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Após tentativa de golpe, Trump pode ser afastado 14 dias antes da posse de Biden

Alguns integrantes do gabinete do republicano discutiram a invocação da 25ª Emenda, reportaram ABC News e CNN
David Brooks
La Jornada
Caldas Novas

Tradução:

Em uma tentativa de golpe político, milhares de ultradireitistas instigados pelo presidente Donald Trump, invadiram o Capitólio obrigando a interrupção do processo constitucional da certificação da eleição presidencial, gerando pânico, ordens de evacuação inclusive do próprio vice-presidente, distribuição de máscaras antigás a legisladores com ordens de que se mantenham encerrados em seus escritórios enquanto o comandante em chefe manteve silencia diante do fato sem precedentes na história deste país. 

Esta noite, depois de várias horas de caos e temor diante do que diversos políticos e analistas chamaram de tentativa de “golpe”, uma “insurreição” e a colheita do que foi cultivado por Trump e seus seguidores com seus ataques contra o processo democrático durante o ciclo eleitoral, os legisladores reiniciaram o processo de certificação do voto entregado por cada estado ao Colégio Eleitoral, que culminou com a ratificação do triunfo do democrata Jose Biden como presidente e Kamala Harris como vice-presidenta.

Mas o ocorrido horas antes sacudiu em seu centro a estrutura política estadunidense. O assalto começou por volta das 14 horas: os fanáticos do presidente derrubaram barreiras de segurança e irromperam na sede do poder legislativo, sobrepassando as forças da polícia do Capitólio – fato que provocou suspeitas de porque não havia mais forças de segurança presentes – quebraram janelas, ingressaram no centro do edifício, às grandes salas de ambas as câmaras legislativas, passeando, gritando, enfrentando policiais sem respaldo e provocando pânico.  

Várias bandeiras da confederação – símbolo dos estados sulistas pró escravidão do século 19 – tremulavam pelos corredores do Capitólio – algo que nunca foi possível nem durante a Guerra Civil.   

Houve cenas da polícia federal do Capitólio sacando pistolas e portando refles, instruções a legisladores e suas equipes de ter à mão máscaras antigás, afastar-se de janelas e portas e estar preparados para se esconder embaixo de suas escrivaninhas, versões de pacotes suspeitos e ameaças de bomba, evacuações de edifícios legislativos na zona geraram pânico e incredulidade. Uma e outra vez políticos e jornalistas repetiram “nunca vimos algo assim”. Para o legislador democrata Jim McGovern, “isto é um ataque terrorista contra nossa democracia”.

Os assaltantes ingressaram nas salas do Senado e da câmara baixa, um entrou no gabinete da presidenta de câmara, Nancy Pelosi, outro sentou-se na cadeira onde apenas algumas horas anates presidia Pence. Houve a preocupação por “pacotes suspeitos” e foram confirmados dois artefatos explosivos dentro do Capitólio.  

Uma mulher ainda sem identificar foi ferida de bala por policiais do Capitólio e mais tarde morreu em um hospital e foram informadas outras três mortes por “emergências médicas” e reportaram vários policiais feridos e mais de 50 detenções. 

Segundo historiadores, o Capitólio não havia sido assaltado desde 1814 durante a guerra contra a Grã Bretanha.  

Alguns integrantes do gabinete do republicano discutiram a invocação da 25ª Emenda, reportaram ABC News e CNN

White House
Twitter, Facebook e Instagram bloqueiam contas de Trump temporariamente por risco de violência.

A prefeita de Washington Muriel Bowser declarou um toque de queda absoluto na capital a partir das 18 horas -nunca antes imposto a esse extremo. Embora tenha sido anunciado que se havia ordenado e que a Guarda Nacional estava a caminho – Trump inicialmente recusou a aprovar a solicitação para ativá-la- e forças da política estadual de Maryland e da Virginia; a ausência de forças de segurança assombrou os observadores ao longo da tarde. 

Umas quatro horas depois, as autoridades declararam que o Capitólio estava de novo sob seu controle, mas manifestantes se mantinha na periferia apesar do início do toque de queda.  

Durante as primeiras horas do assalto Trump guardou silêncio, só tendo enviado um tuíte pelo qual solicitou aos seus fanáticos respeitar a polícia, mas não se retirar do Capitólio. 

O presidente eleito Biden declarou, em uma mensagem ao país, que “neste momentos, nossa democracia está sob um assalta sem precedentes…um assalto sobre os representantes do povo… um assalto sobre o império da lei”. Agregou que “isto não é dissidência, é desordem, é caos…tem que acabar agora”. Exigiu a Trump que de imediato “demande um fim a este sítio”. 

Minutos depois, às 16:22, Trump apareceu em uma mensagem de vídeo gravada onde reiterou que foi uma “eleição fraudulenta” antes de solicitar aos manifestantes que “temos que ter paz, lei e ordem…” e lhes pediu: “têm que ir para casa agora”. Despediu-se afirmando que “gostamos de vocês. São muito especiais…Entendo como se sentem”. 

E mais tarde, em um tuíte que foi apagado pouco depois, o presidente justificou o ocorrido aos seus seguidores explicando que estas são “as coisas e eventos e ocorrem quando uma vitória sagrada de uma eleição esmagadora é… arrancada a grandes patriotas que foram tão maltratados durante tanto tempo. Vão para suas casas em amor e paz. Recordem este dia para sempre”. 

