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Argentina tem marcha histórica por Reparação para Pessoas Idosas Travestis e Trans

“Já que não tivemos uma boa adolescência, pelo menos que seja boa a velhice", conta Marcela Carreño, de 57 anos
María del Carmen Varela
Lavaca
Buenos Aires

Tradução:

Marcha na rua e debate na Câmara. A comunidade travesti e trans teve uma quarta-feira (24) movimentada e mobilizada. Querem a sanção da Lei de Reparação para Pessoas Idosas Travestis e Trans.

O conteúdo da demanda é para uma comunidade que na média não chega aos 40 anos de idade. A prostituição, o que significou a Lei de cotas, o que se deu na rua e também na Câmara dos Deputados.


Na rua

A artista Susy Shock na marcha de reparação para pessoas travestis trans. (Fotos: lavaca/Sol Tunni)

O aguaceiro da manhã era desalentador nesta quarta-feira (24). O prognóstico anunciava chuva para todo o dia. “Se chover marcharemos do mesmo jeito. Se pudemos sobreviver a este sistema, não nos assusta a tormenta”, esclareciam em um flyer Las Históricas Argentinas nas redes, uma das tantas formas que usaram para comunicar o que há tempo esperavam: o dia da Primeira Marcha Plurinacional pela Lei de Reparação Histórica para travestis e trans idosos sobreviventes.

O clima acompanhou sem aguar a festa, contra todo prognóstico, e até por momentos o sol saiu.

O encontro deu-se a partir das 15 horas deste 24 de maio na Praça de Maio, onde conviveram os preparativos para o ato da vicepresidente Cristina Fernández e, na outra metade da praça, o coletivo travesti trans que  imprimiu sua marca: cânticos, cores, bandeiras, abraços e luta. Juntes e nas ruas.

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Carolina Iriarte é de Tucuman e vive em Buenos Aires há vinte anos. Alta, elegante, cabelo preso e lábios pintados de rosa, conta que tem 53 anos. “Continuo trabalhando na prostituição. Viemos hoje à Marcha pela Lei de Reparação Histórica, por tudo o que passamos, os maus tratos da polícia, nos tratam como delinquentes; o mais justo é uma reparação, porque já estamos mais velhas. Para qualquer pessoa que passa dos 40 é difícil, imagine para nós”.

Fotos: lavaca/Sol Tunni.

Prostituição e reparação

Clara Fox é de Mendoza e também há alguns anos vive na Capital; milita no Movimento Evita e atualmente, graças à cotas para trabalho trans, está trabalhando no INAES. “Esta é uma forma de reparar todo o dano que nos causaram e de visibilizar as companheiras que deram seu corpo para que hoje nós possamos caminhar tranquila e dignamente. Recordo tantas companheiras assassinadas, que se foram sem um trabalho, sem uma casa, e deviam estar aqui hoje. Por elas também estamos aqui”.

O megafone soava com alarme de ambulância enquanto gritavam “Reparação, indenização”.

Na Argentina, jovens marcham em peso no Dia da Memória, Verdade e Justiça

A idade média de morte do coletivo é de 32 anos. Há pouco mais de oito anos, um grupo de travestis e trans que conseguiram superar esta triste média e chegaram aos 40 anos ou mais, decidiram organizar-se e criar Las Históricas Argentinas. Patricia Rivas é uma delas, tem 53 anos e diz: “Nos autoconvocamos pelas redes sociais as adultas de toda a Argentina, estamos em contato umas cem mais ou menos. Sofremos perseguição tanto na ditadura como na democracia. Nossa  democracia não começou em 1983, e sim em 2012 com a Lei de Identidade de Gênero. Nos foi negado todo futuro, nos foi negado trabalho, estudos, saúde, por isso pedimos uma velhice digna”.

