Danielle Pereira | Flickr

À sombra da repressão da chamada Guerra do Gás, apoiadores de Evo seguem resistindo

Vice-presidente dos sindicatos cocaleros, Andrónico Rodríguez pediu à multidão guardar “fidelidade ao nosso presidente mesmo que esteja em outro país”

Continuam as longas filas para carregar gasolina, mas as escolas voltaram a abrir. O governo de fato declara que a Bolívia caminha a passo firma para a normalidade, mas as lojas têm prateleiras meio vazias e os garçons da zona turística se entediam olhando as mesas vazias. Ao lado das notas em que os ministros do governo dão notícias alentadoras, os meios locais publicam outras que pintam um panorama apocalíptico para os produtores agropecuários e outros setores produtivos.

Contudo, há uma prova de que a gasolina chegou a esta cidade, pois voltaram os congestionamentos que se complicaram com um aguaceiro vespertino. 

La Paz é a sede do poder público, mas não o nó do conflito. Se a tensão baixou é porque as bases do MAS deixaram de manifestar-se aqui nos últimos dias e porque em El Alto, a cidade conurbada com longa tradição de protestos, e em outras zonas de país – como em Chapare, bastião do presidente cocalero – decretaram uma trégua respiro para, por um lado, permitir a passagem de mercadorias e combustível, mas sobretudo para realizar cabildos (assembleias populares) e definir se continuam ou não os bloqueios. 

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Vice-presidente dos sindicatos cocaleros, Rodríguez pediu à multidão guardar “fidelidade ao nosso presidente mesmo que esteja em outro país”

Assim explica Adriana Guzmán, dirigente aimará de El Alto: “Nesta segunda há cabildo, mas El Alto está esperando a decisão de Cochabamba. Aí quiseram partir. Chapare tem dito que não está seguro, estão em discussão, mas o Valle Alto disse que vai manter as mobilizações. É importante o que diga Chapare MAS, e o que diga Senkata, porque aqui aqueles que têm a apalavra são Sacaba e Senkata, que têm os mortos. Sacaba disse que vão manter as mobilizações. Deram um intervalo para que tirem gasolina e gás, mas vão se manter”. 

Em El Alto está viva a memória da repressão de 2003 – no conflito conhecido como a Guerra do Gás – que custou a vida de 81 pessoas e teve mais de 400 feridos depois que o então presidente Gerardo Sánchez de Lozada, decidiu pôr o exército nas ruas. 

Então e agora, com tudo e seus mortos, diz Guzmán, as organizações de El Alto têm dado provas de que são corredores de fundo. “Espero que mantenham as mobilizações, que consigamos que Jeanine Áñez vá embora e a partir daí haja eleições”. 

O centro do país parece caminhar na mesma linha. Nas redes sociais circulam vídeos que mostram Nadia Cruz, Defensora do Povo (equivalente à CNDH mexicana), no cabildo das Seis Federações do Trópico de Cochabamba, o bastião histórico de Evo Morales: “Irmãs e Irmãos, nem olvido nem perdão, justiça!”, lançou Cruz, enquanto esperavam a delegação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Ao seu lado estava um jovem por volta de 30 anos que é vice-presidente dos sindicatos cocaleros e foi apontado como delfim do asilado presidente Morales que o apoiou mais de uma vez.

Chama-se Andrónico Rodríguez, estudou ciências políticas, e antes de atrair a atenção de Morales seu maior mérito havia sido ostentar o cargo de secretário de esportes de sua organização (não há que esquecer a paixão por futebol de Evo, que encheu a Bolívia de campos de futebol cobertos com grama sintética). 

Em um vídeo dá pra escutar gritos de “Andrónico, não estás só!” e o jovem dirigente toma a palavra para dizer que na Bolívia não há liberdade de expressão desde o golpe, que há uma denúncia contra ele por sedição e que graças ao governo os jovens bolivianos estão conhecendo “o que significa um governo de direita”. 

Em seu discurso, também disse que pedirão explicações às bancadas do MAS na Assembleia Legislativa sobre por que não instalaram uma sessão para analisar a carta de denúncia de Evo Morales –como correspondia segundo a lei – e reconheceu que há uma trégua “para organizar-nos”, embora também tenha advertido: “Não vamos nos desmobilizar”. 

Rodríguez pediu à multidão guardar “fidelidade ao nosso presidente mesmo que esteja em outro país”. 

O jovem dirigente esteve no domingo em Senkata, na cidade de El Alto. Atrás do edifício onde familiares dos assassinados testemunharam à delegação da CIDH, Rodríguez “recebia mostras de apoio e tirava fotos como se estivesse em campanha”, disse uma testemunha. 

Durante o debate da nova lei eleitoral – uma formalidade posto que os termos foram pactuados durante duras negociações secretas entre o governo de facto e a maioria legislativa do MAS – os legisladores afins a Jeanine Áñez encheram a boca de palavras como “imparcialidade”, “limpeza” e “independência”, ao falar das qualidades que deveriam ter as novas autoridades eleitorais (integrantes do Tribunal Superior Eleitoral, TSE).

Para dar uma prova inequívoca de que as novas autoridades serão independentes, Áñez designou –por dizer, porque todo mundo na Bolívia sabe que ela ocupa o cargo só por casualidade por ser a segunda vice-presidente do Senado, mas que não tem o mando – o sétimo integrante do TSE. A nomeação recaiu em Salvador Romero Ballivián, cientista político e escritor. 

Evo Morales perdeu um referendo em 2016 e teimou em voltar a ser candidato. Conseguiu isso via uma resolução da Corte Suprema que desde então seus opositores criticaram duramente. 

Mas há que dizer que do outro lado tampouco sopram ares de renovação. Quando Sánchez de Lozada teve que abandonar a Bolívia após o chamado Massacre de Outubro, quem assumiu a presidência foi Carlos Mesa, adversário de Evo Morales na recente eleição. Mesa já está apontado na lista para as próximas eleições que ainda não têm data. 

Romero Ballivián, o primero designado para organizar a nova eleição já havia ocupado um cargo similar entre 2004 e 2008, pois então o TSE tinha outro nome. Quem o nomeou em 2004? Você acertou: Carlos Mesa. 

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