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As controvérsias da esquerda peruana

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

É curioso. Quando o Peru vive uma crise profunda, que não é responsabilidade do povo nem de suas organizações representativas, mas sim culpa dos que sempre estiveram no poder, as forças que se dividem e fracionam não são aquelas que expressam o interesse da classe dominante mas sim a dos trabalhadores.

Gustavo Espinoza M.*
Gustavo-Espinoza-M.-03-150x150O segmento que deveria ter a suprema obrigação de se unir para encontrar uma saída comum, popular, que responda verdadeiramente às necessidades nacionais, é a que sofre os efeitos de um fracionamento que erosiona suas estruturas e debilita sua capacidade de luta.
Nos últimos dias, de fato ocorreram fracionamento em duas organizações da esquerda peruana. Do denominado Partido Comunista do Peru “Pátria Roja” sai um contingente significativo de sua estrutura juvenil. Por outro lado, “Tierra y Libertad”, o partido dirigido por Marco Arana e que deu origem à Frente Ampla, teve a retirada de um numeroso grupo de dirigentes e militantes.
Em ambos os casos, os prejudicados por esses fatos que se acreditava superados numa esquerda que se diz renovada, como primeira reação minimizam os danos sofridos e optaram por virar a página, como se nada tivesse acontecido. Uma segunda reação, pouco inteligente como a primeira, levou ambos a denegrir aqueles que abandonaram o barco, excomungando-os e aplicando sanções.
11850686_10206403057889710_9060449645562862433_oComo era de se prever, tanto a renúncia de uns como as sanções adotadas por outros, encontraram acolhida na grande imprensa, aquela que, em outra circunstância, teria negado a ambos qualquer menção. Desta vez mostrou-se interessa pela notícia e isso levou que procurassem a todos em busca de informação, melhor confidenciais, contra um e outro bando.
Foi pouco o que os meios conseguiram. E isso ocorreu por duas razões: porque as rupturas não foram consequência de árduas batalhas; e porque os que foram não agiram com hostilidade, se limitaram a registrar as causas da retirada, sem acusar ninguém. Embora aqueles que foram prejudicados nem sempre se comportaram com esse mesmo espírito, o tema não chegou a alcançar as dimensões esperadas pelo inimigo.
Em Pátria Roja a questão parece ser mais complicada. Se bem que o contingente que saiu é majoritariamente jovem, há que registrar, também, que um conjunto de militantes desse partido foram punidos por sua identificação com Gregório Santos, o discutido presidente regional de Cajamarca, que, por sua vez, foi expulso do partido.
Registre-se que estes últimos já não são tão jovens que se possa taxa-los de inexperiência, intolerância, ou simplesmente impaciência, mas são antigos militantes que não trabalham só em Cajamarca. Santos conta com apoio em Chiclayo, Puno, Cusco, Arequipa, Huancayo e outras cidades, e também certamente em Lima. Porém ainda há outro segmento que nem saiu nem foi expulso, mas que desde há algum tempo não se sente satisfeito com o desenvolvimento dos acontecimentos.
Algo parecido ocorre em “Tierra y Libertad. Originalmente se anunciou que eram 112 os que renunciaram, mas logo a direção argumentou que apenas 43 entre eles estavam registrados. Os outros, provavelmente, eram da Frente Ampla. De toda maneira, além das cifras sempre questionáveis, o que importa é saber que, finalmente, saíram.
Tais rupturas certamente ajudarão a prejudicar a imagem da esquerda. E isso é ruim, principalmente quando se trata de unidade e se semeia ilusões nas cabeças de alguns. Objetivamente, os fatos mostram que essa unidade que se apregoa é mais que uma vontade política, uma frase para efeito de exportação. É que nos diferentes coletivos da esquerda, o processo ocorre por dentro, em outros, já aflorou enquanto em outros está em processo.
Não obstante há o que salvar. Os que se foram de Pátria Roja não o fizeram renegando seu partido nem lançando impropérios contra seus dirigentes. Optaram por simplesmente afirmar seu direito a erguer uma tenda à parte depois de uma experiência que não os satisfez.
Razões para o desencanto podem existir. Porém, o fato incontroverso é que há gente que já não quer permanecer no partido. Portanto não faz sentido desqualificá-los por sua opção. Como bem diz Manuel Guerra, dirigente do Pátria Roja, “não se pode colocar todo mundo num mesmo saco. Tampouco baixando o nível do debate, abusando dos adjetivos e insultos se resolvem os problemas, nem é a maneira de demonstrar que é revolucionário, marxista, Leninista e comunista”.
Há que ser sempre objetivo e cuidar da forma.
O mesmo se pode dizer com relação a Tierra y Libertad. Porém aqui há uma variante significativa. Trata-se de um organismo inscrito eleitoralmente e que participa do parlamento. Enquanto o coletivo de Arana é legal e enquanto mantém no congresso aliança com Sembrar e outros menores, o objetivo não pode ser de ruptura mas sim de preservação da unidade..
É bom lembrar que esta não é hora de dispersão. Em termos matemáticos, não é hora de diminuir nem de dividir, é hora de somar e multiplicar. Não é momento de colocar gente pra fora mas o de conquistar pessoas, crescer, incrementar as filas da esquerda, influir nos novos setores e segmentos.
Mariátegui nos fala sobre isso como se estivesse se referindo ao que ocorre neste instante no seio das organizações de esquerda. Dizia: “O que importa é que esses grupos e essas tendências saibam entender-se diante da realidade concreta do dia. Que não se esterilizem bizantinamente em exconfissões e excomunhões recíprocas. Que não afastem as massas da Revolução com o espetáculo das querelas dogmáticas de seus pregadores. Que não empreguem suas armas nem dilapidem seu tempo em ferir-se uns aos outros, mas em combater a ordem social, suas instituições, suas injustiças e seus crimes”.
Para além do problemas que enfrentam cada uma das organizações que dizem representar o movimento popular, há que priorizar as tarefas comuns, pensar no futuro. É nosso dever unir ao povo em torno das legítimas bandeiras, organizar os trabalhadores e os camponeses, os estudantes e os profissionais, forjar e criar consciência política e espírito de classe para impedir que os homens e mulheres sejam conquistados pela prédica reacionária, ou derrotados por elas. Promover e aumentar as lutas de nosso povo na defesa da democracia, a independência e a soberania para que nossas riquezas e recursos naturais não sejam presa fácil da voracidade dos monopólios e do império.
A defesa dos trabalhadores afetados pelas novas medidas anti-trabalhistas; dos moradores de Las Bambas ou de Pataz, na serra norte, ou dos Shipibos, na capital, dos estudantes acossados pela máfia que quer retornar ao velho modelo nas universidades; ou das mulheres, atacadas cotidianamente, é tarefa de todos. Como é tarefa de todos também o apoio a Cuba na luta contra o bloqueio, a solidariedade com Venezuela, Nicarágua e Bolívia; a promoção da paz na Colômbia, a batalha contra o TTP e a Alca, assim como os desmandos que se vislumbram com a nova administração estadunidense.
Não é necessário que para realizar essas tarefas todos se integrem a uma mesma estrutura partidária. Mas sim é possível que estando cada um em sua própria organização, ou fora dela, coincidam todos na luta por esses objetivos, o dever comum de enfrentar nossos adversários. Desferir os golpes unidos ainda que marchando separados. É melhor que marchar juntos mas sem desferir golpes, sem ordem, cada um por sua conta.
Por cima das elucubrações formais a palavra Unidade está na ordem do dia.
*Colaborador de Diálogos do Sul, de Lima, Peru


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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