Carta Maior

Mídia monopolista da Argentina teme vitória de Fernández nas eleições presidenciais

Durante o governo de Cristina Kirchner, veículos investiram na desestabilização da economia e no caos político

A mídia monopolista da Argentina – tendo à frente os grupos Clarín e La Nación – ficou atordoada com a surra do neoliberal Maurício Macri nas eleições primárias do mês passado e já teme pela formação de um governo progressista a partir do pleito do final de outubro. Artigo de Sylvia Colombo, corresponde da Folha em Buenos Aires, especula que a “imprensa argentina já se adapta a provável vitória kirchnerista”. Será?

A mídia burguesa do país vizinho, tão reacionária como a brasileira, sempre agiu como um partido de direita. Durante o governo de Cristina Kirchner, ela investiu na desestabilização da economia e no caos político. Nas eleições de 2015, ele fez campanha descarada para o ricaço Mauricio Macri. Durante os seus quatro anos de gestão, a mídia venal defendeu suas “reformas” ultraneoliberais e manipulou os “midiotas” portenhos com a promessa de que a Argentina iria virar um paraíso de prosperidade após a derrota do “populismo peronista”.

Mas o prometido não foi entregue e despertou a ira dos “hermanos”. Com sua política de austericídio fiscal, de ataque aos direitos sociais, de privataria e de entreguismo, Maurício Macri destruiu a economia e colocou o país outra vez sob comando dos abutres do Fundo Monetário Internacional (FMI). O Produto Interno Bruto (PIB) despencou, a inflação explodiu, o desemprego bateu recordes, a renda dos trabalhadores derreteu e a miséria reapareceu. A surra do ricaço nas prévias, que deve se repetir em outubro, foi mais que merecida.

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A chapa kirchnerista Alberto Fernández e Cristina Kirchner

Reposicionar linhas editoriais e negócios

A mídia monopolista, que foi cúmplice dessa tragédia, agora teme pelo futuro. A correspondente da Folha – que evita fazer críticas mais duras às corporações – descreve o atual quadro de incertezas: “Como acontece a cada ciclo de poder na Argentina, os principais veículos se encontram em um momento de reposicionar suas linhas editoriais e seus negócios. Num país em que o jornalismo é tradicionalmente parcial, contra ou a favor do governo de turno, mudanças na Casa Rosada geralmente detonam grandes transformações nos comandos das redações e das emissoras de televisão”.

“A provável volta do kirchnerismo, anunciada pelo resultado das eleições primárias em 11 de agosto, pegou de surpresa os dois conglomerados mais importantes, o Grupo Clarín e o La Nación. O Clarín é dono do jornal Clarín, de emissoras de sinal aberto e a cabo e do principal provedor de internet, entre outros. Já o La Nación, além do jornal de mesmo nome, possui rádios, uma emissora de TV e outros investimentos”, descreve Sylvia Colombo, que culpa a ex-presidente Cristina Kirchner pelo clima de tensão vivido com a imprensa local.

“A mandatária avançou contra o Clarín e o La Nación quando eles decidiram tomar partido dos ruralistas, em 2008, após a implementação de um imposto para venda de produtos agrícolas. A briga foi tão feia que o governo expropriou a Papel Prensa, companhia da qual os dois grupos eram sócios e que produzia papel para os jornais, e conseguiu que o Congresso aprovasse uma Lei de Meios para obrigar o Clarín a abandonar investimentos – o que acabou não acontecendo. Foi por isso que a mídia tradicional ficou de mãos dadas com o governo de Mauricio Macri desde sua posse, em dezembro de 2015, até o último dia 11 de agosto”.

"Mãos dadas" com o odiado Macri

Essas “mãos dadas” com um governo desastroso colocam novamente a mídia venal da Argentina na berlinda. Para evitar o pior, ela agora vai tentar se “adaptar”, como enfatiza a matéria da Folha, que até registra cenas patéticas. “Alguns jornalistas que apoiavam Macri chegam a passar vergonha. Um dos mais conhecidos, Luis Majul, que passou os últimos três anos atacando Cristina e fazendo entrevistas laudatórias com Macri, fez um ‘mea culpa’ no ar: ‘Quero fazer uma autocrítica. Nos últimos tempos estive muito focado na corrupção kirchnerista e não me dei conta de que as pessoas estavam sem recursos para chegar até o fim do mês’, disse, em seu programa de TV” – do grupo Clarín.

A Folha especula, como é do seu hábito, que “já está havendo conversas entre a equipe de Alberto Fernández, o candidato da oposição, e os donos desses veículos. Se isso se concretizar, o noticiário ‘mainstream’ passará novamente a ser governista, com alguns poucos fazendo investigação contra a nova gestão”. A conferir se a relação entre a mídia monopolista e um provável governo “kirchnerista” será assim tão conciliadora e dócil!

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