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Após encontro com Merkel, Putin reafirma ao ocidente que teremos que conviver com Talibã

Baradar, líder político do Talibã, desmentiu notícias de que grupo não tinha intenção de manter relações diplomáticas e comerciais com os EUA
MK Bhadrakumar
Nova Delhi

Tradução:

As visitas da chanceler alemã Angela Merkel a Moscou atraíram sempre muita atenção, dado que ela fez papel específico como intermediária entre o Ocidente e a Rússia durante seus 16 anos no poder. 

Mesmo nos pontos de máxima tensão nas relações entre a Europa e a Rússia, Merkel conseguia chegar até Putin e as capitais ocidentais procuravam por ela para moderar as tensões e impedir que chegassem ao ponto de ignição.

Putin também via Merkel como interlocutora insubstituível, um dos líderes de maior autoridade na Europa e que podia ajudar a promover os pontos de vista russos. Assim sendo, os encontros entre eles tornavam-se inevitavelmente ocasiões para coordenarem posições sobre os desafios da política global.

Putin e Merkel priorizaram a questão do Afeganistão quando se encontraram no Kremlin na última sexta-feira, na visita que foi também a despedida da chanceler alemã, que deixa a política no próximo mês. 

Depois das conversas, na conferência conjunta dos dois líderes com a imprensa, Putin falou dos dramáticos desenvolvimentos no Afeganistão. Bem obviamente, falava para o público ocidental. Na avaliação de Putin:

  1. Os Talibãs controlam agora “quase todo o território” do Afeganistão, incluindo Cabul. Essa realidade é crucial para a preservação do estado afegão.
  2. Uma abordagem prescritiva para impor valores das democracias ocidentais é “irresponsável”, dadas as especificidades do Afeganistão, históricas, nacionais ou religiosas. A União Soviética tentou “modernizar” o Afeganistão, mas fracassou e aquela abordagem provou-se “contraproducente”.
  3. O comportamento dos Talibãs dá motivos para se ter esperança. Terminaram as hostilidades armadas, começam a ser restauradas a ordem e a segurança pessoal dos afegãos, e está sendo garantida a segurança das missões diplomáticas. O Ocidente deve registrar esses fatos, e a ONU pode ter de cumprir “papel de coordenação”.
  4. As elites ocidentais começam a se dar conta de que padrões políticos e normas de comportamento não podem ser impostos ao Afeganistão, ignorando a estrutura étnica e religiosa do país e suas tradições históricas. Esperemos que essa compreensão leve à realpolitik.
  5. Os afegãos devem ter “o direito de determinar o próprio futuro” e ainda que alguns desenvolvimentos não sejam exatamente o que mais agrade aos de fora, deve-se dar toda a atenção à construção de boas relações de vizinhança, nas quais os interesses das diferentes partes sejam respeitados.
  6. A Rússia deseja “unir-se” (ing. “team up”) aos EUA e países europeus para trabalhar empenhadamente para normalizar a situação afegã e estabelecer boas relações de vizinhança.
Baradar, líder político do Talibã, desmentiu notícias de que grupo não tinha intenção de manter relações diplomáticas e comerciais com os EUA

Wikicommons
Mulá Abdul Ghani Baradar, é o atual vice-emir do Emirado Islâmico do Afeganistão

Putin recusou-se a discutir a derrota dos EUA naquela guerra. Disse que “concentrarmo-nos nessa questão por tempo demais. Enfatizar esse fracasso, não opera a favor de nossos interesses.” 

Putin soou cautelosamente otimista na questão de a opinião ocidental estar tendendo a aceitar negociações com o Emirado Islâmico governado pelos Talibãs. Provavelmente, a Rússia está sentindo que os contatos diretos EUA-Talibã começam a manifestar espírito mais construtivo.

Fato é que os longos comentários do presidente Biden no sábado sobre o Afeganistão não incluíram condenações ao Talibã. Biden observou que “conforme continuamos a trabalhar a logística da evacuação, estamos em constante contato com os Talibãs, trabalhando para garantir passagem segura para os civis até o aeroporto.”

Biden disse que “potencial ameaça terrorista no ou em torno do aeroporto, incluindo de afiliados do ISIS no Afeganistão” continuam a preocupar, e destacou que ISIS é “inimigo jurado dos Talibãs.”

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Biden repetiu: “Estamos em permanente contato com a liderança Talibã em campo — em Cabul, e também com a liderança Talibã em Doha, e estamos coordenando nossas ações. Por isso conseguimos — por exemplo, foi assim que conseguimos retirar nosso pessoal diplomático.

“Assim também ajudamos a retirar o pessoal diplomático francês, que estava na embaixada da França… Tanto quanto sabemos, nos pontos de revista dos Talibãs — eles estão deixando passar todos os portadores de passaportes norte-americanos (…) Temos um acordo pelo qual eles [os Talibãs] permitirão a passagem pelos pontos de revista que eles controlam. Estão deixando passar norte-americanos.”

Hoje o líder político dos Talibãs, Mulá Abdul Ghani Baradar acenou com abertura para um relacionamento com os EUA. Baradar tuitou: “O Emirado Islâmico do Afeganistão quer laços diplomáticos e comerciais com todos os países, particularmente com os EUA.” cBaradar desmentiu notícias que circularam na mídia comercial, de que os Talibãs não tinham intenção de manter relações diplomáticas e comerciais com os EUA. “Jamais falamos de romper relações comerciais com país algum. Rumores sobre esse assunto e essas notícias não passam de propaganda. Nada disso é verdade” — disse Baradar.

Significativamente, Biden conversou no sábado, por telefone, com o Emir Tamim bin Hamad Al Thani do Qatar. Release da Casa Branca dizia que Biden reafirmou “a duradoura amizade” entre os dois países” e, dentre outros itens, “agradeceu ao Emir pelo importante papel que o Qatar desempenha há longo tempo para facilitar conversações intra-afegãs. Os dois líderes destacaram a importância de coordenação próxima e continuada sobre desenvolvimentos no Afeganistão.”

A relação de trabalho no Aeroporto de Cabul já está, de fato, gerando massa crítica para contatos mais amplos e mais aprofundados entre EUA e os Talibã. Nisso, o Qatar tem papel-chave a desempenhar.*******


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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