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Apesar da crise na aviação mundial, analistas acreditam que Copa Airlines vai sobreviver

A companhia aérea de bandeira panamenha é considerada como a única na região capaz de resistir a uma interrupção total de operações este ano
Osvaldo Rodríguez Martínez
Prensa Latina
Cidade do Panamá

Tradução:

A imagem da frota completa da Copa Airlines estacionada no aeroporto da capital de Tocumen transmite a sensação de isolamento do mundo exterior, que combina com a frase “fique em casa” para conter o contágio da Covid-19.

Este silêncio dos motores de suas aeronaves tem como antecedente mais próximo à invasão do exército dos Estados Unidos no Panamá, em dezembro de 1989, quando se apossaram do céu as bombas e os paraquedistas.

A inédita concentração de aeronaves da companhia aérea local, além do impacto psicológico, traz implícito um duro golpe econômico para os trabalhadores e a empresa, ao mesmo tempo, em que mostra as consequências da pandemia além da saúde humana.

“Não foi fácil deter a operação da Copa. Mais de 100 aeronaves e 9.500 colaboradores, transportando pessoas que devem chegar a seu destino, (ou alguma) carga valiosa de que alguém necessita. Prestamos um serviço público essencial, mas entendemos a ordem do governo e os apoiamos”, escreveu no Twitter Pedro Heilbron, máxima autoridade da holding.

Em um instantâneo das operações aéreas sobre o Panamá por meio do rastreador de vôos Flight Aware, só dois aviões se moviam no céu do istmo no momento de redigir esta nota, em 25 de março; um, rumo norte e outro, para a fronteira leste, para em alguns minutos liberar o espaço aéreo; cena inimaginável há apenas duas semanas.

A drástica medida – imprescindível para cortar a importação do vírus – golpeou o ponto de conexão aérea mais importante com o sul do continente, e embora a priori tenham decidido que seria apenas por um mês, resgatar a programação das rotas antes estabelecidas poderia tomar tempo, dizem os técnicos.

Primeiro seria preciso ver quantas das companhias aéreas que usavam o chamado Hub das Américas voltarão a sulcar os céus, pois a debacle de algumas delas ameaça com seu desaparecimento, como pressagiou a publicação especializada Bloomberg, que previu a quebra da maioria para o fim de maio.

A companhia aérea de bandeira panamenha é considerada como a única na região capaz de resistir a uma interrupção total de operações este ano

Prensa Latina / Copa Airlines Facebook
Frota completa da Copa Airlines estacionada no aeroporto da capital de Tocumen

Colapso mundial da aviação

Recentemente os dirigentes das principais companhias aéreas estadunidenses pediram aos líderes de ambos partidos no Senado e na Câmara de Representantes de seu país um socorro urgente “em nome dos 750 mil trabalhadores do transporte aéreo”.

Os pedidos de ajuda inundam também os governos europeus, onde a atividade reduziu-se bruscamente a menos da metade, segundo os últimos dados da organização de navegação aérea Eurocontrol, que informou em 19 de março a realização de 12 mil 670 voos em um dia, 44% do número de voos na mesma data em 2019.

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) fez um apelo aos governos da Europa, como parte de uma campanha mundial, para uma intervenção “urgente” dos estados “pelo colapso das viagens aéreas como resultado da crise Covid-19”, afirmou um comunicado dessa organização.

“A crise atual da indústria é muito maior e mais generalizada que a causada pelo 11-S (11 de setembro de 2001, ataque terrorista em Nova York), o SARS (vírus) ou a crise financeira global (2008). As companhias aéreas estão lutando para sobreviver”, disse a IATA, ao mesmo tempo que advertia quanto aos milhões de empregos que poderiam perder-se.

Devido ao cancelamento de viagens e à esperada recessão mundial, a organização calculou que a renda com o transporte de passageiros poderia reduzir-se em 252 bilhões de dólares em 2020, ou seja, 44% abaixo da cifra de 2019.

A Noruega deu o primeiro passo na Europa, ao favorecer com um crédito público de 500 milhões de euros sua companhia Norwegian e outras nacionais, relatou o jornal espanhol El País.

Rumores de que a Alitalia poderia ser comprada pelo Estado também correram pelos meios de comunicação especializados do velho continente.

Se for verdade, levaria a um revés da corrente privatizadora e ratificaria o papel do Estado nas economias, talvez a primeira consequência positiva da crise.

Em meio à debacle, os governos dos Estados Unidos e do Reino Unido mostraram a possibilidade de adquirir ações nas companhias aéreas para recuperá-las, embora essas empresas aspirem a um socorro na base de créditos, redução de tarifas aeroportuárias e isenções fiscais.

O livre mercado clama por ajuda do Estado

Grant Shapps, secretário de Transportes do Reino Unido, prometeu que o governo não permitiria o colapso das companhias aéreas “líderes mundiais, bem administradas e rentáveis”, e disse que seria feito um anúncio iminentemente, mas o jornal britânico Financial Times adiantou possíveis compras de ações pelo Estado.

As empresas aéreas estadunidenses previram a catástrofe e, em meados de março pediram subvenções, empréstimos e isenções fiscais ao governo federal, cujo montante se aproxima dos 50 bilhões de dólares, para recuperar-se da forte queda que sofrem devido à situação sanitária mundial.

O presidente estadunidense, Donald Trump, afirmou que a indústria da aviação é a prioridade número um para a assistência federal e que o Departamento do Tesouro planeja apresentar aos operadores um estímulo no montante solicitado, segundo Bloomberg.

Não obstante, as declarações de 23 de março passado do secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, decepcionaram tais aspirações quando afirmou que o pacote econômico dos Estados Unidos para enfrentar a crise devida à Covid-19 busca favorecer os trabalhadores e não inclui “um plano de socorro” para as companhias aéreas.

Em declarações à cadeia estadunidense Fox, o funcionário esclareceu que essas medidas foram projetadas “para o bem estar das empresas e ajuda a todos os trabalhadores estadunidenses”, respondendo à controvérsia gerada no Congresso com a oposição democrata.

Copa poderia resistir ao golpe financeiro

Em meio à situação global que incide diretamente sobre a economia do Panamá, aonde voam muitas companhias de vários continentes, o prognóstico da agência estadunidense JP Morgan lançou uma luz de esperança, ao atribuir a melhor situação financeira à Copa Airlines.

A avaliação mais otimista sobre a holding foi do analista Rogério Araújo, da UBS, de matriz suíça, que catalogou a companhia aérea de bandeira panamenha como a única na região capaz de resistir a uma interrupção total de operações este ano, considerando sua liquidez e poucas dívidas.

Enquanto isso Bloomberg, em uma análise realizada em 19 de março, concordou que a empresa panamenha está nas melhores condições para resistir à crise, em comparação com seus pares latino-americanos e opinou que a gigante brasileiro Azul também suportaria vários meses de paralisação.

Apesar do silêncio de seus reatores, a Copa lançou no Twitter uma mensagem confiante de esperança:

“Nosso propósito sempre foi conectar famílias, negócios e culturas; encurtar distâncias através dos céus de nosso continente. Hoje ficamos em casa, trabalhando da terra para poder, logo, aproximar-te do teu destino mais uma vez. Nos veremos em breve, América”.

Osvaldo Rodríguez Martínez, Correspondente de Prensa Latina no Panamá.

Prensa Latina, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução:  Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Osvaldo Rodríguez Martínez

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