Ilustração: tt Catalão (in memorian)

Com Bolsonaro ou sem Bolsonaro? Brasil deriva entre a lumpen-burguesia e os sociopatas

Não há no país hoje o que poderíamos chamar de governo. Quem tem um pouco mais de conhecimento tromba com ignorância do grupo palaciano

Paulo Cannabrava Filho

Diálogos do Sul Diálogos do Sul

São Paulo (SP) (Brasil)

Dias de reflexão fez-me lembrar de Augusto Salazar Bondi, filósofo e educador com quem trabalhei nos anos 1970 na formulação e execução da Estratégia de Educação da Revolução Peruana. Fiquei lembrando de um de seus livros, que me deu muito o que pensar: Entre Escila y Caríbdis, uma reflexão filosófica sobre estar no mundo.

Estar entre Escila e Caríbdis era, na mitologia grega, estar entre dois monstros e ter que escolhe o pior. Já a história explica que na realidade era o perigo de navegar pelo Estreito de Messina, tão estreito que se derivasse um mínimo para a direita chocava com Escila e se derivasse para a esquerda, chocava com Caríbdis, o que significava naufrágio e morte.

É assim que eu me vejo a atual conjuntura. Obrigado pela quarentena a mergulhar em reflexões, seguindo o exemplo da nossa mestra e amiga Beatriz Bissio, a inventora e fundadora da Diálogos do Sul, revista virtual herdeira de Cadernos do Terceiro Mundo, onde Beatriz era a editora.

Estamos no Brasil entre Escila e Caríbdis, entre um bando de sociopatas e uma lumpen-burguesia.

O Sociopata é o indivíduo que sofre de transtorno dissocial da personalidade. É uma patologia psiquiátrica que leva as pessoas a agirem por impulso sem respeitar as regras sociais, portanto não aceitam viver limitados pelas leis do Estado.

Lúmpen-burguesia é paráfrase de lúmpen-proletariado, termo que o velho Karl Marx usava para qualificar o estamento social abaixo do proletariado, em outras palavras, aqueles marginados pelo sistema. No caso nos referimos a uma burguesia que não se formou como classe.

Não há no Brasil hoje o que poderíamos chamar de governo. Um faz outro desfaz. Cada um faz o que quer e tromba um com o outro. Geralmente é alguém que tem um pouco mais de conhecimento que tromba com a ignorância avassaladora do grupo palaciano, todos patologicamente atacados de sociopatia.

A situação é de guerra. Isso impõe que o país deveria estar governado por um Gabinete de Crise. Um gabinete conformado por todos os setores envolvidos nas decisões a serem tomadas no caso de guerra e também por especialistas de reconhecida competência em suas áreas de conhecimento. Um comitê de inteligentes como propôs o sábio Miguel Nicolelis.

O Comitê ou Gabinete de Crise avalia cada medida a ser tomada, estuda numa perspectiva de curto, médio e longo prazo e desenha as estratégias para que cada setor possa planejar a sua atuação. Estamos diante de um governo que nem o seu próprio gabinete de ministros se reúne. E se reunir, o que se pode esperar de um bando de incompetentes e sociopatas?

Eis aí porque dizemos que só haverá possibilidade de construir caminhos derrubando esse governo e chamando novas eleições. Se não der para chamar eleições agora por conta da pandemia, é preciso entregar a gestão do país a um Conselho de Sábios e os presidentes do Legislativo e do Judiciário. O Brasil precisa de gente inteligente, culta, com visão de mundo e espírito humanitário para gerir a crise.

Bando de militares deslumbrados subordinados ao comando militar dos Estados Unidos não será capaz de fazer outra coisa do que nos levar ao caos para facilitar a dominação do Império.

Ilustração: tt Catalão (in memorian)
Não há no Brasil hoje o que poderíamos chamar de governo. Um faz outro desfaz

No mundo

Diante da catástrofe que atinge o povo italiano, provocada pela pandemia, o sociólogo Domenico de Masi pergunta: O que salvar primeiro, a saúde ou a economia? Na semana passada eu me perguntava: quem nos matará primeiro, o vírus ou o pibinho, ou seja, a economia paralisada. Isso é estar entre Escila e Caríbdis.


Estados Unidos em decadência e uma Europa ainda ocupada militar e ideologicamente impotentes para conter a pandemia não entendem e não aceitam a emergência da China.

Um novo imperialismo que se nos defronta? O certo é que a hegemonia do império estadunidense já não se sustenta. Podemos sim construir uma Nova Ordem.

O poderio bélico já não serve para nada. Não é com bomba atômica, como fizeram em Hiroshima e Nagasaki, que se dizimará o vírus. Este se combate com a ciência e a solidariedade humana.

O governo dos EUA ancorou em Nova York um navio hospital da marinha de guerra. A marinha tem seis frotas, por que não colocou um desses navio hospital para socorrer seus aliados italianos?

Com todas as frotas e bases navais e aéreas espalhadas pelo mundo, são centenas, não foram capazes de socorrer um navio cruzeiro inglês, com passageiros infectados e precisando de socorro médico. Cuba recebeu o navio e tratou dos pacientes.

A própria Inglaterra não soube o que fazer sabendo que a maioria dos passageiros era de ingleses. Contudo, soube mandar navios de guerra para bloquear um petroleiro iraniano que pretendia entregar a carga a um país europeu.

Inglaterra e Estados Unidos mantêm a tensão bélica e o bloqueio em Irã; Síria; Venezuela e Cuba. Bloqueio mantido a custas de vidas humanas, quando deveriam ajudar a esses países enfrentarem a crise econômica advinda da pandemia.

Há realmente muito a se comemorar com a decadência e perda de hegemonia do império dos anglo-saxões, ianques, ingleses e seus aliados. O mundo pode construir uma Nova Ordem sob o princípio da Paz.

