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Argentina: Atilio Borón aposta no “enigma” Sergio Massa e crava: “Milei perde a eleição”

Em entrevista exclusiva, sociólogo analisa perfis dos candidatos, identifica erros das esquerdas e projeta um cenário futuro “encorajador”
Vanessa Martina-Silva
Diálogos do Sul
Buenos Aires

Tradução:

Javier Milei tem “personalidade fascista”, aparenta desequilíbrio e representa a resposta da extrema-direita “à profunda crise do capitalismo”, avalia o sociólogo argentino Atilio Borón em entrevista exclusiva. Já Sergio Massa, “é um político inteligente, muito capaz, que vai se acomodando conforme a situação, mas sabe para que lado deve ir porque tem uma grande ambição de poder”.

Os argentinos irão às urnas, neste domingo (19), para escolher qual desses dois personagens vai governar a Argentina pelos próximos quatro anos. Embora a média das pesquisas eleitorais do país aponte para um cenário de empate técnico ora com um ora com outro à frente, a avaliação de Borón, um dos mais reconhecidos analistas políticos da América Latina, é de que “Milei não ganha”.

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A análise é baseada em um cálculo complexo envolvendo a transferência de votos dos eleitores que optaram por outros candidatos no primeiro turno da disputa. Em primeiro lugar, talvez o mais fácil, temos os 7% de Juan Schiaretti, um peronista de direita, e os de quem optou por Myriam Bregman, candidata da Frente de Esquerda, com 2,7%. 

O mais desafiador para Massa é conquistar os votos de Patrícia Bullrich, da coalizão Juntos pela Mudança, que ficou em terceiro lugar, com 23% dos votantes. “Eu não acredito que as pessoas que sofreram o escárnio das críticas, tão brutais, de Milei contra sua candidata vão votar nele”, vaticina o sociólogo.

Para saber mais sobre a disputa eleitoral no país, confira nossa editoria especial: Eleições na Argentina.

Com base nessa análise, Boron é categórico para resolver o enigma que perpassa a sociedade argentina: “para além do que dizem as pesquisas, para mim seria uma surpresa enorme se Milei ganhasse. Enorme! E uma surpresa enorme também se Massa ganhasse com uma pequena porcentagem, como aconteceu com Lula, no Brasil”. O mandatário brasileiro foi eleito para seu terceiro mandato, em 2022, com uma diferença de menos de 2% sobre Jair Bolsonaro.  

No centro dessa batalha política argentina está a disputa por um Estado de bem-estar social, ou seja, que esteja presente e que atue na melhoria da vida da população, destinando os impostos da cidadania para o fortalecimento dos serviços públicos, como defende Massa. De outro, está a privatização total, a supressão de impostos e a redução da presença estatal ao mínimo, como propõe o anarcocapitalismo de Milei.

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Assista na TV Diálogos do Sul

Atilio Borón é cientista político e sociólogo argentino com doutorado em Ciência Política pela Universidade de Harvard. Atualmente é diretor do Centro de Complementação Curricular da Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade Nacional de Avellaneda. Também é professor consultor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires e pesquisador do Instituto de Estudos da América Latina e do Caribe (IEALC). É Doutor Honoris Causa das Universidades Nacionais de Cuyo, Salta, Córdoba e Misiones, na Argentina e da Universidad Nacional Experimental Rafael María Baralt de Cabimas de Zulia, Venezuela. Além disso, é vencedor do Prêmio Internacional José Martí da UNESCO (2009) e do Prêmio Honorário de Ensaio Ezequiel Martínez Estrada da Casa de las Américas, de Cuba (2004).


Confira a entrevista:

Vanessa Martina-Silva: Antes de mais nada, eu gostaria de entender como o senhor classificaria Javier Milei: libertário, liberal, extrema-direita, fascista…?

Atílio Borón: Isso é muito difícil. Eu diria que ele tem traços de personalidade fascista, mas o fascismo é algo complexo. Milei representa uma resposta da extrema-direita para a profunda crise do capitalismo. E os fascismos eram um fenômeno totalmente oposto a isso. Os fascismos eram antineoliberais, antimercados — estavam a serviço da classe dominante, mas utilizando o poder do Estado, não o deixando à mercê da dinâmica dos mercados.

