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Bastidores na relação Angola e Brasil

Beatriz Bissio

Tradução:

Beatriz Bissio*

Beatriz Bissio Perfil Revista Diálogos do Sul PBO Embaixador Ovídio Melo, representante do Brasil em Angola no período de transição à independência, faz revelações de grande interesse histórico sobre a queda de braço ao interior do regime militar brasileiro em relação à política para África traçada pelo Itamaraty.

Embaixador Ovídio de Andrada Melo O Embaixador Olívio Melo

Quando o Presidente Agostinho Neto, na manhã de 11 de novembro de 1975  fez o seu primeiro pronunciamento como Chefe de Estado desde a sacada do Palácio de Governo de Luanda – até então um dos símbolos do poder colonial português – o povo que ouvia o discurso desde a praça demonstrava, no seu entusiasmo e alegria, clara noção de estar a viver um momento histórico.

A relação dos primeiros países que haviam reconhecido o governo do MPLA estava sendo divulgada. O maior destaque era dado ao anúncio do reconhecimento do governo brasileiro, o único fora da esfera do mundo socialista. O que ninguém sabia, porém, salvo poucas pessoas do governo do general Geisel, era que vinha sendo travada uma verdadeira batalha no Brasil para que esse reconhecimento acontecesse. Um dos protagonistas dessa queda de braço ao interior do regime militar era o Embaixador Ovídio de Andrade Melo, designado representante do Brasil em Angola no período de transição à independência e Embaixador Especial para o dia 11 de novembro de 1975.

De família de classe média, nascido no Rio de Janeiro, Ovídio Melo não tinha o perfil clássico dos diplomatas do Brasil, tradicionalmente filhos das classes abastadas. Aliás, sempre que lembra o seu ingresso à Casa do Barão do Rio Branco o Embaixador faz questão de dizer que o fez “por concurso”. Quando foi chamado para servir em Angola, em 1974, desempenhava-se como Consul Geral em Londres e já tinha sido Chefe da Divisão das Nações Unidas no Ministério, pouco depois da transferência da capital do Rio de Janeiro para Brasília. Nesse posto cabia-lhe a responsabilidade de elaborar as instruções para a Delegação do Brasil na Assembléia Geral da ONU e, em particular, a posição do Brasil na questão específica da descolonização da África.

Como o chanceler da época, Juracy Magalhães, cunhara a frase segundo a qual “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, e os EUA se abstinham nessa votação, Ovídio Melo procurava levar o Itamaraty a fazer o mesmo, ao invés de apoiar a ditadura Salazarista de Portugal. Mas, a sugestão não logrou ultrapassar a barreira do Secretário Geral do Ministério, Pio Correia, e o Brasil continuou a votar a favor de Portugal por muitos anos.

Foi também um período de cassações no Itamaraty; entre os diplomatas cassados estava o pai de Sérgio Vieira de Mello, que nesse ato justificava a sua decisão de fazer a carreira diplomática na ONU e não no Brasil. Nas palavras de Ovídio Melo, “enquanto a repressão da ditadura de agravava, no Itamaraty se formava um corpo de diplomatas-policiais a serviço da repressão”.

Nesse contexto, como entender o reconhecimento pelo Brasil de um governo chefiado pelo Movimento Popular de Libertação de Angola, contrariando as posições norte-americana, portuguesa, da OTAN, e alinhando-se com o mundo socialista? É o que África 21 perguntou ao embaixador Ovídio Melo e ele responde, ao longo desta entrevista exclusiva.