“Já que não tivemos uma boa adolescência, pelo menos que seja boa a velhice", conta Marcela Carreño, de 57 anos

Lavaca
"São poucas as que estão vivas. Não estão todas aqui”, afirma Romina Escobar, presente no ato desta quarta-feira (24)

Marcela Carreño está recém chegada de Tucumán e vai voltar à noite: “Já que não tivemos uma boa adolescência, pelo menos que seja boa a velhice. Eu tenho 57 anos, continuo exercendo a prostituição lá em San Miguel e recebo o Plano Potenciar, que complementa, mas não é suficiente”. Hoje comeram na panela popular que organizaram para que todes pudessem primeiro comer, depois marchar.

Fotos: lavaca/Sol Tunni.

Susy, Lohana e Diana

Agrupades em um lado da Praça, desfraldaram sua bandeira. Com as cores negro e magenta lia-se: “Lei de Reparação Histórica já!”. A artista Susy Shock posava para as fotos que lhe pediam todes que a reconheciam. Uma imagem de Lohana Berkins (referência do movimento, falecida em 2016) feita de espuma com asas brilhantes passeava entre as pessoas. A irmã de Diana Sacayán (referência trans, assassinada em 2015), Say, pegou o megafone: “Se não forem consideradas as transmasculinidades nas leis que se supõe depois se transformem em políticas públicas, o que acaba acontecendo é que continuam nos invisibilizando, nos matando e desaparecendo conosco”.

“Onde está Tehuel?” era outro lema. “Fúria Travesti” se ouvia como um mantra atordoante. Mães e pais do agrupamento Infancias Libres receberam sua presidente Gabriela Mansilla, que chegou correndo, mas a tempo para a marcha.

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Laura Moreira, irmã de Cynthia, uma jovem trans de 25 anos assassinada em Tucumán, deu seu testemunho: “Minha irmã foi brutalmente assassinada, continua sem justiça, seus assassinos continuam em liberdade, eram policiais expulsos da força por corrupção. Cynthia saiu para uma festa em um 14 de fevereiro e foi a última vez que a vimos com vida. Em 19 de fevereiro seu corpo apareceu desmembrado, calcinado, em sacos, em uma casa abandonada. Minha irmã continua sendo discriminada pela justiça de Tucumán. A justiça se burla das mulheres trans”.

“Somos as netas de todas as travas que nunca puderam queimar”, “Diana, Diana coração, aqui tens as travas por uma reparação”, “Disse Diana Sacayán: ao calabouço não voltaremos nunca mais”, “Senhor, senhora, prestem atenção. Aqui estamos as travas por uma reparação” foram alguns dos cânticos que se ouviram durante a Marcha, que saiu às quatro e vinte e percorreu Avenida de Mayo, Rivadavia, até chegar ao Congresso da Nação. Durante a caminhada que se estendeua por mais de duas quadras, cantou-se, dançou-se, arengou-se, exigiu-se.

Pequenas e grandes vitórias

Romina Escobar afirma: “Estamos aqui para pedir uma reparação histórica para todas as companheiras que viveram a época da repressão, os anos 90, com os editais da polícia. São poucas as que estão vivas. Não estão todas aqui”. Romina é atriz, trabalhou na novela Pequena Vitória em Telefé e graças à Lei de Cotas para trabalho Trans está trabalhando atualmente no INCAA.

“As travestis somos parte da Pátria. Viva a Pátria Travesti. Sem travestis não há Pátria”, ouve-se pelo megafone. Gritos e uivos. Ao passar pelo Café Tortoni, umas 15 pessoas olham com curiosidade e pegam seus celulares para filmar e tirar fotos. Outras 50 pessoas fazem fila na porta de um Carrefour Express, talvez para pedir trabalho. Elas também olham e apontam com seus telefones. Uma grande labareda sulca os ares. Depois de expulsar de sua boca o líquido combustível que combinado com um pouco de fogo provoca a centelha, Comando continua a caminhada repetindo seu truque várias vezes. Veio das ilhas do Tigre porque “há uma dívida enorme do Estado e da sociedade com toda a comunidade travesti trans; e com os adultes sobreviventes muito mais”.

A marcha pela reparação, e a festa na rua (Fotos lavaca/Sol Tunni).

