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Angola: Ngola Kaluenge, o rei rebelde

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Há 500 anos começou a luta de libertação de Angola
Há 500 anos começou a luta de libertação de Angola

Robeto Correa Wilson*

As lutas do povo angolano contra a opressão estrangeira não poderiam ser escritas sem menção ao nome de Ngola Kaluenge, que rechaçou o colonizador, tendo sido capaz de prender uma embaixada enviada de Lisboa pelo rei de Portugal.

O monarca lusitano enviou  uma comitiva de altos dignitários para discutir com seu equivalente nativo e tratar de convencê-lo da presença estrangeira no país africano.

Com a detenção dos ilustres emissários, Ngola deixava claro seu repúdio a tais pretensões. Uma lição que gerações em Angola nunca esqueceram, no enfrentamento de mais de cinco séculos contra a nação europeia.

Angola na história

Um esboço histórico permite conhecer o contexto em que se desenvolveu posteriormente a enérgica repulsa de Ngola. Os especialistas partem da formação da nação angolana. Nos primeiros 500 anos de nossa era começou uma série de emigrações pelo sul e pelo norte do país.

Estas emigrações tiveram distintas motivações, em alguns casos a necessidade de encontrar melhores terras de cultivos e rincões de caça, e em outros, razões religiosas ou sociais.

No século XIII o grupo kicongo se estabeleceu na margem esquerda do rio Congo, ao norte de Angola; posteriormente  emigraram também as tribos nganguela, varyanelca, janga, hereros, idkos, ambos, malkokolos y kwangales, contribuindo todos para o atual plano etnológico da nação.

Historiograficamente, a era precolonial se dividiu em dois períodos: o período africano e o afro-português. O período africano compreende os ciclos Congo (desde o século XIII até 1490), e o Kwanza (desde o século XIV até 1520).

Ciclo congo

No século XIII todas as tribos e clãs do grupo icongo nuclearam-se em torno do chefe Weme, formando o reino Congo, cuja capital era Mbanza.

O reino Congo se estendeu pela bacia  do baixo rio Congo, ocupando os territórios que hoje fazem parte do norte angolano, da República Democrática do Congo e da República do Congo.

O ciclo Kwanza é formado pelos reinos Ncongo e Kissana. Por sua parte, o reino Ncongo se formou com as migrações de povos que vieram de outras regiões da África.

A capital do reino era Mbanza Kabassa. Este reino era limitado da seguinte forma: ao norte pelo rio Dande e as terras de Ambulia; ao sul pelo Planalto de Bié; a leste pela região de Kassanje e a oeste pela região de Kissana. O soberano mais destacado deste reino era Ngola.

Para efeitos de estudo o período afro-português também foi dividido em dois ciclos: o Congo (desde 1490 até 1595), e o Kwanza (desde 1520 até 1575).

Portugueses à vista

Em 1482 chegaram os primeiros portugueses, comandados por Diogo Cão. A assombrosa beleza do território angolano, as terras e rios favoráveis ao desenvolvimento da agricultura impressionaram sobremaneira o navegante, que percebeu as grandes possibilidades de exploração que tinha o país e voltou a Lisboa com o objetivo de informar o rei.

Na sequência sucederam-se, com poucos anos de diferença, uma série de acontecimentos que influiriam decisivamente na história passada e presente de Angola, e que começaram quando, dois anos mais tarde, em 1484, voltou Diogo Cão e desta vez começou os trabalhos de colonização.

Em 1490 desembarcaram no porto de Mpinda, próximo à foz do rio Congo, os primeiros  comerciantes portugueses. O comércio baseou-se fundamentalmente na troca de artigos manufaturados por escravos.

Se, em certa medida, os colonizadores receberam ajuda de alguns nativos, sobretudo dos convertidos à religião católica e que também obtinham lucros com o comércio de escravos, tiveram também que lutar contra a resistência que lhes ofereceram outros grupos autóctones.

Desde o início esses grupos foram beligerantes com relação aos  portugueses. Mas as contradições internas minaram o reino Congo que viveu, durante todo o século XIV, uma série de revoltas e conflitos.

Diferentemente do reino Congo, o Kwanza manteve sua unidade interna e se caracterizou por uma oposição mais vigorosa ao colonizador. Foi então que ocorreu, em 1575, o fato histórico protagonizado por Ngola.

Perturbado pela obstinada resistência que oferecia o reino do Kwanza, encabeçada por seu soberano Ngola, o monarca lisboeta enviou a Angola uma missão diplomática para persuadir o rei africano.

O aprisionamento de seus emissários e a continuada rebeldia indignaram o monarca. Apesar dessa resistência, em 1576, Paulo de Novais chegou à baía de Luanda e se estabeleceu definitivamente no lugar.

A partir de então começaram as guerras de enfrentamento direto e contínuo com os  conquistadores. A região de Kwanza  tinha vários estados. No princípio os principais eram Kdongo, Congo, estados livres de Kissanga, Matamba e Kassanje.

As zonas de Matamba e Kassanje eram habitadas principalmente pelos Dagas, que se defenderam separadamente da colonização portuguesa.

O rei Ngola conseguiu unificar por algum tempo os estados do Kwanza, mas a Coalisão do Kwanza, como foi chamada, desintegrou-se pouco tempo depois devido ao temor de alguns chefes de lutar contra os portugueses.

A colonização continuou a se estender pelo país, não sem enfrentar a tenaz resistência dos que continuaram a luta depois do desaparecimento de Ngola, a  ponto de só em 1915, quase três séculos depois da morte do rei rebelde, Portugal obter o domínio completo de Angola.

*Colaborador de Prensa Latina, de Havana para Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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