Os jornais, sempre submissos à dominação colonial, a exemplo da junta militar e dos EUA, continuam a tratar a China, com desprezo e até ofensivamente. Mas já estão admitindo que é uma segunda potência. Raciocínio de Jerico, de quem não vê o óbvio.

A China é a maior exportadora e importadora do mundo e é também a maior consumidora. Como vai ser a segunda? Se tudo na cadeia global de produção passa pela China, como vai ser a segunda?

Os Estados Unidos têm seis frotas navais, a maior aviação de guerra do mundo… pra que serve tudo isso? Hoje servem para nada. Estão usando essa força descomunal para bloquear países que querem se desenvolver com independência como o Irã, a Síria, Venezuela e Cuba.

A realidade está mostrando que a força não funciona. Como disse o presidente Xi Jinping, acabou a hegemonia, agora é hora de ter relações harmoniosas de respeito mútuo e negociar em benefício de todos.

No Brasil

O Brasil está tão despreparado como os Estados Unidos para enfrentar a crise. Por isso mesmo devemos prestar atenção ao que dizem os especialistas e tomar todas as medidas a nosso alcance para tentar bloquear o avanço da pandemia.

Tem gente que ainda acha que o rumo da política econômica está correto. Outro dia li um artigo do Delfim Neto elogiando o Guedes por estar fazendo o correto. Fiquei pasmo. Deve ter pegado o mesmo vírus na cabeça que atacou o Eduardo Bolsonaro.

O problema é admitir que cometeram o grande erro ao adotar o neoliberalismo e deixar-se submeter a hegemonia do capital financeiro. Esse é o busílis da questão econômica. Permanecer ou dar um salto e começar tudo de novo com um outro modelo. Dar o salto é admitir o erro. Claro que errar é humano, mas para admitir o erro precisa ser humano e humanista, ter inteligência.

Popularidade

Quase 50% da população já se de deu conta do engano e qualificam o governo de péssimo e ruim. É um bom começo. Já não são só os bate-lata… é muita gente, mas precisamos que sejam quase todos. 80 a 90%. Vamos chegar lá com mais de 100 milhões entre o desemprego e o desespero. Entre Escila e Caríbdis.

É difícil poder confiar no Estado. Há carradas de razões para não confiar. Desde a implantação da República dos Oligarcas, e 1889, a questão da pobreza é encarada como caso de polícia. Nunca houve intenção de integrar a população. Só cedem quando a pressão é muito grande.

Periferia como exemplo

O que está acontecendo em Paraisópolis, periferia de São Paulo, é um bom exemplo do que pode ser feito pra proteger a população de quase 100 mil pessoas. Organizaram um verdadeiro exército de voluntários com comandos por quarteirões e por ruas pra cuidar da população.

Esperamos que o Estado e o município mandem recursos, equipamentos e médicos para reforçar o atendimento. E que o exemplo se repita em outras comunidades abandonadas pelo Estado.

Desmonte do SUS

Saiu nos jornais que o SUS perdeu 48 mil leitos nos últimos dez anos. Ele é exemplo mundial de políticas públicas de saúde. Há razões para queixas porque o governo não dá os recursos necessários.

O ideal é que nesses dez anos tivessem criado pelo menos uns 100 mil novos leitos. Dez mil por ano…. ninharia em termos de custo para o Estado. Em vez disso, o governo está sucateando o SUS com objetivo de acabar com ele para favorecer as empresas privadas.

Veja que enquanto o SUS perdeu quase 50 mil leitos, a rede privada aumentou 14 mil. É a matemática que prova a intenção dos neoliberais de acabar com a saúde pública. Nos Estados Unidos, Barack Obama tentou melhorar a saúde pública, não conseguiu, vai morrer gente em penca lá como aqui.

Vírus do Trump

Quando chamamos o coronavírus de Vírus do Trump, já passa de 20 as pessoas da equipe presidencial que visitaram Donald Trump, no seu balneário em Miami, que voltaram contaminadas. Eram 45 os viajantes. Quem são esses caras? O que foram fazer lá? O Ministério Público deveria perguntar porque tanta gente e quem pagou a conta?

Quantos mais? É ou não é o Vírus do Trump?

Sem emprego

Enquanto o governo viaja às nossas custas, as montadoras da indústria automobilística anunciam que vão dar férias ou colocar no banco de horas cem mil trabalhadores.

O governo em vez de ajudar as empresas para que mantenham o emprego autoriza demissão em massa, reduz direitos, sempre dos trabalhadores.

O resultado é fácil de mensurar. No curto prazo teremos metade da população no desemprego e desespero. Metade da População Ativa já está no desemprego e na precariedade. Ninguém pensa no futuro, nas nossas crianças?

Com Bolsonaro ou sem Bolsonaro

Panelaços e cartazes com Fora Bolsonaro refletem os quase 50% de percepção social da incapacidade deste governo. Dizem por aí que um setor dos militares está preocupado com a imagem dele ser associada às Forças Armadas. Como se ele não representasse as forças armadas...

Gente… ele é o protótipo do Exército. Cria deles, educado e formado por eles, apenas um pouco desequilibrado. Mas, nós sabemos que quem governa na realidade é uma junta militar, de generais da ativa e da reserva, esses sim, indignos representantes das forças armadas.

Outros setores da Administração Pública — instituição permanente — manifestam preocupação com a possibilidade de uma reação ainda mais burra da junta de governo ante o aumento do descontentamento da opinião pública e o agravamento da crise proclame o Estado de Sítio. É com o que sonham o clã Bolsonaro e o bando de terraplanistas deslumbrados pelo poder.


Paulo Cannabrava Filho é editor da Diálogos do Sul

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