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Ara San Juan 8: O povo quer saber

Stella Calloni

Tradução:

“O trágico desaparecimento do submarino ARA San Juan coloca dois aspectos chaves: um, a busca contra o tempo quando existe a mínima possibilidade de uma “sobrevivência extrema” da tripulação e saber o que é que aconteceu de verdade”.

Stella Calloni*

 
stellacalloniO que ninguém sabia, salvo alguns especialistas que se dedicam a tema da militarização e acompanham o caminho das manobras da potência hegemônica e seus aliados na região, entre os quais se encontra Israel (sempre o convidado de pedra que ninguém menciona), é que desde o dia 25 de outubro chegaram a Ushuaia cientistas e militares dos Estados Unidos, e desde 31 de outubro estavam no lugar uma nave e aviões da NASA.
Isto veio a público quando ficamos sabendo que foi um avião da Nasa que partiu de Ushuaia nos primeiros voos de observação da zona onde teria desaparecido o submarino ARA San Juan, supostamente a 30 milhas de distância de onde havia partido. Também se incorporou um avião estadunidense, nada menos que da USS Navy, neste caso da IV Frota rediviva para voltar a vigiar o enorme quintal que para os Estados Unidos é a América Latina. A presença desse navio em Ushuaia sem autorização do Congresso é ilegal.

O Ara San Juan e seus 44 tripoulantes.
O Ara San Juan e seus 44 tripoulantes.

O governo de Mauricio Macri conseguiu obter uma sanção no Senado para que pudessem entrar tropas estrangeiras e navios e realizar as manobras Cormorán no fim de outubro passado e nos primeiros dias de novembro, utilizando as bases navais argentinas, como a de triste lembrança Almirante Zar, em Trelew, e outras em Bahía Blanca, Comodoro Rivadavia e Ushuaia.
No entanto, isso ficou truncado ao não ter sido debatido pelos deputados, já que era um tema muito sensível, destacando que um deputado de Mendoza, Guillermo Carmona, preparou um relatório sobre este tema tão caro para a soberania nacional.
O que ninguém diz é que no dia 31 de outubro, coincidindo com esta parafernália de navios e aviões na zona, a ministra de Segurança, Patricia Bullrich firmou em um ato importante em Ushuaia, um acordo já acertado durante 2016 com a governadora da Tierra del Fuego, Rosana Bertone, para a instalação do Centro de Inteligência Criminal Regional (CICRE) nesta capital. Na realidade, no primeiro acordo, firmado no ano passado, se chamava Centro de Inteligência Regional, como foi publicado nesta época pela agência oficial Télam, notícia que não apareceu em nenhum jornal.
O agregado “criminal” trata de evitar suspeitas. É claro que Ushuaia aparece como a sede central, porém haverá “escritórios” do CICRE em todas as províncias, algumas já inauguradas em silêncio por Bullrich. Esse acordo forma parte do plano de regionalização de inteligência criminal do Ministério de Segurança da Nação, supostamente para desarticular organizações criminosas, inclusive o combate ao terrorismo, e outras com as consequências graves que viveremos.
Ara-San-Juan-800x445Será por isso que foram fechadas tantas indústrias e se despovoou a Tierra del Fuego? Quem serão os assessores, seguramente estrangeiros? O certo é que em 31 de outubro de 2017 houve muitos funcionários governamentais na ilha. Não viram a chegada dos navios da NASA? Não viram o movimento incomum na região?
Será que o CICRE é o primeiro passo para a base militar projetada pelos Estados Unidos, e por isso vários meios do poder hegemônico pedem – como as rãs pedem a chuva – a ajuda norte-americana, tão “importante” e humanitária, como disse o presidente Donald Trump, em relação à busca do submarino, não sem certo desdém? Por isso é que as redes estão invadidas de suposições e denúncias de que se tratou de um torpedo ou um “acidente” em meio a algumas manobras. Para muitos é impossível não associar isto com o tema Malvinas.
Disseram que o submarino ARA San Juan informou sobre um problema de baterias no mesmo dia do seu desaparecimento. Se a dificuldade foi informada, por que não se fez com que regressasse ao lugar de onde saiu? Já adiantados os dias, e com a imagem desoladora dos familiares dos tripulantes, a Comissão para o Controle Integral e de Provas Nucleares, de Viena, na Áustria, informou que tinha sido detectada uma explosão mediante dois sensores situados nos oceanos Índico e Atlântico Sul, o que foi comunicado ao governo pelo embaixador argentino naquele país apenas oito dias depois de iniciada a busca. Os Estados Unidos asseguraram que sabiam disso. Quando souberam e quando comunicaram?
Ara-San-Juan-8Além do mais, deverão responder se estavam sendo realizadas as manobras Cormorán e porque vieram tantos Galaxy, que transportam enormes equipamentos de guerra, além dos aviões de outro tipo que trouxeram material para a busca. A pergunta é se o que transportaram alguns aviões serviria para a instalação da base militar negociada desde o ano passado pelo Ministério da Defesa.
A desconfiança está em todos os setores sociais. Se a isso se agrega a militarização desse riquíssimo território despovoado da Patagônia, cujo mapa nos revela que suas maiores extensões correspondem a estrangeiros, poderosos capitais britânicos, estadunidenses e israelitas e, em segundo lugar, aos testas de ferro e aos grandes proprietário de terra da velha oligarquia beneficiada pela repartição corrupta da terra roubada aos povos originários: mapuches, tehuelches, patagones e outros na genocida campanha do Deserto.
Agora estamos vendo o segundo genocídio dos sobreviventes e o que se está aplicando aos mapuches é uma guerra contra insurgente, em que as forças de segurança estão se preparando para a repressão contra todo o nosso povo, que está sendo encurralado por um governo cujos funcionários, desde o presidente e todos os ministros, pertencem a fundações e ONGs que dependem das fundações mães criadas pela CIA. Estas, como a NED, USAID e outras invadiram silenciosamente nossos países, o que está documentado, como também o avanço dia após dia da militarização regional no projeto de recolonização de Nossa América, para exercer o controle definitivo dos enormes recursos naturais e reservas. Os assassinatos de Santiago Maldonado, de Rafael Nahuel, são nada mais e nada menos, que a eliminação da primeira e pequena muralha da resistência indígena, apenas com paus e pedras.
A woman looks at signs in support of the missing crew members of the ARA San Juan submarine in Mar del PlataOs que estão entregando a pátria falam de Constituição e leis e mentem sem nenhum pudor, amparados pelos semeadores de ódio de seus próprios meios de comunicação, jornalistas que já deixaram de sê-lo, para serem operadores sinistros, como qualquer mercenário, dos chamados exércitos privados.
O certo é que hoje diferentes analistas denunciam a instalação de bases em Comodoro Rivadavia, camuflados como Comandos de Resgate, mas que na realidade são unidades de ataque e ocupação que estão entrando com aviões de grande porte como se comprovou recentemente. O Congresso nunca autorizou essa ocupação, a qual tem que se explicar porque se trata do destino soberano e independente do país. Palavras que os gerentes não entendem.
 
*Jornalista argentina colaboradora de Diálogos do Sul, é correspondente do diário La Jornada de México. Autora de “Los años del Cóndor”.
 


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Stella Calloni Atuou como correspondente de guerra em países da América Central e África do Norte. Já entrevistou diferentes chefes de Estado, como Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales, Luiz Inácio Lula da Silva, Rafael Correa, Daniel Ortega, Salvador Allende, etc.

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