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“Ao me derrubar, derrubaram a árvore da paz”, profetizou o último presidente democrático do Haiti

Até o The New York Times considera que Jean Bertrand-Aristide foi o último governo popular do Haiti. Ele foi derrubado por um golpe de Estado comandado pelos Estados Unidos
Nils Castro
Diálogos do Sul
Cidade do Panamá

Tradução:

O presidente do Haiti, Jovenel Moïse foi morto a tiros na quarta-feira (7), em sua residência, por uma quadrilha de ex-militares colombianos bem armados, que chegaram da vizinha República Dominicana.

Nenhuma equipe de segurança do presidente resistiu aos atacantes, mas horas depois a ineficaz polícia haitiana os localizou em um imóvel próximo, matou alguns e capturou mais de uma dúzia. Os diversos anúncios “oficiais” buscam mais guardar as aparências do que informar.

Mas se evidencia que o crime brotou do confronto entre as facções da direita política e comercial — da qual o próprio presidente Jovenel Moïse provinha —, a menos de três meses das eleições em que tanto ele como ambas as câmaras do Congresso seriam substituídos. De antemão, já nada restava de “legitimidade”.

O período presidencial de Moïse findou há um ano, mas não havia instância que pudesse substituí-lo: o mandato dos parlamentares também já havia terminado e o presidente da Corte falecera por Covid-19. 

Além disso, pouco antes que os mercenários o baleassem, Moïse havia anunciado que substituiria seu primeiro-ministro, Claude Joseph, designando em seu lugar a Ariel Henry, mais apto para negociar um Governo de “larga base”.

Mas Henry ainda não estava juramentado e após o magnicídio, Joseph se proclamou chefe de Governo e os Estados Unidos, em seguida, o reconheceram. Palavra de César, que ninguém mais questiona, apesar das lamúrias de Henry.

Agora Joseph solicitou forças militares estadunidenses para custodiar as instalações essenciais — aeroporto, recepção de combustíveis, etc. 

Washington já respondeu que, por agora, enviará forças do FBI e da Segurança Interior para dirigir a investigação do homicídio presidencial.

Até o The New York Times considera que Jean Bertrand-Aristide foi o último governo popular do Haiti. Ele foi derrubado por um golpe de Estado comandado pelos Estados Unidos

wikimedia commons
O presidente Jovenel Moïse foi assassinado em sua residência no último dia 7. Até o momento não se sabe o que motivou a ação

Desde o primeiro dia, o New York Times dedicou múltiplos e prolixos artigos ao caso. Entre os primeiros, descreveu a violência, a ditadura, a corrupção e o abuso como constantes da política e dos negócios no Haiti, outrora uma rica colônia da França e depois uma república subordinada ao paternalismo de Paris, até fazer dessa ilha o país mais pobre da América.

O cuidadoso NYT salienta que só uma vez houve ali uma eleição e um Governo democrático, o do popular sacerdote Jean-Bertrand Aristide, derrocado em 2004, após uma prolongada campanha de desestabilização e intentonas armadas auspiciadas pela direita empresarial, com apoio dominicano. 

Porém, o que o pudibundo NYT deixa de recontar é que, após fortes pressões de Paris e de Washington para que renunciasse, em 1º de março deste ano, Aristide foi sequestrado por um comando militar estadunidense, que o transportou até Bangú, na República Centro-africana, onde ficou expatriado.

Essa operação concretizou um golpe. Ao aterrissar em Bangú, Aristide afirmou que: “Ao me derrubar, derrubaram a árvore da paz”, acrescentando, porém, que: “esta árvore crescerá novamente, porque suas raízes estão bem plantadas”. 

Até hoje, os mesmos atores marcam o passo e só a primeira frase continua se cumprindo.

Nils Castro, Escritor e diplomata panamenho, colaborador de Diálogos do Sul.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Nils Castro Um dos mais prestigiados intelectuais da região. É autor do livro “As esquerdas latino-americanas em tempo de criar”

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