidjo Once in a Lifetime.

David Brooks, correspondente de La Jornada em Nova York

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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