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Política de Guedes e Bolsonaro é pior do que a de Macri, que arruinou economia argentina

Além de crescimento medíocre e do empobrecimento da população, a instabilidade financeira tornou a situação dramática no país vizinho

Dentre as inúmeras mentiras que o governo brasileiro vem utilizando, visando fazer a população engolir o remédio amargo da destruição da previdência, está a de que, se aprovada a PEC 06/2019, a economia brasileira irá deslanchar, como se fosse um número de mágica. É uma previsão completamente absurda, inversa a qualquer lógica de funcionamento efetivo da economia. Como é que, num país que teve crescimento zero no primeiro semestre, no qual a população está empobrecendo e o mercado interno está sendo esmagado, a economia iria retomar o crescimento?

É evidente que o arrocho previdenciário, que vem aí com a PEC 06/2019, irá piorar muito a situação dos brasileiros e da economia nacional como um todo. Como aconteceu, por exemplo, com a contrarreforma trabalhista, sobre a qual diziam que, aprovada, iria gerar milhões de empregos.

O pior, é que o governo Bolsonaro está desmontando o sistema de seguridade social em um momento de risco de uma grave crise financeira mundial, talvez tão dramática quanto a de 2008.

A Argentina, país de destacada importância na América do Sul, cujo governo aplicou programa econômico semelhante ao de Paulo Guedes, antecipa o que pode acontecer com o Brasil. Além de crescimento medíocre e do empobrecimento da população, a instabilidade financeira tornou a situação dramática no país vizinho.

Em 2018, em decorrência de uma violenta crise cambial, o país teve que voltar a recorrer ao FMI, sob pena de sofrer um processo de quebradeira. Aos juros estratosféricos, recessão, desemprego nas alturas, e inflação de quase 50%, a população respondeu nas prévias do dia 11 de agosto, impondo uma derrota acachapante ao governo Macri.

Com o resultado das prévias (até certo ponto surpreendente) no qual Macri obteve apenas 32% dos votos, o peso despencou e o mercado de ações apresentou uma queda acima de 30%, durante a semana subsequente às eleições. Além do efeito sobre preços, a desvalorização cambial pressiona diretamente a dívida pública (equivalente a 88% do PIB do país), da qual 80% é denominada em dólar. Assim, uma desvalorização do peso incide diretamente sobre o estoque da dívida. Alguns economistas argentinos já preveem a necessidade de uma moratória da dívida com o FMI, no máximo até 2020.

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Como um tornado, receita neoliberal imposta a Argentina pelo FMI destruiu a economia argentina

Receita do FMI agravou a crise

Em meados de 2018 o FMI concedeu à Argentina o maior empréstimo de sua história, cerca 57 bilhões de dólares, cujos compromissos começarão a vencer em 2021. Até o momento o FMI já desembolsou 44,1 bilhões de dólares, mas em troca de um ajuste fiscal duríssimo (que explica em boa parte o resultado das urnas no dia 11.08).

Em face do resultado eleitoral adverso, o governo Macri fez uma série de anúncios, como o aumento do salário mínimo, a melhoria dos planos sociais, além de outras medidas para tentar conter a instabilidade financeira, numa evidente tentativa de reverter o cenário, nas eleições de outubro.

A desvalorização abrupta do peso deverá elevar ainda mais a inflação, na medida em que muito preços locais são referenciados em dólar. Na medida em que o dólar fica mais caro, o preço dos produtos e serviços internos acompanham tal movimento, com grande possibilidade de contaminar os preços de forma generalizada.

Consideremos que a memória recente de uma grande parte do povo argentino tem presente a dolarização total da economia e uma brutal hiperinflação, com todas as suas dramáticas consequências. A contaminação da inflação pelo aumento do dólar, se dá também nos produtos importados. Isso num ambiente em que a inflação já está muito elevada, como vimos.

