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Argentina: Em vídeo, ex-militar alude à ditadura e convoca golpe de Estado contra Fernández

Aldo Rico foi denunciado penalmente pela secretaria de Direitos Humanos da Nação, que pediu à justiça uma investigação urgente
Stella Calloni
Diálogos do Sul
Buenos Aires

Tradução:

O tenente coronel “carapintada” Aldo Rico, apelou, mediante um vídeo, a um golpe de Estado em um cenário convulsionado por uma alta tensão financeira com o argumento de que “nossa amada pátria, esta república, é uma anarquia, não há governo”, pelo qual se dirigiu a todas as hierarquias militares e veteranos advertindo que “estamos na mão de um grupo de pessoas que nos querem arrastar para a Venezuela, para o Irã, para Cuba. E a sociedade não está disposta a tolerar isto”. 

É claro que Rico reivindicou a passada ditadura militar como uma guerra contra a subversão e também sua participação na guerra das Malvinas, em 1982, advertindo que há que estar “ao lado do Exército se as circunstâncias se pronunciarem”. 

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De imediato, os ex-combatentes das Malvinas e suas organizações condenaram o fato e advertiram que a conduta do militar, que também esteve à cabeça das tentativas de golpe contra o ex-presidente Raúl Alfonsín em 1987-1988, quando recém começava o caminho da democratização, depois da ditadura mais cruenta na história argentina, é uma “conduta golpista”. Isto foi repudiado naqueles anos com multidões nas ruas. 

Rico também defendeu os militares julgados como responsáveis por tantos crimes de lesa humanidade, estimando que a memória “é parcial” e, depois de uma longa argumentação, pediu finalmente a todos que se ponham de pé, que se unam, que se organizem e que “estabeleçamos um adequado enlace entre todos nós. Temos que estar ao lado do exército se as circunstâncias se pronunciarem em mais dissolução e violência”. 

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Neste cenário crispado, o presidente Alberto Fernández, cujo governo atravessa por um dos momentos mais difíceis, em meio a uma série de reuniões advertiu hoje à oposição que “não me torcerão o braço”. Ao mesmo tempo, criticou duramente aos mais favorecidos nos últimos tempos, que são as empresas do campo, que fizeram recentemente uma paralisação nacional e não pagam ao Estado os 20 bilhões de dólares que lhes correspondem por suas exportações, “esperando melhor rentabilidade” enquanto a pobreza aperta em grandes setores da população. 

Ao estupor que sobreveio ao apelo ao golpe do militar carapintada que circulou por redes sociais, a secretaria de Direitos Humanos da Nação, a cargo de Horácio Pietragalla Corti, filho de desaparecidos, denunciou penalmente a Rico ontem nos tribunais de Comodoro Py.

“Estas expressões contundentes, ligadas ao seu caráter de ex-militar, seus contatos políticos, militares e policiais, e à sua experiência prévia na organização e execução de dois levantes militares contra a ordem constitucional e democrática (em 1987 e 1988) configuram claramente a suposição de ameaça pública e idôneo respeito à comissão do delito tipificado no art. 226 do Código Penal”, diz a representação à qual teve acesso Página/12.

Pietragalla pediu à justiça que, de maneira urgente, investigue se há – como sugere Rico – um processo de organização entre veteranos do Exército. Tudo indica que só na segunda-feira será sorteado o juiz que deverá encarregar-se da investigação contra o tenente coronel retirado. 

Aldo Rico foi denunciado penalmente pela secretaria de Direitos Humanos da Nação, que pediu à justiça uma investigação urgente

Captura de tela | Telam
Aldo Rico, ao centro | "A guerra não é só contra a Rússia. Também é contra a Argentina com soldados de dentro e de fora", afirmou Fernández




Repúdio institucional

No nível institucional, a partir do Centro de Ex-combatentes de Malvinas (CECIM) La Plata, repudiaram as “expressões dos responsáveis da derrota em Malvinas, no que assinalam a Rico, e solicitaram ao Ministério da Defesa que tome todas as medidas cabíveis, já que ele disse que as forças armadas estão sob o mando de um delinquente terrorista, ao se referir ao Ministro da Defesa, Jorge Taiana, ex-chanceler argentino, muito reconhecido no nível internacional. Fizeram ainda apelo às forças populares, aos partidos políticos, às centrais sindicais, aos organismos de Direitos Humanos, às diversas ONGs, aos Centro de Ex-combatentes e a todas as expressões do campo popular para seguir trabalhando em unidade por Memória, Verdade, Justiça, soberania e paz”. 

Além disso, destacou-se que durante o governo do ex-presidente Mauricio Macri, o tenente-coronel desfilou com uma série de repressores do Operativo Independência, em 2 de abril de 2018, Dia das Malvinas, e desfilou “vestido de militar”.

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O governo viveu uma corrida cambial que provocou a subida do dólar paralelo a 350 pesos, criando uma forte incerteza, mas a situação se reacomodou. O presidente, além de apontar contra os produtores agropecuários que não liquidam a colheita, também o fez contra os especuladores que apostam no dólar e pediu trabalho para superar a crise na Argentina. 

“São os novos desafios que aparecem e a cada desafio vamos enfrentar de peito aberto. Vou superá-los com cada um de vocês como superamos os desafios que tiveram que passar antes, sem postergar a educação e a ciência”, afirmou Alberto Fernández. O mandatário esteve acompanhado por governadores e ministros. 

“Se não se deram conta, estamos atravessando um golpe. Nos estão bombardeando com o dólar ilegal. A guerra não é só contra a Rússia. Também é contra a Argentina com soldados de dentro e de fora. Os bombardeios desta vez não são na Praza de Maio (como em junho de 1955) mas sim no financeira que detona nos alimentos e em todos os preços; a coisa está mal desde que assumiu Macri (dezembro de 2015)”, assinala Gabriela Beatriz Martínez, filha de desaparecidos, advertindo que a direita tenta regressar para terminar de liquidar o país.

Stella Calloni é colaboradora da Diálogos do sul em Buenos Aires.
Tradução de Beatriz Cannabrava.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Stella Calloni Atuou como correspondente de guerra em países da América Central e África do Norte. Já entrevistou diferentes chefes de Estado, como Fidel Castro, Hugo Chávez, Evo Morales, Luiz Inácio Lula da Silva, Rafael Correa, Daniel Ortega, Salvador Allende, etc.

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