Digo que Milei é um personagem profundamente antidemocrático, sem dúvida alguma, mas que não pode ser apenas rotulado como fascista, pois essa definição deixaria de lado muitas outras características de sua personalidade e de seu projeto político que vão além do que conhecemos como fascismo.

E quanto ao anarcocapitalismo?

Essa é uma corrente que vem de certos setores muito minoritários do espectro ideológico da direita norte-americana. Basicamente, é a ideia de um capitalismo totalmente centrado na dinâmica dos mercados e sem qualquer tipo de mediação estatal ou corporativa, que se opõe radicalmente à formação de sujeitos coletivos para promover certos interesses.

Tudo isso é visto como uma aberração em termos do funcionamento do capitalismo e basicamente nada mais do que isso. São autores marginais.

Eu estudei nos Estados Unidos, tenho diploma em ciência política em Harvard e esses autores praticamente não eram estudados porque eram versões totalmente marginais, sectárias, uma seita marginal de extrema-direita que não tinha nenhuma influência efetiva nos meios intelectuais.

Acredito que em nenhum lugar do mundo houve um governo anarcocapitalista. Ou seja, qual é efetivamente a possibilidade de isso existir? 

Não, não existe. Por isso é uma construção ideológica, retórica, demagógica que precisa ser compreendida.

Milei é muito demagógico. Eu diria que tem sido muito bem-sucedido com o apoio, é claro, dos grandes meios de comunicação do país, que até hoje o apoiam, porque preferem Milei a qualquer outro candidato que possa surgir, de alguma forma, do movimento nacional e popular, ou do peronismo. Então, diante disso, se aproveitam desse personagem. Entre os anos de 2021 e 22, ele foi a personalidade pública que acumulou mais minutos na televisão argentina, de longe.

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Porque ele estava muito ligado a um dos canais de televisão, porque era consultor de um dos homens mais ricos do país e porque é uma figura pitoresca, atraente, excêntrica, e isso desperta muito interesse do público. Quando as pessoas ficam mudando de canal na televisão e veem esse personagem assim, vociferando  e fazendo todo tipo de gestos exorbitantes, chama muito a atenção.

De qualquer forma, esse anarcocapitalismo que ele propõe coloca o papel do Estado na vida dos argentinos como algo central. Então eu gostaria de entender qual é o tamanho real o Estado argentino. Ou seja, quais os direitos que o neoliberalismo não conseguiu retirar?

Houve uma verdadeira cruzada para eliminar esses direitos, mas esbarraram em uma forte resistência social. A Argentina é o país latino-americano com o movimento sindical mais poderoso da região, com a exceção de Cuba e Venezuela, que têm outro modelo. É um país com uma tradição de mobilização popular muito forte, que vem de mais de um século. E mesmo que tenham tentado eliminar esses direitos, de fato houve algum corte, mas fundamentalmente estamos falando de um país onde 93% da população idosa, acima de 65, 70 anos, recebem aposentadoria ou pensão.

O leque de benefícios sociais do Estado argentino é impressionante. E isso não está em discussão. Ainda temos aqui universidades públicas, gratuitas e de qualidade; temos um sistema de saúde pública que mostrou sua eficácia no combate à pandemia; temos um programa de subsídios para o transporte muito forte… Isso faz diferença na vida, principalmente para os setores populares que viajam de transporte público. O transporte é muito barato na Argentina. Há também subsídio para a eletricidade, temos leis de promoção industrial, em regiões, por exemplo, no Sul do país. Ou seja, quando você começa a ver o leque de benefícios sociais, é algo muito significativo.

Claro, isso exige um gasto do Estado, um investimento social muito grande. Um dos problemas que temos e que ainda não foi resolvido neste país é que os setores de maiores rendimentos, as grandes fortunas, paguem os impostos que deveriam pagar. Os mecanismos de evasão fiscal e de elusão, que são duas coisas distintas, mas complementares, juntamente com a existência de paraísos fiscais, fazem com que o Estado, às vezes, tenha problemas para captar os recursos de que precisa por meio do regime tributário.