Por certo, em parte por estas mensagens, o Twitter por primeiro vez suspendeu a conta de Trump por incitar violência. Mais tarde, Facebook e Instagram suspenderam temporariamente as contas do presidente por razões similares. 

Trump declarou a milhares de seus fanáticos que responderam à sua convocatória esta manhã que “jamais cederemos a eleição” e os convidou a acudir ao Capitólio para apoiar os legisladores republicanos que estavam buscando descarrilar a certificação do voto do Colégio Eleitoral. Ainda mais, declarou que esperava que seu vice-presidente Mike Pence, que presidiria a sessão conjunta de ambas as câmaras do Congresso, frearia o processo. 

Às 13 horas, dentro da Capitólio, iniciou-se a sessão para ratificar os resultados do voto do Colégio Eleitoral que deu a vitória a Biden. Nesse momento Pence já havia comunicado ao presidente, e deixou constância por escrito, que se apegaria estritamente ao seu papel constitucional e não podia unilateralmente suspender ou descarrilar o processo.  

Aparentemente isto enfureceu Trump e no início do assalto ao Capitólio por suas hostes, o magnata decidiu atacar seu próprio vice-presidente enquanto este era “evacuado” a um “lugar seguro” ao falhar a segurança. “pence não teve a valentia para fazer o que se tinha que fazer para proteger nosso país e nossa Constituição”, acusou por tuíte. 

O processo de ratificação do coto se iniciou com a leitura em ordem alfabética dos resultados oficiais de cada estado em termos de eleitores outorgados. Quando se chegou ao Arizona, como se havia anunciado, legisladores republicanos expressaram sua oposição a aceitar esse resultados com o qual, de acordo com as regras, foi suspensa a sessão conjunta para que ambas as câmaras sustentassem um debate e votassem sobre a recusa interposta em suas respectivas salas. Foi pouco depois disse quando soou o alarme do assalto ao Capitólio, e o processo em curso para ratificar a eleição presidencial foi interrompido. 

Os legisladores republicanos -mais de 100 deputados e uma dúzia de senadores – que haviam se comprometido a apoiar a Trump para questionar os resultados em pelo menos três estados chaves em que perdeu, provocaram uma severa excisão dentro do Partido Republicano que incluiu um enfrentamento com o líder de sua maioria no Senado, Mitch McConnell, o qual se havia oposto à manobra e reconheceu Biden como presidente eleito. 

McConnell declarou ao plenário no início da sessão conjunta e pouco antes de que o assalto suspendesse o processo que “servi 36 anos no Senado – este será o voto mais importante que jamais emiti… Os eleitores, os tribunais e os estados se declararam. Se revertermos isso, nossa república será prejudicada para sempre” e “nossa democracia entraria em um espiral de morte”. 

Não sabia que poucos minutos depois, seria testemunho a vítima de um assalto física contra a instituição democrática da qual é líder, graças ao presidente que até há poucos dias ele respaldou, facilitou a implementação de sua agenda até assegurou que ficasse impuna ao concluir seu julgamento político. 

O Congresso regressa

Com discursos autoelogiando a “resiliência” e sua “sagrada” instituição, agradecimento à polícia e condenações contra o assalto, o Senado reiniciou seu sessão às 20 horas, e a câmara baixa uma hora depois; foi notável que muito menos legisladores estavam dispostos a apresentar objeções à contagem de votos do Colégio Eleitoral. 

Pence, diante do plenário do Senado, convidou a retomar a tarefa da certificação e afirmou que “hoje foi um dia sombrio na história do Capitólio dos Estados Unidos”, mas prometeu que “o mundo mais uma vez testemunhará a resiliência e fortaleza de nossa democracia”. 

O líder democrata Charles Schumer denunciou o que chamou de “terroristas domésticos” e acusou que “esta violência é em boa parte responsabilidade” de Trump, “sua vergonha para sempre”. A senadora democrata Tammy Duckworth, veterana militar que perdeu ambas as pernas na guerra no Iraque, disse que “dediquei toda a minha vida adulta defendendo nossa democracia, mas nunca pensei que seria necessário defendê-la de uma tentativa de derrocada violenta no edifício do Capitólio de nossa própria nação”. 

Na câmara baixa, a líder democrata Nancy Pelosi iniciou a sessão denunciando a “profanação deste, nossa templo da democracia” e afirmou que “apesar das ações vergonhosas de hoje”, será “demonstrado uma vez mais o traslada pacífico do poder de um presidente ao próximo”.

O Congresso continuou certificando os resultados do voto de cada estado, com um par de debates e votos sobre os resultados em dois estados que se estenderam, mas não modificaram o final já prognosticado, e ninguém duvidava que tudo culminaria com a ratificação do triunfo de Biden e Harris.  

Diante dos acontecimentos do dia, um coro crescente de legisladores, ex-funcionários e líderes empresariais começaram a solicitar a destituição do presidente sob a 25ª Emenda da Constituição que permite ao vice-presidente e o gabinete remover o mandatário se se mostrar incapaz de exercer suas responsabilidades. Alguns integrantes do gabinete de Trump discutiram a invocação da 25ª Emenda, reportaram ABC News e CNN. 

Também renunciaram alguns funcionários do governo de Trump e se esperam mais renúncias como resultado da intentona de quarta-feira. 

E no comício dos trumpistas no início do dia foi tocada uma trilha gravada que incluiu a gravação de Celine Dion com o tema do filme Titanic.

Faltam ainda 14 dias de sua presidência.  


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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