Ao chegar ao Congresso, os tambores de Batuka deram as boas vindas e Laurent Tropikalia, mãe de House of Tropikalia, expoente da cultura ballroom, foi quem pegou o microfone para receber todes e anunciar a leitura coletiva  do documento. Se alguém entende de luta nas ruas é Eva Analía de Jesús, mais conhecida como Higui. Depois de ter estado presa e ser acusada de homicídio por defender-se de uma tentativa de violação, Higui foi absolvida em março do ano passado. Para que isso acontecesse foi chave o acompanhamento do coletivo, a mobilização nas ruas e durante os tres dias de audiências no Tribunal Oral no Criminal N° 7 de San Martín. Com camiseta violeta, gorro com um escorpião bordado e um cartaz que dizia “Com fome não posso estudar”, Higui se aproximou do palco, saltou, levantou seu punho para o alto, sorriu e se meteu entre as pessoas até perder-se na multidão.

A deputada Mónica Macha, que apresentou um dos projetos na Câmara dos Deputados, disse no microfone: “Não é um caminho simples nem foi facilitado. Temos que construi-lo”.

A jornada finalizou com um show musical a cargo de Tía Marilú, Max Vanns, Casa Exilia e Desobedientes FOLQ. Minutos antes, María Pilar Giménez, do palco e para reafirmar um dia em que o coletivo travesti trans fez história, lia em viva voz: “Somos comunidade, somos resistência”.

No recinto

Horas antes de que o coletivo travesti trans marchasse da Plaza de Mayo ao Congresso, na Câmara dos Deputados da Nação a Comissão de Mulheres e Diversidade houve uma reunião para começar a tratar da Lei de Reparação para Pessoas Idosas Travestis e Trans. 

A reunião foi informativa, isto é, realizou-se para ouvir diferentes vozes e começar a construir os consensos necessários para chegar a um texto único. No momento são quatro os projetos de lei que abordam o tema que foram apresentados e têm status parlamentar. 

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A ativista e teórica Marlene Wayar começou sua intervenção perguntando que deputadxs estavam presentes. “Estamos falando para o arco político ou estamos falando como sempre, meio sozinhas?”. A verdade é que estavam presentes apenas cinco deputadas: Mónica Macha, que preside a Comissão de Mulheres e Diversidade e dirigiu a reunião, Romina del Pla, Gabriela Estévez, Lucila Masin, María Rosa Martínez e Florencia Lampreabe.  

Durante três horas, quase vinte exposições de ativistas, funcionárias e deputadas expressaram a urgente necessidade de contar com a lei. “Na Argentina, a comunidade trans foi sistematicamente perseguida, sofrendo crimes de lesa humanidade no quadro de um genocídio dirigido especificamente a nosso grupo devido a nossa identidade de gênero. Estes atos foram cometidos com a intenção de destruir total ou parcialmente nossa comunidade”, expôs Marlene Wayar.

Os projetos expressam como objetivo prioritário reparar a vulnerabilização sistemática dos Direitos Humanos do coletivo travesti trans e garantir-lhes uma velhice digna. Receberão a pensão quem tiver mais de 40 anos, dado que a média de vida das travestis e trans mal chega aos 40 anos. 

“Claro que não é um problema orçamentário. O tema é que diante da possibilidade de ampliar direitos há setores que vão opor obstáculos”, afirmou Mónica Macha, presidente da comissão responsável pelo projeto.  As outras comissões às que possivelmente tenham que se relacionar são Previsão e seguridade social (presidida por Marisa Uceda, da Frente de Todos) e Orçamento e Fazenda (Carlos Heller, Frente de Todos).

Macha expressou a vontade de que em meados de junho haja uma primeira reunião de comissão para tratar efetivamente o projeto junto a deputadxs e assessorxs e poder chegar a um texto de consenso que seja levado ao recinto.

María del Carmen Varela e Anabella Arrascaeta | Lavaca
Tradução: Ana Corbisier


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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