Então, este é o Estado que Milei quer destruir, pensando que as pessoas vão ficar de braços cruzados e, na verdade, elas não vão. Se ele ganhasse a presidência, a resposta dessas pessoas seria realmente muito forte e seria muito difícil para esse personagem governar.

Algo que me parece acontecer, não apenas na Argentina, mas em outras partes da América Latina, é que esse Estado forte, protetor, esse Estado de bem-estar social, na maioria das vezes, não chega à periferia, não chega aos mais pobres. E esses dias viralizou aqui o vídeo de um garoto que não tinha saneamento básico, que não tinha luz e água encanada na região da Grande Buenos Aires. Ele disse: “olha, o que eu vou perder se eu não tenho nada? Que direitos eles [Milei] vão me tirar?”. Ou seja, o que dizer para essas pessoas que acreditam que o Estado não as protege?

Bem, primeiro, a oferta de água encanada, de saneamento básico, etc. não se limita apenas à cidade de Buenos Aires. Esses serviços elementares estão disponíveis em grande parte do país. Claro, existem alguns bolsões onde não estão disponíveis, ninguém está a salvo disso. Aqui há direitos trabalhistas muito fortes. Aqui você não pode demitir uma pessoa sem pagar uma indenização. Isso que ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos, onde eles dizem “you are fired” [você está demitido] e pronto, aqui é impensável, não pode acontecer. Há também uma contribuição por parte dos empresários aos sindicatos que não pode ser suspensa de forma alguma, etc.

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Mas aconteceu um processo de precarização do trabalho muito forte, em consonância com o que tem acontecido na maioria dos capitalismos contemporâneos. Uma perda, por exemplo, da estabilidade no emprego, com trabalhos não regulamentados, o fenômeno chamado “uberização” [em referência à empresa Uber], onde você tem toda a ideia de que os trabalhadores não têm um patrão, o que é uma mentira. Eles têm um patrão, mas não o veem.

Então há muitas pessoas, entre os mais jovens, que demonstram uma falha dos governos progressistas aqui, na Bolívia, no Brasil, no Chile, em todos os lugares, onde justamente há um processo de redistribuição de renda, com programas como o Fome Zero, no Brasil, que teve sucesso. Não houve, porém, um trabalho no campo da consciência. Não houve o que Paulo Freire chamava de “processo de conscientização”. Isso não existiu. E então, uma parte desses setores se volta contra os sujeitos políticos que promoveram esse tipo de expansão de direitos.

Isso aconteceu na Bolívia, com o governo de Evo Morales, onde uma parte dos setores bolivianos tirados da pobreza sem um processo de conscientização votou contra Evo; no Brasil, ocorreu exatamente a mesma coisa, uma parte importante dos votos de Jair Bolsonaro ainda vem de setores tirados da extrema-pobreza pelos governos do PT e, na Argentina, uma parte importante das pessoas que votaram em [Maurício] Macri, em 2015, foi beneficiada por medidas promovidas pelos governos do kirchnerismo.

Todos esses governos tiveram uma visão apenas economicista, pensando que bastava s pessoas terem frango, arroz e feijão para que ficassem satisfeitas, mas não evidenciaram que essa melhoria de vida ocorreu por ação do governo. Diante de uma crise econômica, há um protesto dessa população, que encontra uma esquerda débil. Por isso, há uma parte dela que acaba preferindo esse personagem, Milei.

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Em entrevista exclusiva, sociólogo analisa perfis dos candidatos, identifica erros das esquerdas e projeta um cenário futuro “encorajador”

Foto: Reprodução/Facebook
Atilio Borón: "Os sujeitos revolucionários estão ausentes hoje em dia na América Latina. Isso não significa que eles não possam surgir"

O que se poderia esperar de um governo Milei?

