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América Latina e as ofensivas do Império

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Gustavo-Espinoza-M.-03-150x150Quem sabe o marco para uma oportuna reflexão sobre o cenário continental seja o recente encontro internacional de Partidos Comunistas e Revolucionários de América Latina e Caribe realizado em Lima, Peru em fins de agosto.

Gustavo Espinoza M.*
O evento congregou 25 organizações políticas de 19 países, registrou uma forte dose de vontade unitária e ofereceu elementos para analisar o que ocorre nesta região do mundo, onde sucedem fenômenos desencontrados. Desde um virtual Golpe de Estado no Brasil, até a derrota de uma intentona reacionária na Venezuela bolivariana, passando pelo desembarque de novos efetivos militares estadunidenses em terras peruanas; uma ativa mobilização de massas na região gaúcha, a morte de um alto funcionário do governo de Evo Morales na Bolívia e a subscrição de um acordo definitivo de paz na martirizada Colômbia.
DeclaracionAssim, diante da perspectiva de uma reunião de cúpula da APEC, a realizar-se em Lima em novembro próximo, dá para assegurar que América Latina sofre novas investidas do Império, e que os povos do continente lutam denodadamente para vencer as ameaças e caminhar pra frente na tarefa de construir um cenário internacional mais justo.
Falar de Cooperação e Economia entre os países da Ásia e América, na presença de Barack Obama e Vladimir Putin, será particularmente instigante, sobretudo depois dos desacatos sofridos pelo presidente ianque em sua recente visita a China.
O agravamento da violência terrorista na Síria e a crescente evidência dos laços que unem o Estado Islâmico com a Central de Inteligência de EUA, reforçam o fato de que o sistema imperante, esse capitalismo globalizante, vive uma etapa de permanente convulsão.
O fato d que isso ocorra quando o mundo recorda o centenário de um dos livros clássicos de Lenin –“O imperialismo, fase superior do capitalismo”- confirma a ideia que a decomposição do regime imperial de nosso tempo chega a uma etapa de alta complexidade em que se torna indispensável redobrar o papel das massas e a força dos povos.
O “Livro de Zurique” –como também é conhecido porque foi escrito pelo líder bolchevista enquanto morava nessa cidade da Suíça Alemã- nos assegura que o imperialismo é a antessala da Revolução Socialista; e abre a perspectiva de uma transformação radical da sociedade de nosso tempo.
Essa ideia que ainda não perdeu vigência, se confirma nesta etapa da crise, marcada pelo crescente desespero do grande capital, que obsessivamente busca se apoderar dos recursos dos Estados através do uso de armas cada vez mais letais.
A arremetida imperial contra Venezuela não é, finalmente, um esforço titânico para se livrar de Nicolás Maduro. É a expressão de uma voracidade incontida e guerreira, alimentada pela ânsia pelo petróleo. Esse é também o motivo que ajuda a entender o conflito no Oriente Médio e as campanhas militares contra a Síria e o Irã. É aqui que está a explicação para os crimes praticados contra outros povos como o Iraque e a Líbia.

Gás e Petróleo

Petróleo e gás em circunstâncias em que se agrava a crise energética internacional e surgem graves desafios no futuro imediato, derivados do aquecimento global, o desaparecimento dos recursos hídricos do planeta e a destruição da bio-diversidade.
Quando em La Habana os países da Celac proclamaram a vontade de forjar neste continente um mundo de paz, golpearam de maneira direta a ofensiva guerreira desatada e abriram caminho para um processo de transformações sociais que a classe dominante do continente busca derrubar.
E essa é a característica dos acontecimentos que ocorrem na região. Os golpes desferidos pela reação contra os povos não encontra apoio. Ao contrario, suscitam o rechaço das maiorias e resistência nos mais diversos setores da sociedade latino-americana. O ocorrido recentemente no Brasil é um claro sinal disso. Os golpistas não só não contam com o apoio da cidadania, como provocam crescente repúdio em quase todos os países da região.
Até mesmo no Peru –um claro reduto da reação- ninguém elementarmente sensato se atreve justificar a ação de Temer e dos quadrilheiros que o acompanham. Vários entre os porta-vozes do império tem procurado “marcar distância’ dos parlamentares que consumaram o crime contra a constitucionalidade brasileira. É que em léguas de distância se sente o fedor da conjura consumada contra Dilma.
A ação golpista foi possível –sem dúvida-  por erros do PT e seus dirigentes, que deixaram absolutamente intocada a maquinaria manejada pelos meios de comunicação; e que renunciaram à constante luta política e de massas que poderia ter sido um generoso apoio para sustentar qualquer processo de transformações anti-imperialistas no país.
A experiência da Venezuela, nesse sentido, é certamente uma lição a aprender. Os inimigos do processo bolivariano ameaçaram impudicamente a “ocupar Caracas” e dar um golpe demolidor no chavismo para derrota-lo. Porém ninguém se intimidou diante da ameaça. Ao contrário, a palavra de ordem do Poder foi “conquistar as ruas” consciente de uma antiga experiência da luta:  quem tem a rua, terá finalmente o controle da situação.
Diante da arremetida da “contra’ que conseguiu mobilizar umas 30 mil pessoas em Caracas, as forças bolivarianas organizaram uma concentração gigantesca que congregou mais de um milhão de pessoas. Foi o povo quem “ocupou” Caracas e com isso afirmou seu destino.
A grande imprensa no Peru não se atreveu a publicar as fotos da concentração bolivariana, nem a publicar uma linha do aguerrido discurso de Nicolas Maduro
Além desses fenômenos –Brasil  Venezuela- a reação continua sua arremetida com o fim de intimidar e quebrar a resistência de p[ovos e governos que resistem à dominação. Isso explica o vil assassinato do vice ministro Yllanes, na Bolívia; e assim também a pérfida  campanha desatada em todo o continente contra o presidente do Equador,
Rafael Correa e sua Revolução Cidadã. Nesse mesmo cenário se iniciou uma violenta ofensiva contra a Nicarágua sandinista, aproveitando um incidente menor ocorrido entre facções do Partido Liberal Independente, que levou seus parlamentares a mudar sem diminuir sua representação na Câmara Legislativa. Se de um lado é certo que as eleições de novembro darão uma clara vitória do sandinismo também é certo que a reação continente –e o Império- farão tudo o que estiver ao alcance para desacreditar o FSLN e seu governo.

O Império digita cada uma dessas ações. E para fazer com maior comodidade reforça seus vínculos com os “governos amigos” que ainda tem na região. E esse é o caso do governo de Pedro Pablo Kuckynski, no Peru. Em Lima, de imediato, conseguiu por acordo parlamentar –com o entusiasta apoio dos fujimoristas- aprovar autorização para o desembarque de novos contingentes militares de Estados Unidos, que invadem nosso território sob o pretexto de “combater a droga e o narcotráfico”.
O Peru é, na América Latina, o país com o maior número de bases militares estadunidenses em seu território. Isso já vinha ocorrendo, em realidade, desde há vários anos –desde a derrocada do processo patriota de Juan Velasco Alvarado- mas agora se tornou mais evidente pelo controle exercido pela embaixada dos EUA sobre as autoridades política do país, tanto do Poder Executivo como do Legislativo unidades por um claro servilismo pró ianque.
A paz que hoje se confirma na Colômbia trará novos desafios para todos. O mais importante é assegurar que ela fique entre nós.
 
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru
 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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