  • Embaixador, o reconhecimento de Angola custou caro à sua carreira. Gostaríamos de conhecer melhor esse episódio, que faz parte da história das relações do Brasil com a África…
  • O.M. – O tratamento que o Itamaraty me dispensou só merece aqui referência porque se caracterizou pela mesma ambiguidade e relutância que a Chancelaria demonstrou em defrontar as forças internas e externas que se contrapunham ao reconhecimento de Angola. Em 1976 fui incluído no quadro de promoções. Mas a promoção não aconteceu, provavelmente pela  resistência das  forças que tinham se oposto ao reconhecimento e me queriam como bode expiatório.
  • Na verdade, a sua promoção só aconteceu uma década depois…
  • O.M – Ocorreu em 1986, na primeira promoção feita pela Nova República.  E, depois de Angola, só servi como Embaixador comissionado na Tailândia e na Jamaica, postos periféricos da política externa brasileira. Porém, me orgulho de haver servido em Luanda naquela decisiva ocasião e confesso que a experiência desse período foi para mim mais valiosa do que tudo que aprendi em 42 anos de carreira.
  • Como surgiu a questão do reconhecimento de Angola?
  • O.M – Em 1974 eu estava em Londres quando se instalou o Governo Geisel no Brasil e quando ocorreu a Revolução dos Cravos em Portugal. Eu não conhecia nem ao general Ernesto Geisel – salvo pelo papel moderador contra as torturas – nem o novo Chanceler, Embaixador Antônio Francisco Azeredo da Silveira 1. No Itamaraty havia setores que vinham tentando demover Portugal de sua obstinação colonialista e, após o 25 de Abril surgiu no Gabinete de Silveira, por iniciativa do Embaixador Ítalo Zappa, Chefe do Departamento África, a original idéia de criar Representações Especiais, com o status de Embaixadas antecipadas, em Angola e Moçambique. Elas atuariam durante a transição à independência e seriam, depois, substituídas por Embaixadas.2
  • Qual era o papel atribuído a essas a Representações?
  • O.M – Acreditava-se que com a simples presença, o Brasil não só daria mais credibilidade ao processo de transição como ajudaria ambas as partes – Portugal e as colônias – a transitar pelo árduo caminho da construção de relações sobre novos alicerces.
  • Como se deu a sua nomeação para chefiar a Representação em Angola?
  • O.M – Em junho de 1974 eu tinha sido designado para acompanhar, como observador, um seminário da OTAN na Universidade de Oxford. Um dos muitos assuntos tratados foi a descolonização da África portuguesa. No que dizia respeito a Moçambique, o consenso era que o processo seria fácil; a colônia era pobre e só um movimento de libertação podia proclamar a independência, a FRELIMO.
  • E em relação à Angola?
  • O.M – Também houve consenso, porém com outro signo: se tratava de uma colônia muito rica e apresentavam-se para receber o poder três movimentos, MPLA, FNLA e UNITA, chefiados respectivamente por Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi. Segundo os prognósticos da OTAN, a disputa seria acirrada e levaria cinco anos para que a independência se concretizasse.
  • Logo depois desse seminário veio o convite?
  • O.M – Veio em novembro de 74. O Embaixador Zappa, meu conterrâneo de Barra do Piraí (município do interior do Estado do Rio),  meu amigo desde a juventude, me disse que o Chanceler Silveira tinha pensado no meu nome para a Representação em Angola.
  • Você aceitou logo?
  • O.M – Fiz algumas perguntas para entender a missão proposta.  Estaria o Brasil querendo influenciar o processo de independência de Angola? Tentaria favorecer algum dos movimentos ou ajudar tentativas neo colonialistas? E se o processo viesse a ser tortuoso, como previa a OTAN? E se, ao final desse processo predominasse justamente o MPLA, que as potências ocidentais julgavam inaceitável?
  • Zappa tinha respostas?