Ele não ganha as eleições. Mas, considerando que pudesse ganhar, seria um fantoche usado por uma parte da burguesia que aposta nele porque já não tem candidato capaz de ganhar uma eleição. Não poderia governar. Ele propõe, por exemplo, cortar relações com Brasil e China, simplesmente os dois principais parceiros comerciais da Argentina. Então esse fenômeno é fruto de uma direita desesperada que quer voltar a governar a Argentina.

E Sergio Massa?

Massa é um enigma. É um político inteligente, muito capaz, que vai se acomodando conforme a situação, mas sabe para que lado deve ir porque tem uma grande ambição de poder. O projeto dele não é para quatro anos e sim para oito. Então não há dúvidas de que ele fará o que for necessário para isso. Nesse sentido, o perfil dele é mais parecido ao do [ex-presidente brasileiro] Fernando Henrique Cardoso, que conheço bem porque fui aluno dele.

Há uma coisa a se considerar. Massa tem uma relação quase privilegiada com a China. Então pensar em Massa simplesmente como uma marionete da embaixada dos Estados Unidos é uma visão que não captura a complexidade desse personagem político que é, repito, muito voluntarioso, habilidoso e capaz de mudar muito rapidamente, e, acima de tudo, é um personagem que lê muito bem a correlação de forças do país.

Alguns analistas consideram que uma eleição de Massa significaria uma mudança, uma renovação no peronismo. Tivemos, recentemente, o kirchnerismo [referência aos governos de Néstor e Cristina Kirchner] e agora poderíamos ter o massismo. Como o senhor vê esse tema?

O peronismo, mais do que um partido político, é uma identidade da classe trabalhadora argentina. Este é um ponto muito importante a ser destacado. Uma coisa foi o peronismo clássico de 1945 a 1955. Outro modelo foi o que tentaram em meados dos anos 1970, com o retorno e a morte de Perón. Uma coisa completamente diferente foi o menemismo [Carlos Menem], que se tornou um peronismo de orientação neoliberal. Depois disso vem o colapso e então o kirchnerismo aparece como uma espécie de recomposição keynesiana do peronismo.

Com Massa provavelmente haveria uma renovação, nos moldes do que foi o kirchnerismo, mas com outras características. Esse personagem é um homem muito inteligente, muito ambicioso, com uma vontade de poder muito forte e que não vai se deixar capturar pelos grandes grupos econômicos.

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Então, na medida em que ele veja que seu projeto está ameaçado, ele não terá nenhum problema em apelar à mobilização popular, fortalecer os sindicatos ou reforçar relações com países com os quais a Argentina hoje  tem relações de baixo nível, como Cuba e Venezuela.

O partido Liberdade Avança, de Milei, e a coalizão Juntos pela Mudança, de Patrícia Bullrich e Maurício Macri, somados, têm uma quantidade significativa de votos no Congresso. Assim, como seria um eventual governo de Massa?

Acredito que ele terá limites nesse governo, justamente devido à oposição porque terá, digamos, um Congresso onde, para ter maioria, terá que fazer acordos muito fortes. Agora, esses acordos, em grande parte, podem ser alcançados por meio dos governadores. O poder central na Argentina é muito forte e os governadores, por sua vez, controlam seus deputados e senadores. Massa é um homem muito habilidoso, foi presidente da Câmara dos Deputados e tem a arte da negociação dos acordos parlamentares. Ele lida com isso muito bem.

Ele terá uma situação muito difícil, mas não tão grave como a [do presidente] Lula no Congresso brasileiro, porque aqui ele [Massa] terá uma representação própria importante, além de muitas pessoas, muitos partidos e muitas organizações que apostam no ganhador e correm irresistivelmente para servir quem venceu.

Mas será uma situação semelhante à de Lula quanto aos meios de comunicação, que, é claro, vão jogar muito contra ele, pressionando-o brutalmente. E terá uma parte importante da sociedade que terá votado em Milei.

