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Armagedon norte-americano

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Héctor Béjar*

 Para Raúl Wiener, navegante solitário

como são milhares de pessoas dignar hoje em dia.

Héctor Béjar Perfil Diálogos do SulOs Estados Unidos conseguiram convencer ao mundo de que são um país de riqueza e oportunidades. O que ocorre é que escondem a seus pobres nos bairros sórdidos de Washington, os vetustos edifícios de Harlem ou do porto de Nova York povoados de ratos e ratazanas, ou nos bairros pobres de Los Ángeles, onde vivem os negros, os asiáticos, os latino-americanos a quem chamam hispânicos e seus próprios pobres.

Os políticos estadunidenses não querem desenhar e aplicar a política social que corresponderia à primeira potencia mundial.

No século XVI, o sentimento caridoso da sociedade estadunidense esteve impregnado de bondade com os semelhantes anglo-saxões, não com os negros e os índios.

eua1No início, cuidar dos necessitados foi responsabilidade pública. Quando a sociedade industrial produziu a pobreza como endemia no século XVIII, requereu-se assistência pública e trabalho privado de caridade. Através dos anos, a assistência foi se transferindo para os amos e patrões para que provessem ajuda a seus dependentes. Exceto para os velhos ou inválidos, a assistência pública foi abolida desde fins do século XIX.

Quando Júlia Lathrop fez campanha por uma lei de proteção da maternidade e da infância em 1918 teve como resposta o panfleto “Devem as crianças da América converter-se em propriedade do estado?”. As promotoras da lei Sheppard Towner em favor da infância foram acusadas de pervertidas e menopáusicas. A lei foi aprovada em 1921 sob a presidência de Warren Harding, mas o Congresso rechaçou renovar-lhe fundos. Tiveram que esperar até 1935 para que estas disposições e as pensões às viúvas fossem incorporadas por Roosevelt à lei de Seguridade Social, porém ainda se pensava que quem ajudasse as crianças estavam sob a influência do comunismo.

Quando Franklin Delano Roosevelt era prefeito de Nova York, conseguiu a aprovação da Lei Wicks para prover ajuda aos desocupados durante um período de emergência através da Temporary Emergency Relief Administration, TERA. (Waster Trattner. From Poor Law to elfare State. Ne York: The Free Press, 1989).

Já como presidente colocou em prática o pacote conhecido como New Deal, estabelecendo a seguridade social em âmbito federal.

Harry Truman aproveitou o pós guerra mundial para propor os programas Medicaid e Medicare. E teve que esperar até o governo de Lyndon B. Johnson, nos anos setenta para que a lei fosse aprovada.

A obra de Roosevelt não foi seguida. Clinton não se atreveu sequer a apresentar seus projetos de reforma da saúde.

Todos os programas sociais estadunidenses são federais, porque há estados que não querem aceitar nem a mais distante noção de seguridade social.

eua2Estados Unidos se negaram a firmar a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança de 1989.

Agora, os ante-valores da competição e do êxito se apoderaram da sociedade. Como resultado, 47 de 308 milhões de estadunidenses vivem abaixo da linha de pobreza. Há 15 milhões de desocupados. 5.000 pessoas vivem em tendas em 55 cidades. Três milhões estão detrás das grades. Estados Unidos é o país com mais gente encarcerada no mundo: 756 pessoas presas para cada 100 mil habitantes, muito mais que na China, que com uma população quatro vezes maior, tem um milhão e meio de reclusos; ou de Venezuela, com 79 presos por 100 mil habitantes. Aplica a tortura como método em Guantánamo. E devem quinze e meio bilhões de dólares.

Nestas circunstâncias, Mitt Romney dedignou a Paul Ryan como seu companheiro de chapa para as eleições presidenciais. Ryan propõe terminar com o Medicare que nem mesmo Bush se atreveu a tocar e substituí-lo por vouchers ou vales que os pacientes usariam para pagar os médicos. E quer reduzir a cobertura. Para os que pensam como ele os gastos com saúde são um desperdício.

Como disse Christopher Caldwel em The Weekly Standard: estas posições ocorrem porque muitos estadunidenses de direita pensam que os Estados Unidos estão a beira de um Armagedon (catástrofe purificadora) no estilo grego. E, talvez tenham razão.

*Advogado e Sociólogo, doutor em Sociologia pela Universidade Nacional Mayor de San Marcos de Lima, Peru. Colaborador de Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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