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Ausência de propostas concretas de Biden confirma irrelevância da Cúpula das Américas

Segundo Richard Haas, presidente do Conselho sobre Relações Exteriores (CFR), evento parece ser uma debacle, um auto gol diplomático
David Brooks
Diálogos do Sul Global
Nova York

Tradução:

O presidente Joe Biden inaugurou a cúpula de 23 mandatários e a marcada ausência de pelo menos nove (incluindo os três não convidados), com a esperada retórica grandiloquente sobre a importância da região e a necessidade de abordar de maneira coletiva os desafios que enfrenta o hemisfério, e anunciou o marco de novo acordo econômico ainda por ser negociado.  

Sete trombetas e um tambor militar deram início à cerimônia no Teatro Microsoft em Los Angeles, e com isso um fundo musical entre marcial e de filme de Hollywood acompanhou a chegada dos chefes de delegações, alguns com sorrisos, atrás do anfitrião Joe Biden e da primeira dama. Um vídeo de crianças de Los Angeles deu as boas-vindas aos “povos” de cada país, e depois ocuparam o palco junto com o prefeito da cidade, Eric Garcetti, e o governador da Califórnia – ambos festejaram que este é o lugar mais diversos do mundo – os quais ofereceram umas palavras.

A vice-presidenta, Kamala Harris, ofereceu algumas palavras antes que um agrupamento de jovens subisse para contar e dançar “um mundo”, um hino à unidade, em inglês e espanhol e em vários estilos “latinos”. Rock, e algo que buscava ser “indígena”, tudo com uma coreografia um pouco desafinada, seguido de mais canções sobre unidade e amor.

O espetáculo continuou com vídeos de crianças oferecendo mais dados sobre diferentes países das Américas, e de repente foi apresentado como orador o presidente do Peru, Pedro Castillo, porque seu país foi o anfitrião da cúpula anterior.

Por fim, Biden subiu ao pódio para inaugurar a cúpula, declarando que “a democracia é o ingrediente essencial para o futuro das Américas” e afirmou que hoje quando a “democracia está sob assalto ao redor do mundo, há que unir-nos de novo” para reafirmá-la. Agregou que nesta conjuntura “necessitamos mais cooperação, propósito comum e ideias transformativas” para abordar de maneira conjunta, “respeitando soberanias e como iguais”, e assumindo “responsabilidades compartidas” para responder de maneira efetiva à série de desafios que o hemisfério enfrenta.

Biden anunciou a chamada “Aliança para a prosperidade econômica nas Américas”, a qual foi qualificada pela Casa Branca como “um novo acordo histórico” para promover a recuperação e crescimento econômico no nível hemisférico. Sublinhou que a América Latina e o Caribe sofreram a maior contração econômica de todas as regiões do mundo, o que incrementou a desigualdade e a pobreza – 22 milhões de novos pobres – e afirmou que a inflação gerada pela “guerra de Putin na Ucrânia” está agravando a situação. Diante disse, declarou Biden, “a Aliança para a prosperidade econômica nas Américas… reconstruirá nossas economias de baixo para cima”.

Para lograr isso, se buscará “revitalizar as instituições econômicas regionais” para promover o investimento; fazer mais resilientes as cadeias de fornecimento; ampliar o investimento público e administrá-lo de maneira mais eficaz, gerar empregos por meio da energia limpa e “assegurar um comércio sustentável e inclusivo”.

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Ao que parece, muito disso ainda terá que ser negociado. A Casa Branca indicou que depois de concluir a cúpula, Washington realizará “consultas iniciais com seus sócios no hemisfério e com as partes interessadas” para impulsionar toda esta proposta.

Além disso, Biden anunciou ou adiantou iniciativas sobre outros quatro rubros além do econômico: segurança alimentar para o que Estados Unidos anunciou 300 milhões de dólares para abordar as necessidades urgentes; clima, incluindo uma iniciativa no Caribe; saúde para o que o presidente anunciou uma iniciativa para ajudar a capacitar 500 mil trabalhadores de saúde nas Américas. Será anunciada a Declaração de Los Angeles sobre Migração e Proteção na sexta-feira na conclusão da cúpula.

Segundo Richard Haas, presidente do Conselho sobre Relações Exteriores (CFR), evento parece ser uma debacle, um auto gol diplomático

Reprodução – Twitter
“A democracia é o ingrediente essencial para o futuro das Américas”, disse Biden.

Mas apesar da apresentação de suas iniciativas sobre desenvolvimento econômico, mudança climática, saúde, tecnologia e o tema com que culminou a cúpula na sexta-feira (10) – a migração – o governo de Biden não conseguiu superar os tropeços pela lista de convidados e propostas não desenvolvidas que descarrilaram o objetivo do evento como um triunfo político diplomático do presidente levando a que alguns – e não só opositores políticos – tenham expressado que é um fracasso mesmo ante de começar. 

Richard Haas, presidente de um dos centros mais influentes e prestigiados sobre política exterior, o Conselho sobre Relações Exteriores (CFR), comentou por tuite: a Cúpula das Américas parece ser uma debacle, um auto gol diplomático. Estados Unidos não tem uma proposta sobre comércio, uma política migratória, nem um pacote de infraestrutura. Em seu lugar o enfoque está sobre quem estará e quem não estará aí. Não está claro porque quisemos que isto acontecesse”.


Venezuela e Cuba

Uma das dúvidas até o último momento antes do início da Cúpula foi por outro convite. Depois que se confirmou na segunda-feira que o presidente Nicolás Maduro não estava convidado, não se sabia até quarta-feira (8) de tarde se chegaria em seu lugar o que Washington proclama como o mandatário legítimo desse país. Mas hoje foi informado que no caminho a Los Angeles, Biden chamou por telefone desde seu avião presidencial a Juan Guaidó, reiterando que Washington o continua reconhecendo como o presidente interino da Venezuela. De fato, a chamada foi um desconvite à cúpula por parte do anfitrião.

Também continuou a disputa pelas exclusões de três países; o senador republicano Marco Rubio continuou seu confronto com o Presidente Andrés Manuel López Obrador. Depois que o cubano-estadunidense sugeriu que o mandatário havia entregado territórios de seu país ao narcotráfico, López Obrador acusou Rubio e seu colega Ted Cruz de receber fundos dos armeiros dos Estados Unidos. Rubio tuitou nesta quarta-feira: “Um presidente que tem palavras duras para líderes democraticamente eleitos nos Estados Unidos, mas elogios para um ditador na Nicarágua, um traficante na Venezuela e uma tirania marxista em Cuba”.


Só precisa de amor?

Enquanto isso, a noite continuou no Microsoft Theatre com o músico colombiano Jorge Celedon cantando “Esta vida”, uma interpretação de Lean on Me com três cantores e acrobatas, seguido por Alex Fernandez com uma banda mariachi cantando “El Rey”, que parecia encantar os chefes de Estado, incluindo Biden. E tudo terminou com a percussionista Sheila E. e sua banda oferecendo “Come together” dos Beatles, envolvidos com um pouco de amor.

David Brooks é correspondente do La Jornada, direto de Nova York.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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