De qualquer forma, o que Milei representa é um bloco social conservador muito forte, com uma base plebeia, que não é o velho conservadorismo oligárquico, mas um conservadorismo que tem uma base popular. Por isso alguns chamam de “thatcherismo”, em referência à senhora Margaret Thatcher [ex-primeira-ministra da Inglaterra], que soube construir um partido conservador com uma certa base popular.

Isso será um obstáculo muito forte para Massa, mas o novo cenário internacional lhe dá oportunidades muito valiosas, como, por exemplo, a excelente relação que ele tem com a China. Acho que é um elemento que realmente não pode ser subestimado de nenhuma forma.

E o BRICS…

E o BRICS [grupo formado por Brasil, Rússia, China, África do Sul mais Arábia Saudita, Argentina, Egito, Emirados Árabes, Etiópia e Irã], obviamente, que é uma bênção para Massa. Chega no momento certo.

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A direita não tem um líder importante. Eles não têm um Bolsonaro, por exemplo, e Macri está muito desacreditado. Então, enquanto um novo líder não emergir, Massa terá um certo tempo e resolverá a situação econômica, mais ou menos, controlando um pouco a inflação, promovendo uma redistribuição mais rápida de renda, combatendo a pobreza de forma mais eficaz, etc. Com mais recursos em suas mãos. Ele pode ter chances de se reeleger.

Milei, caso perca a eleição, pode ser um ator influente na política argentina como, de certa forma, segue sendo Bolsonaro?

Não, não, não. Porque, veja bem, Milei é uma pessoa, digamos, muito desequilibrada. Bolsonaro nunca disse as barbaridades que Milei disse. Bolsonaro nunca insultou o papa de maneira tão grosseira como Milei o fez. Ele pode ter feito críticas à esquerda, à ideologia de gênero, à ideologia cultural, tudo isso, mas nada equivalente aos insultos de Milei.

E, além disso, é uma personalidade, digamos… o mínimo que posso dizer é que é um personagem desequilibrado, que rapidamente perde o controle de si, insulta, agride, tem gestos extraordinários que, é claro, chamam a atenção positivamente para algumas pessoas, mas que realmente não tem a capacidade para se tornar um líder de massa na Argentina. E esse é um dos problemas. A direita não tem neste momento um nome forte.

E deste lado está Massa, que é um personagem que, se se sair bem no governo, se fortalecerá muito. E também há Axel Kicillof, governador da província de Buenos Aires. Ou seja, este campo — vagamente chamado de campo de centro, centro-esquerda, mais centro do que centro-esquerda, com esse nacionalismo popular, o peronismo, etc. — tem dois candidatos presidenciais e a direita não tem nenhum.

Quando Lula foi eleito novamente, logo após Gabriel Boric, no Chile, e Gustavo Petro, na Colômbia, parecia que estávamos vivendo um retorno do movimento de esquerda, progressista, na América Latina. Mas vemos no Brasil que o bolsonarismo está muito arraigado e não diminui, na Argentina, temos o fenômeno Milei e Donald Trump pode voltar à presidência. Para onde nossa região aponta?

Esse segundo turno [de governos progressistas na América Latina] será muito mais difícil do que o primeiro. A direita aprendeu muito, desenvolveu uma base de massas muito grande, tem uma articulação internacional —  confiada a Steve Bannon por ninguém menos que Donald Trump. Então esses governos têm dificuldades para implementar seus programas porque os parlamentos estão, em grande parte, controlados pela direita ou por forças tradicionais.

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Logo, esse ciclo é mais moderado do que o primeiro, embora tenha uma cobertura muito maior. Porque antes não tínhamos Colômbia, Honduras, México… E o que dizemos no livro Segundo Turno, escrito com a colega Paula Klachko, é que esses processos não amadurecem em dois dias. São lentos. [O ex-presidente Hugo] Chávez, quando assume em 1999, não é o Chávez de 2003. E Lula, quando começa, no início de 2003, não é o Lula de 2005. São processos de aprendizado, de consolidação, de capacidade de governar, de organização das bases populares, etc., que fazem com que haja um timing.

