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"Um país devastado e terra arrasada": esta é a herança de Macri para Alberto Fernández

Um dia depois de assumir o governo, o presidente Alberto Fernández reuniu-se com o presidente cubano Díaz-Canel, e com Michael Kozak, o enviado de Trump

Um dia depois de assumir o governo, o presidente argentino Alberto Fernández reuniu-se com seu par cubano Miguel Díaz-Canel, e com Michael Kozak, o enviado do mandatário estadunidense Donald Trump, enquanto em La Plata, província de Buenos Aires, assumiram seus cargos o governador Axel Kicillof e a vice-governadora Verónica Magario, com anúncios de medidas importantes, como também o fizeram alguns ministros do governo nacional que ocupam áreas estratégicas.

Como que confirmando o que lhe advertiu a vice-presidenta, Cristina Fernández de Kirchner, sobre a “herança” que recebia de “país devastado” e “terra arrasada”, o presidente teve que receber seu primeiro convidado neste dia extremamente caloroso, em um escritório sem ar condicionado, porque o ex-mandatário Mauricio Macri levou embora, entre outras coisas, o equipamento. 

Kicillof confirmou que como a nação, a província estava em default (cessação de pagamentos) e houve um corte de luz que afetou a milhares de bonaerenses, apesar de a empresa chilena Edesur e suas filiais terem aumentado as tarifas em mais de 3000% para fazer investimentos e evitar os apagões.

O recém assumido governador bonaerense, que ganhou folgadamente de sua antecessora María Eugenia Vidal, informou que declarará a emergência na maior e mais povoada província do país, suspenderá os aumentos tarifários dispostos pelo governo anterior. “O que deixou Vidal, entre outras coisas, é um caixa de 25 bilhões de pesos, que não alcança para cobrir as obrigações do próximo mês que somam 50 bilhões de pesos, além da altíssima cifra de desemprego, pobreza, uma dívida e uma inflação desmesuradas”.

Também foi afetado o Banco Província de Buenos Aires, cujos trabalhadores denunciaram a agora ex-governadora, além da gravíssima situação da indústria e do comércio, que qualificou de “dramática” e prometeu trabalhar sem descanso. Disse que “o que se aplicou aqui foi um modelo de valorização financeira, de endividamento e fuga de capitais”. 

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Alberto Fernández recebeu do antessor um pa´ís quebrado

Entretanto, Fernández almoçou com Michael G. Kozak, subsecretário do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que se mostrou disposto a que seu país ajude a Argentina nas negociações pela reestruturação da dívida com o Fundo Monetário Internacional, e falou-se da necessidade de reforçar as relações bilaterais. 

Em uma mensagem oficial da presidência foi informado que “acordaram criar um sistema de consulta permanente para trabalhar coordenadamente entre ambos países”. Na reunião, também não se falou sobre a decisão de Mauricio Claver, assessor presidencial e diretor de Segurança Nacional para o Hemisfério Ocidental, de antecipar seu regresso supostamente por sentir-se “afetado” pela presença no ato de posse do ministro venezuelano de Comunicação, Jorge Rodríguez.

Neste aspecto o governo remarcou que o presidente “é dono de convidar à Argentina quem quiser”. Da reunião participaram também o embaixador em Buenos Aires, Edward C. Prado, o conselheiro político Chris Andino e a assessora Mariju Bofill. Da parte argentina estiveram presentes o chanceler Felipe Solá, o secretário de Assuntos Estratégicos Gustavo Béliz e Jorge Argüello, que poderia ser o embaixador argentino em Washington.

Fernández recebeu vários de seus convidados como o ex-presidente do Equador, Rafael Correa, que tem recebido aqui homenagens de instituições e universidades, e como o ex-presidentes do Uruguai, José Pepe Mujica e sua esposa a ex-senadora Lucía Topolansky e o ex-presidente do Paraguai, Fernando Lugo, entre outros. 

“Viemos para resolver o problema de virtual default (cessação de pagamentos) que deixou a administração anterior”, disse o ministro de Economia, Martín Guzmán, muito próximo ao prêmio Nobel Joseph Stiglitz, durante sua primeira entrevista coletiva e declarou que 2020 “não é um ano no qual se possa fazer ajuste fiscal” e agregou que “não funciona atacar a inflação somente com política monetária”. 

Guzmán, que já manteve um diálogo com funcionários do FMI assinalou que nesse organismo “há um reconhecimento do fracasso do programa anterior” e remarcou que o Fundo também admite “a grave situação econômica em que está a Argentina”. 

“A macroeconomia está em um estado muito frágil, navegando por um corredor muito estreito” e estimou que ao finalizar 2019 a inflação vai se aproximar dos 55% e com elevados níveis de pobreza, desemprego e destruição de empresas.


*Stella Calloni, Correspondente La Jornada, Buenos Aires

**Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

***Tradução: Beatriz Cannabrava

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