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Após velório de Maradona, milhares levantaram “altares de amor” para homenagear ídolo

Argentinos reclamaram porque o velório não continuou um ou dois dias mais, porque haviam se mobilizado de longe para despedir-se
Stella Calloni
Diálogos do Sul
Buenos Aires

Tradução:

Como sempre sucedeu em sua vida, a dolorosa despedida do “nosso eterno Diego Maradona” estevo rodeada de tumultos e incidentes e algumas desesperadas ações que puseram em grave perigo , por momentos, a segurança da Casa Rosada (de governo) onde foram velados os restos do maior ídolo do futebol argentino e do mundo que hoje o chora. 

Aconteceu quando um grupo de alguns típicos torcedores de futebol, acostumados à violência nos jogos, encabeçaram uma ação rápida de várias centenas de seguidores que haviam permanecido durante toda a noite nos arredores da Praça de Maio para conseguir estar entre os primeiros a desfilar ante o féretro para despedir Maradona, e derrubaram os obstáculos e depois saltaram sobre as grades que rodeiam a sede governamental ingressando ao interior. 

Ali estavam junto aos familiares de Maradona, o presidente Alberto Fernández, a vice-presidenta Cristina Fernández de Kirchner, funcionários, e outros dirigentes de futebol, criando um momento de extrema tensão, uma situação difícil que também paralisou a todos. 

Pouco depois, e enquanto os policiais que custodiavam o interior da Casa Rosada tentavam controlar o grupo que ocupava o pátio central e alguns corredores dos escritórios, decidiu-se trasladar o ataúde coberto com uma bandeira  argentina e sobre o qual o presidente Fernández também colocou lenços brancos das Mães e Avós da Praça de Maio, junto com flores, camisetas e outras lembranças que deixaram os que puderam chegar a despedi-lo, e o levaram ao Salão dos Povos Originários. Também se trasladaram a um lugar mais seguro os altos funcionários e familiares. 

Membros da segurança atiraram gás de pimenta para dissuadir os que tentavam continuar saltando as grades e os que estavam no interior. Eram cenas alarmantes. A contenção era difícil dentro da Casa Rosada, já que até esse momento, as multidões que estavam não só na Praça de Maio, mas nas Avenidas de Maio e 9 de Julho, tentando chegar ao velório haviam permanecido cantando e gritando consignas, não só de futebol, mas outras que demonstravam o profundo amor dos seguidores do ídolo. 

Argentinos reclamaram porque o velório não continuou um ou dois dias mais, porque haviam se mobilizado de longe para despedir-se

Reprodução: Twitter / @futtmais
Homenagens para Maradona em Nápoles, no sul da Itália, onde ele jogou pelo Napoli entre 1984 e 1991.

Repentinamente chegaram a essas avenidas policiais da Cidade de Buenos Aires, em motos e armados para a repressão e agiram sem nenhuma necessidade com extrema e injustificada violência, disparando balas de borracha, gases lacrimogênios e outros. Também disparos dissuasivos que soavam no lugar e mais grave ainda, policiais sem farda, que foram parte da repressão, mas também geraram mais distúrbios. Isto evidenciou as misérias de uma oposição sem regras. 

O sonho de milhares que queriam simplesmente despedir-se de Diego era cortado de repente. Também repórteres e fotógrafos foram reprimidos e alguns ficaram feridos. As imagens surpreenderam a todos e gritos do povo reclamando tranquilidade às forças e acusando o opositor chefe de governo da cidade, o direitista Horacio Rodríguez Larreta, por esta situação, se elevavam sobre a sirenes. 

“Viemos despedir nosso Diego como quando o fizemos com nosso (ex-presidente) Néstor Kirchner (em 27 de outubro de 2010) e nos estão reprimindo violentamente”, denunciavam os mais jovens a gritos, entre uma multidão que desafiou a pandemia, as restrições e cuidados e se manifestou no melhor estilo futebolístico, com canções e prantos, seu grande reconhecimento ao jogador, ao qual sentiam como como “um companheiro de luta”.

Tudo ficou filmado, os feridos pelas balas de borracha, os detidos, inclusive os agentes encobertos que golpearam os jornalistas. Foram momentos de extrema tensão e de assombro e indignação. 

Inédito momento, que começou a ceder quando o ministro do Interior, Eduardo “Wado” de Pedro, exigiu  “a Larreta e Diego Santilli (chefe e vice chefe de governo da Cidade de Buenos Aires) que parem já com essa loucura provocada pela Polícia da Cidade. Esta homenagem popular não pode terminar em repressão e corridas àqueles que vêm despedir-se de Maradona”. 

Na Subsecretaria de Intervenção Federal do Ministério de Segurança se explicou que “de nenhuma maneira teríamos dado indicações de despejar ou reprimir; só agora nos comunicamos com as autoridades da Cidade para solicitar-lhe que não se produzam mais desmandos”.  

No meio de toda esta série de cenas dantescas, no funeral massivo do maior jogador de todos os tempos da Argentina e do mundo, introduziu-se, lamentavelmente, a cunha de uma rara campanha política opositora. À sua maneira essa oposição à qual Maradona criticou em termos fortes como sabia fazer, teve sua obscura participação no funeral, ocupando o lugar que lhe corresponde nesta cena lamentável. 

As imagens foram dolorosas, mas quando finalmente o veículo que transportava o féretro e as flores saiu da Casa Rosada, a multidão havia se acalmado e agitava a bandeira argentina, e também havia italianas, wipalas e grandes fotografias do Maradona jovem, o que fez delirar de alegria este povo e especialmente os mais humildes, aos que ele entendia sem necessidade de palavras. 

Houve uma frase unitária e repetida milhares de vezes, “o amamos porque nos deu alegrias na infância, na juventude e na velhice, para muitos foi a única grande alegria de suas vidas difíceis”. 

Analisando a situação ficou uma preocupação e seguramente haverá decisões nos próximos dias. Houve reclamações das manifestantes à família de Maradona e sua decisão de adiantar o enterro o transladar o féretro à Bela Vista, município de São Miguel, a 35 quilômetros desta capital na província de Buenos Aires, onde estão os restos dos pais de Diego, que foi sepultado junto à tumba de seus pais. 

Milhares reclamaram porque o velório não continuou um ou dois dias mais, porque haviam se mobilizado de longe para despedir-se de quem segundo a maioria “lhes havia dado os maiores momentos de alegria” em suas difíceis e desoladas vidas. 

Um dos cartazes que se salvou da repressão tinha escrito uma frase de Maradona: “eu cresci em um bairro privado… privado de luz, de água, de telefone”. 

À noite desta quinta-feira continuavam nas ruas centenas de admiradores que persistem em sua despedida ao redor da Praça de Maio, mas também em diferentes lugares e bairros onde se levantam os chamados “altares do amor”. Em um deles estão pendurados recortes de todos os diários do mundo. 


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Stella Calloni Atuou como correspondente de guerra em países da América Central e África do Norte. Já entrevistou diferentes chefes de Estado, como Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales, Luiz Inácio Lula da Silva, Rafael Correa, Daniel Ortega, Salvador Allende, etc.

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