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Atos de domingo expõem aumento na temperatura das ruas e redes sociais brasileiras

Ao que parece a tampa da panela de pressão está comprometida e prestes a estourar por completo, desencadeando reações imprevisíveis
André Takahashi
Diálogos do Sul
São Paulo

Tradução:

A imagem é o Trending Topic do twitter que perdurou boa parte do domingo após o ato antifascista em São Paulo e o ato Vidas Negras Importam no Rio de Janeiro. Este último denunciando o assassinato do menino João Pedro em uma ação da PM.

É um Trending Topic anômalo por ser dominado por temas políticos e diretamente relacionados aos dois atos nas duas principais capitais do país. Ambos terminaram dispersados por violência policial. Também é visível a perda de poder de fogo dos robôs bolsonaristas que sofreram um golpe forte do STF na semana anterior.

Imagem do Trending Topic do twitter. 31/05/2020 – ReproduçãoO topo da lista #VidasNegrasImportam, referente ao ato no Rio de Janeiro, demonstrou uma força inesperada nas redes. E o termo #Black Lives Matters indica como a conjuntura internacional nos EUA e a propagação das imagens de revolta no centro do império foram elementos importantes pra motivar a militância a tomar a iniciativa e aumentar a temperatura das ruas brasileiras.

Fora do Rio de Janeiro e São Paulo aconteceram muitos outros atos antifascistas em diversas capitais e cidades importantes, como Belo Horizonte e Porto Alegre. Em Porto Alegre já está no terceiro domingo consecutivo. Assim como em 2013 a capital gaúcha antecipou uma movimentação de rua que agora se alastra pelo Brasil.

Ao que parece a tampa da panela de pressão está comprometida e prestes a estourar por completo, desencadeando reações imprevisíveis e, inicialmente, sem controle por parte da esquerda. O que não é uma surpresa haja visto o imobilismo e desagregação desse campo.

Ao que parece a tampa da panela de pressão está comprometida e prestes a estourar por completo, desencadeando reações imprevisíveis

Twitter / Reprodução
torcida organizada tem base social mais ampla do que uma tática estrangeira que se baseia no anonimato

O fato de ambos os atos nas principais capitais terem terminado em violência policial constitui um elemento importante. A repressão em conjunturas específicas de injustiça e indignação popular acumulada tem o efeito de estimular a revolta das ruas. Vimos esse fenômeno ocorrer em diversos países nos últimos anos, e em junho de 2013 no Brasil.

Importante considerar também o estado psicológico do brasileiro, principalmente da classe média progressista que pôde cumprir rigorosamente o isolamento enquanto assistiu, por dois meses, os fascistas se manifestarem todo domingo exibindo impunemente sua ideologia genocida.

Também tem o desgaste do governo federal por causa da ação desastrosa durante a pandemia e seu isolamento em relação a diversos setores da elite econômica, intelectual e artística. Há fraturas no andar de cima, e as frações da elite que apoiam ou desaprovam o governo vão disputar a ampliação das bases sociais como fiel da balança diante das FFAA.

Nesse sentido deve-se analisar como os meios de comunicação hegemônicos estão cobrindo essas manifestações. Em 2013 eles foram os grandes responsáveis por direcioná-las pra um caminho que, anos mais tarde, desembocou no impeachment e o posterior ascenso fascista que vivemos agora. O pouco que vi na TV sobre o ato de São Paulo o jornalismo da Globo condenou a violência, mas a todo momento chamava os manifestantes de “manifestantes pela democracia”.

Ao que parece as torcidas organizadas, vanguarda desse movimento de rua (com exceção do ato no Rio de Janeiro), serão demonizadas por todos os lados como os novos black blocs ou manifestantes violentos. Essa operação será um pouco mais difícil dessa vez, haja visto que torcida organizada tem base social mais ampla do que uma tática estrangeira que se baseia no anonimato.

De toda forma torcida organizada não tem projeto político e é uma organização naturalmente limitada pra esse cenário. Mas, ao mesmo tempo, elas têm a legitimidade de não estarem desgastadas como as organizações políticas que conhecemos. Me parece que a melhor forma de não serem neutralizadas ou cooptadas é se desdobrarem em um novo projeto político popular e patriótico com pautas sociais concretas para além da democracia (opção improvável pela falta de uma liderança consensual).

Outro ator, mas que está alheio à toda essa movimentação, são as maiorias de trabalhadores e trabalhadoras, mais preocupados com a sobrevivência em meio às crises política, pandêmica e econômica, e impossibilitados de cumprir a quarentena. Até o momento estão apenas assistindo, como assistiram o impeachment e mesmo a eleição de Bolsonaro que teve um recorde de abstenção e de votos brancos e nulos. Com o agravamento da crise econômica e a ebulição das ruas uma reação desse setor pode fazer emergir novas lideranças, pautas e atores.

As novidades que ocorrerão no decorrer dessa semana indicarão que rumos essa movimentação vai tomar. Há vários indícios que a base bolsonarista vai sofrer novos golpes, seja do STF ou mesmo da polícia em relação ao agrupamento extremista “300”. Existe também a possibilidade de repressão policial qualificada contra as torcidas organizadas.

No plano internacional não se pode ignorar os vazamentos dos Anonymous (outro ator importante do período 2011-2016 que ressurgiu das cinzas) sobre uma possível relação de Trump com uma rede de tráfico de crianças. Essa bomba, se mantida pelos Anonymous e comprovada, impactará toda a conjuntura mundial. Além desse vazamento os EUA estão tomados por uma insurreição popular que ocupa a ala trumpista do império com problemas internos sérios, deixando seus aliados externos com pouca orientação e suporte. O que abre a deixa pra ala progressista liberal atuar com mais força dentro e fora dos EUA (o que também é ruim para nós).

No que diz respeito ao Brasil esse cenário de protestos provavelmente estava previsto pelos estrategistas do Partido Fardado. E isso não deve ser bom pra eles, pois agora são obrigados a reagir em condições menos previsíveis. Mas dentre os atores políticos eles são os mais preparados e com capacidade de ação nesse cenário. O que não significa que consigam manter sua coesão durante todo o processo.


André Takahashi, Colaborador da Diálogos do Sul


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
André Takahashi

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