Arquivo Granma

60 anos da Revolução Cubana: Célia, a mulher por trás do triunfo da guerrilha de Fidel

Célia foi a primeira guerrilheira a lutar na Serra Maestra e abriu as portas para que outras mulheres integrassem a luta armada no pelotão conhecido como “Marianas”

Vanessa Martina Silva

Há exatos 60 anos, Fidel Castro entrava triunfante em Havana com os combatentes que lutaram na Serra Maestra. Sobre ele e os outros guerrilheiros que o acompanharam muito se escreveu e se sabe, mas há uma figura fundamental que não recebe o mesmo destaque: Célia Sánchez. Para muitos, sem ela, a história da Serra Maestra, Revolução e Fidel seria bem diferente.

A história, inclusive, seria outra se o iate Granma, que trazia para Cuba os 82 guerrilheiros vindos do México, não tivesse naufragado. Não fosse a precariedade e superlotação da embarcação, teriam encontrado os camponeses organizados por Celia com armas, caminhões e toda infraestrutura que os teria conduzido para Serra Maestra com mais sobreviventes, já que, no famoso desembarque do Granma, 70 homens morreram.  

“Desde os meses anteriores ao desembarque do ‘Granma’ não houve um episódio de luta revolucionária dirigida por Fidel no qual Celia não tenha estado na primeiríssima linha de combate”. A declaração é de Armando Hart, que conviveu com Celia durante o período revolucionário e chegou a ser preso durante a insurreição contra o ditador Fulgencio Batista, tornando-se futuramente ministro da Educação e da Cultura.

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Foi Fidel que ensinou C´élia e as Marianas a disparar com armas de fogo

Pode-se dizer que Celia, assim como Camilo, era a imagem do povo. “Sua forma de agir e proceder, seu estilo pessoal e suas reações diante dos problemas da vida diária tipificam o caráter e o temperamento do povo cubano. Era uma típica cubana”, diz Hart no prólogo do livro “Celia — Ensayo para una Biografia”, de Pedro Alvarez Tabío (sem tradução para o português).

A revolucionária

Celia Esther de los Desamparados Sánchez Manduley nasceu em 1920 no município de Media Luna, na província de Granma. Filha de um médico liberal, recebeu, desde adolescente, estímulo para envolvimento em questões políticas.

Ingressou nas ações subversivas logo após o golpe do ditador Fulgêncio Batista e integrou, desde os primórdios, o Movimento 26 de Julho (M-26/7).

Em 26 de julho de 1955, um grupo de 150 jovens participaram do assalto ao quartel Moncada. O objetivo da ação era tomar armas e distribuí-las para que a população resistisse ao regime Batista. Celia não participou da ação, mas apoiou o movimento.

Derrotados, os participantes que sobreviveram foram detidos — entre eles Fidel Castro. Célia organizou então uma campanha para arrecadar fundos para os familiares dos mortos. Diante das dificuldades, passou a vender doces feitos por ela mesma. “Todo mundo comprava dela, desde os funcionários da usina até as pessoas de dinheiro”, lembrou a amiga Berta Llópiz.

Junto com o revolucionário Frank País, foi responsável por organizar a rede de apoio da guerrilha nas cidades e de recrutar guerrilheiros para compor as fileiras na Serra Maestra. 

Sobre a participação de Celia no M-26/7, Micaela Riera, a Mica, contou que “ela não teve nenhum cargo no movimento e resultou que era ela que organizava todos nós, sem imposições, dava sugestões e nos convencia”. 

Quando a amiga lhe questinou: “acredita que nós, quatro gatos e sem um quilo podemos com toda essa gente?”. Celia, de forma otimista, rebateu: “o derrubaremos. Mica, você verá que vamos derrubá-lo. As pessoas contribuem pouco porque têm medo, mas que vamos derrubar Batista, você verá que sim”.

A guerrilheira

Com os pseudônimos Norma e Aly, Célia foi o importante elo entre a montanha e a cidade, cuidando do abastecimento de remédios, alimentos e roupas para a guerrilha.

Em 1957, tornou-se a mulher mais buscada do país pelo governo de Batista. Como resposta, em maio do mesmo ano, se incorporou ao Exército Rebelde e tornou-se a primeira mulher a atuar armada na guerrilha. 

Em maio, participou do ataque ao Quartel del Uvero, ação classificada posteriormente por Fidel como a “maioridade militar de sua tropa”.

Sua participação no movimento guerrilheiro foi a porta de entrada para outras mulheres — muitas delas já eram envolvidas com ações políticas contrárias a Batista. Em setembro de 1958, após uma reunião de horas com Fidel, foi criado o pelotão Mariana Grajales, “as Marianas”, formado exclusivamente por mulheres.

“Como muitos homens não tinham confiança em nós, Fidel não apenas nos ensinou a atirar, como nos nomeou para sua escolta pessoal”, como contou Teté Puebla, a segunda chefe do pelotão, em entrevista.

Puebla conta que no dia do triunfo da revolução, parte das Marianas não estava em Havana. Fidel então mandou buscá-las: “No dia 2 chegamos e Bayamo e nos incorporamos à Caravana da Liberdade para fazer o percurso até Havana”, lembra Teté.

Adeus

Celia morreu em janeiro de 1980, aos 60 anos, vítima de um câncer. A perda da companheira que o acompanhou durante toda a vida marcou profundamente o Comandante.

“Fidel sofreu um enorme baque com a morte de Célia. Se existiu quem o compreendeu por completo, fora ela. (…) A intensa relação que com ela construíra no cotidiano, de repente se esvaiu, depauperando-o, em sua plena ascensão na arena internacional”. Assim a jornalista Claudia Furiatti, biógrafa de Fidel, relata a morte de Celia.

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