La Jornada

Cinco pontos para entender o cenário plebiscitário das eleições deste ano no Uruguai

Depois de quase 15 anos e três governos da Frente Ampla, o Uruguai encara sua eleição presidencial mais difícil

Eleições convertidas em plebiscito, como em outros países do ciclo progressista, entre a continuidade do processo de transformação, ou a restauração conservadora.

Além do mais, será o primeiro sufrágio sem nenhuma das figuras históricas como candidato. Nem Pepe Mujica, nem Tabaré Vázquez, nem Danilo Astori estarão na cabeça de chapa da Frente Ampla em 27 de outubro.

O contexto é complexo e similar ao de outros países da região: estancamento econômico, meios de comunicação como principal partido de oposição, judicialização da política e presença cada vez mais importante de igrejas evangélicas, sobretudo no Norte do país.  

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O líder uruguaio Daniel Martínez, do Partido Socialista, será o candidato da Frente Ampla à Presidência

Mas há algumas características próprias deste pequeno país do Cone Sul. Vamos analisar cinco delas:

1) Os candidatos

Apesar de que mais que votar em candidatos, se elegem projetos distintos de país, no campo da direita temos o menu completo: evangélicos, outsiders, empresários e um partido militar. Todos eles do lado do partido rosado, a combinação do Partido Nacional e o Partido Colorado, em uma eleição que além dos candidatos de ambos partidos, Lacalle Pou e Ernesto Talvi, se somam a este processo milionários empreendedores como Edgardo Novick e o ex-comandante do Exército Nacional e defensor de torturadores, Guido Manini, que conta com o apoio de setores da Igreja Católica.

Enquanto a direita dividida empurra o eixo político ideológico e o discurso para a direita, a Frente Ampla precisou recorrer ao centro, prova disso é a designação como candidato do ex-prefeito de Montevidéu, Daniel Martínez, do Partido Socialista, que foi escolhido em detrimento de quadros da esquerda como Carolina Cosse (proposta pelo MPP nas eleições internas da FA) e o dirigente trabalhista, militante comunista, Óscar Andrade, um dos quadros do futuro da coalizão.

2) Aprofundamento ou amplitude

Uma Frente Ampla que sempre se caracterizou por ter amplitude, algo que tem sido muito efetivo em determinados momentos da história para incorporar a muitos setores de um arco político-ideológico amplo, mas que também faz com que em outros momentos perca profundidade e concretude em seu projeto político.

Se nos dois primeiros governos de Pepe Mujica e Tabaré houve avanços profundos, como as reformas tributária e da Saúde, a realidade é que hoje, com 34 organizações políticas em seu seio, a amplitude se converteu em um empecilho para conquistar o aprofundamento necessário em seu projeto político, e o não aprofundamento, por sua vez, se converte em um empecilho eleitoral, pois no atual quadro das campanhas de marketing e redes, são Lacalle Pou e Talvi que se movem muito melhor que a Frente Ampla.

3) É a demografia, estúpido

Calcula-se que até 40% dos votos da Frente Ampla nas eleições de 2004 e 2009 vinha de pessoas jovens, menores de 30 anos, que se identificavam com a esquerda, por extensão com a FA. Mas hoje em dia os jovens, especialmente os novos eleitores, que nesta eleição serão 10% do eleitorado (250 mil pessoas), cresceram sob governos da Frente Ampla e, portanto, com a presença forte do Estado, ampliação de direitos e redistribuição da riqueza como algo inerente às suas vidas.

4) A gestão não é sexy

Durante muito tempo os comitês de base foram um pilar fundamental da Frente Ampla que agora se vê esvaziada de quadros para formar o governo. Se construiu, bairro a bairro, uma vitória cultural antes de conquistar a primeira vitória eleitoral. Mas como na política não há espaços vazios, essas formas de aproximação com o povo passou a ser usada pela direita. Além disso, o simples fazer por fazer uma gestão correta (ou até mesmo muito boa, como é o caso da Bolívia) não é o suficiente para as massas eleitorais, especialmente para os jovens.

5) Contexto regional 

Um país como o Uruguai é muito afetado pela situação política-econômica de seus vizinhos. E se bem que a direita não possa levantar a bandeira de uma Argentina em crise como exemplo, a bolsonarização da política é também um fato, com a campanha mais suja e cheia de fake news da história eleitoral. E também, na Argentina foi possível ver que as mudanças não eram irreversíveis, no Uruguai o desmonte da política industrial ou salarial seria mais rápido, ao mesmo tempo que as experiências vizinhas acentuam a tendência política e econômica pouco audaz, para não dizer conservadora, ainda se ganhasse a Frente Ampla.

Estas são as principais chaves para uma eleição que é muito possível que se resolva no segundo turno, possibilidade que aproximaria do triunfo uma direita pronta para partir unida sobre a Frente Ampla.

Neste cenário, é necessário ter clareza que as derrotas eleitorais sempre são posteriores às derrotas políticas. E caso vença a FA, se abre a possibilidade de um quarto mandato, e iremos nos deparar com um governo em disputa, mas também com um Uruguai que, junto com a Argentina e Bolívia, poderia ratificar este 2019 como a continuidade do ciclo progressista latino-americano. 

* Katu Arkonada é cientista político especialista em América Latina

Fonte: La Jornada | Tradução: Mariana Serafini

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