O que temos agora é um processo mais lento, mais moderado, mas na direção correta e favorecido por um cenário internacional muito importante, em um novo mundo, que emerge como resultado das duas guerras — a da Ucrânia e a de Gaza, sendo a segunda um verdadeiro genocídio selvagem e brutal.

No livro Segundo Turno, tratamos desse ciclo progressista com um otimismo cauteloso.

Estamos atualmente em uma tremenda crise de representatividade, das democracias liberais, etc. A direita chega com uma proposta revolucionária, de ruptura, e isso atrai as pessoas, atrai principalmente os jovens, que buscam isso até por uma característica intrínseca da própria juventude. Enquanto isso, a esquerda é mais conservadora, no sentido de querer garantir o que já existe, garantir os direitos já conquistados. Essas postulações, essas candidaturas de esquerda, não estão falhando em trazer uma proposta de radicalidade para um mundo que quer e precisa de radicalidade?

As esquerdas estão saindo de um processo de refluxo muito importante. A derrota [do ex-candidato à presidência da República em 2018, atual ministro da Fazenda, Fernando] Haddad e a vitória de Bolsonaro no Brasil, em 2018, tiveram um impacto impressionante em toda a América Latina. O golpe de Estado em etapas contra Dilma [Rousseff, ex-presidenta do Brasil] também foi uma questão. Não nos esqueçamos que a partir de 2016, até a vitória de Lula, o Brasil foi governado por uma direita muito radical em certo sentido, onde há um enfraquecimento, por exemplo, do movimento sindical brasileiro.

A situação brasileira impactou então as esquerdas latino-americanas?

Claro, impactou, como impacta também o enfraquecimento do Movimento dos Sem-Terra porque a reforma agrária não avança. E não avança porque o agronegócio tem a maior bancada no Congresso brasileiro…

Também os governos progressistas, as forças de esquerda, pensaram erroneamente, e isso é uma crítica, porque pensaram ser necessário moderar as propostas em vez de radicalizá-las. O problema é que essa esquerda não tem nem os meios de comunicação, nem os juízes, nem A embaixada [dos Estados Unidos], nem o controle da riqueza.

Acredito que a esquerda, neste momento, pode ter condições de avançar com mais força em um programa mais radical. Mas isso exige muita vontade. Exige potencializar a capacidade organizativa dos setores populares, mobilizá-los contra as recomendações dos economistas. Ou seja, para a esquerda, avançar em um programa mais radical é um imperativo. Mas não pode ser um salto no vazio, entende? Porque há muitos inimigos. Quando você olha o mapa, o Brasil está cercado de bases americanas. Então, é uma situação muito difícil a que estamos enfrentando.

Mas concordo com você. Nesse novo cenário, o panorama é um pouco mais encorajador. É isso. Eu não peço mais. Eu não peço revolução aqui na América Latina. Quem pode fazer isso? Onde estão os sujeitos da revolução? Isso não sai de um escrito. Ou seja, os sujeitos revolucionários estão ausentes hoje em dia na América Latina. Isso não significa que eles não possam surgir.

Mas não se esqueça de que três das grandes figuras que impulsionaram o ciclo progressista anterior desapareceram da região. Fidel morreu, Chávez morreu, Néstor Kirchner morreu. Lula esteve na prisão, Correa está inabilitado, Evo está à beira da inabilitação. Estamos falando de um cenário muito complicado devido à perseguição aos líderes e à substituição geracional.

Vanessa Martina-Silva | Direto de Buenos Aires


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As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Vanessa Martina-Silva Trabalha há mais de dez anos com produção diária de conteúdo, sendo sete para portais na internet e um em comunicação corporativa, além de frilas para revistas. Vem construindo carreira em veículos independentes, por acreditar na função social do jornalismo e no seu papel transformador, em contraposição à notícia-mercadoria. Fez coberturas internacionais, incluindo: Primárias na Argentina (2011), pós-golpe no Paraguai (2012), Eleições na Venezuela (com Hugo Chávez (2012) e Nicolás Maduro (2013)); implementação da Lei de Meios na Argentina (2012); eleições argentinas no primeiro e segundo turnos (2015).

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