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Após deixar hospital com Covid, Trump nutre caos político que cultivou nos EUA

Resultado positivo do presidente republicano é o símbolo das consequências de seu próprio fracasso em enfrentar a pandemia
David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Recentemente, Donald Trump foi transferido para o Centro Médico Militar Walter Reed onde permaneceu até segunda-feira (5) para seu tratamento contra o vírus que matou mais de 200 mil neste país e que ele tem minimizado durante meses, informou a Casa Branca e, com isso, nutrindo o clima de caos e incerteza política que o presidente tem cultivado a um mês das eleições nacionais de 3 de novembro.

No entanto, seu não usual silêncio no Twitter e notícias de que lá recebeu uma dose de um “coquetel” experimental de remédios provocou especulação de que sua condição é mais grave do que se informa oficialmente. 

Esta é a ameaça de saúde mais grave de um presidente estadunidense em décadas. Com isso, este ano de múltiplas crises – desde a pandemia, a crise econômica, a explosão de um movimento de protesto social sobre racismo sistêmico, incêndios e inundações ligados à mudança climática e um presidente que se recusou a garantir que reconhecerá os resultados eleitorais e nem uma transição pacífica do poder – tornou-se ainda mais caótico. 

Resultado positivo do presidente republicano é o símbolo das consequências de seu próprio fracasso em enfrentar a pandemia

White House
A notícia é um pesadelo político para um presidente que tem minimizado a pandemia desde fevereiro.

Por ora, a notícia é um pesadelo político para um presidente que tem minimizado a pandemia desde fevereiro, inclusive assegurando que logo desapareceria, que ele tinha tudo sob controle e repetidamente contradizendo seus próprios especialistas em saúde pública. Por certo, poucas horas antes de anunciar que estava contagiado, declarou em uma mensagem pré-gravado para um evento na noite de quinta-feira (1) que “estamos para dar a volta” e deixar a pandemia para trás. 

De fato, havia insistido em realizar comícios massivos sem medidas de sadia distância e máscaras, algo que continuou este mesma semana em Minnesotta e em várias reuniões privadas inclusive na mesma quinta-feira, depois de que soube que Hicks, com quem havia viajado esta semana, tinha se contagiado. 

Durante o primeiro debate presidencial, Trump se burlou de seu opositor democrata Joe Biden por sempre usar máscara. Biden respondeu que seu opositor era “um tonto” por não respeitar as recomendações para evitar a propagação da Covid-19. 

No último dia 2, Biden foi diplomático afirmando que diante dessa notícia “este não pode ser um momento de partido. Tem que ser um momento americano. Temos que nos unir como nação”. Mas recordou que o vírus não desaparecerá sozinho. Não teve que agradecer que a notícia coloca a contenda justamente onde Biden a desejava: sobre a pandemia. 

A presidenta da câmara baixa e a democrata mais poderosa em Washington, Nancy Pelosi foi um pouco mais direta: “entrar em multidões sem máscara e tudo o mais foi um tipo de convite descarado para que isto acontecesse”.  

Agora ninguém sabe mais o que vai acontecer. A 31 dias da eleição, Trump estava perdendo nas pesquisas nacionais e em sondagens de vários estados chaves, e sua campanha depende mais do que a do seu opositor de sua presença física em eventos. 

E ainda mais, seus estrategistas estavam buscando como desviar a atenção do flanco mais débil de seu candidato – o manejo da pandemia – ao buscar gerar temor contra uma “esquerda radical” e desconfiança ao proclamar que esta será uma eleição fraudulenta (se não ganharem). 

Mas agora, após o resultado positivo, o presidente é o símbolo das consequências de seu próprio fracasso em enfrentar a pandemia.  

1º de outubro de 2020 ficará registrado na história como o dia em que os liberais começaram a acreditar em Deus e os conservadores começaram a acreditar na ciência”, foi uma – e uma das mais diplomáticas – das milhares de mensagens e memes que geraram notícias sobre o presidente.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.

Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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