Ao contrário do que alguns iludidos têm propagado, a crise na Argentina não se encaminha para uma solução fácil ou de curto prazo. A destruição realizada pelo governo Macri, a serviço do capital internacional, não deverá se resolver, independentemente do resultado das eleições de outubro, mesmo porque, não há nenhuma garantia de que o resultado das prévias irá se confirmar nas eleições.

Além disso, a gravidade da crise Argentina, que deve ser analisada no contexto sul americano, dificilmente irá se resolver simplesmente através de um processo eleitoral isolado, sem amplo movimento de massas.

Guerra comercial EUA-China

É importante considerar que as turbulências financeiras não se limitam à América do Sul. A guerra comercial entre EUA e China é gravíssima, pelo protagonismo das duas economias, e há fortes riscos de que o conflito se transforme em guerra cambial, o que levaria a consequências desastrosas para a economia mundial. A China, que já desvalorizou sua moeda para contrabalançar as sanções do governo estadunidense, vem mostrando que está disposta a enfrentar a briga. A disputa pela hegemonia mundial se desenrola em todos os campos: tecnológico, político, militar, econômico, etc.

Esta nova disputa entre as duas potências já afeta uma economia mundial em desaceleração. Os analistas falam em risco de recessão na economia estadunidense e a economia chinesa vem desacelerando seu ritmo de crescimento, em função de alguns fatores, incluindo o próprio desgaste da batalha comercial com os EUA. Em meio a toda essa crise, o PIB da maior economia da Europa, a Alemanha, considerada um dos motores da economia mundial, recuou 0,1 ponto percentual no segundo trimestre do ano. Esse dado levanta a possibilidade de uma recessão no país, após uma década de crescimento praticamente contínuo. A queda nas exportações, em função da crise mundial, foi o principal fator desencadeador do problema.

Brasil na contramão

Enquanto nuvens carregadas se formam no horizonte, ameaçando uma tempestade financeira que pode ser mais grave do que a de 2008, o Brasil é surpreendido totalmente no contrapé. Ao invés de tentar expandir o mercado interno, o governo piora substancialmente a vida dos trabalhadores, com dezenas de medidas que acabaram (ou reduziram), direitos sociais e trabalhistas, encaminhadas de forma sistemática. Ao invés de colocar o patrimônio público nacional a serviço do desenvolvimento, está entregando seus melhores ativos, a preço de banana, para os abutres que financiaram o golpe de Estado.

Ao invés de valorizar o consumo interno, em face da possibilidade de uma grande crise internacional, o que assistimos é a volta da fome, que havia sido erradicada no Brasil, conforme atestou a ONU em 2014.

O Brasil sofre um verdadeiro colapso dos investimentos produtivos. Análises divulgadas na imprensa no último final de semana, dão conta que o baixo nível de investimentos na construção civil, como máquinas e inovação tem poucos precedentes históricos na história do país.

Estimativas do pesquisador Paulo Morceiro, do Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus), revelam que a taxa de investimento da construção civil como percentual do PIB, apresentou no ano passado o pior desempenho em mais de 70 anos. Segundo a publicação, os 7,5% de 2018 só ficam abaixo dos 6,9% de 1948, segundo ano da série histórica compilada pelo economista com base em dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Outros dados da referida pesquisa apontam para a mesma tragédia no nível de investimentos, revelando uma quase falência de outros setores. Em 2008, quando explodiu a crise mundial, em pleno epicentro do sistema capitalista, o Brasil soube enfrentar o tsunami com políticas anticíclicas de crescimento, manutenção das políticas sociais, expansão do mercado consumidor interno (via salário mínimo e geração de empregos) e aumento dos investimentos públicos.

Se nos próximos meses vier outra crise de magnitude semelhante, será numa conjuntura onde o país tem o com pior governo de sua história, e que está desmantelando as estruturas econômicas, sociais e políticas, que seriam essenciais num momento como esse.


* José Álvaro Cardoso é economista e supervisor técnico do DIEESE em Santa Catarina.

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