  • O.M – Em relação às primeiras questões, sim. Me disse que o Brasil não tinha nenhuma intenção de moldar a independência de Angola, nem de desvirtuar o processo em favor de Portugal, nem de favorecer um ou outro movimento. Seria isento, neutro. Mas, em relação à última questão, ele tinha dúvidas, mesmo quando o discurso era que o Brasil estaria pronto a reconhecer qualquer um dos movimentos que, sobrevindo a independência, tivesse alcançado o poder.
  • Dúvidas em que sentido?
  • O.M – Dúvidas sobre o que poderia acontecer caso o processo de independência não saísse a gosto de alguns setores da opinião pública brasileira e internacional.Mas, justamente nesse aspecto – julgava ele – era importante a presença do Brasil com a Representação Especial: se estivéssemos em Luanda desde o começo do processo de transição,  mais difícil se tornaria uma guinada súbita em 11 de novembro. Em vista desses argumentos, aceitei a incumbência.
  • Como se deu o seu primeiro encontro com Agostinho Neto?
  • O.M – Foi a bordo de um avião! Eu devia entrevistar-me com ele, na sua qualidade de chefe do MPLA, pois a abertura oficial da Representação Especial exigia a aprovação explícita dos três movimentos, apesar da aprovação que a missão tinha recebido, de maneira informal, nas sondagens prévias.
  • Ou seja que também houve entrevistas com Holden Roberto e Savimbi…
  • O.M – Si, me entrevistei com os três.
  • Bem, voltemos a Agostinho Neto…
  • O.M. – O primeiro encontro aconteceu no marco de uma viagem minha a Tanzânia, anterior ao retorno de Agostinho Neto a Angola. Mesmo tendo sido informado que Agostinho Neto estava viajando, procurei o chefe do escritório do MPLA em Dar-es-Salaam, André Petrov. Soube então que Agostinho Neto retornaria a Dar es-Salaam em breves dias e me receberia com prazer, como recebera Zappa pouco antes, quando o Chefe do Departamento África visitou o continente.
  • Você ficou aguardando em Dar-es-Salaam?
  • O.M – Não, não podia esperar. Outros assuntos exigiam a minha presença em Nairobi. Mas, certo dia, me informaram que Agostinho Neto regressara a Dar es-Salaam, porém, viajaria de novo. Passaria na manhã seguinte por Nairobi, em rápida escala. Só poderia encontrá-lo no aeroporto; uma entrevista curta, entre a troca de aviões.
  • – Houve esse encontro no aeroporto?
  • O.M. – Na verdade, aquela mesma noite, estudando as rotas das poucas companhias que serviam entre Nairobi e Dar es-Salaam, cheguei à conclusão de que Agostinho Neto só poderia embarcar num vôo da East African Airways que passaria de madrugada por Nairobi. Na mesma noite viajei para a Tanzânia, cheguei a Dar es-Salaam e esperei no aeroporto, para voltar a Nairobi no mesmo avião que Agostinho Neto.
  • A estratégia deu certo?
  • O.M – Sim, voltei de Dar es-Salaam sentado ao lado de Agostinho Neto, num avião que estava inteiramente ocupado por dirigentes do MPLA. Iniciava-se, naquele vôo, a primeira etapa do retorno do líder do MPLA a Luanda, que buscava chegar, depois de algumas escalas, no dia 4 de fevereiro. Como é sabido, nessa data, 14 anos antes, o MPLA se sublevara na capital e pela primeira vez atacara as prisões e quartéis portugueses.
  • Como foi a sua conversa com Agostinho Neto?
  • O.M. – Foi muito simpática, num ambiente de contida excitação. É de se imaginar o grande significado político e histórico que esse momento teve para ele e seus correligionários do MPLA!
  • A sua conversa com ele tinha um objetivo específico…
  • O.M. – Sim! Agostinho Neto mostrou-se contente com a nova orientação da politica externa brasileira e concordou com a abertura de uma Representação Especial em Luanda. Aliás, revelou-se muito interessado pela cooperação de todo tipo que o Governo brasileiro pudesse dispensar a Angola, antes, durante e depois da independência.
  • Abordou algum outro tema?
  • O.M. – De maneira muito comedida, discorreu sobre a situação política em Angola.
  • – Algo em particular ficou guardado na sua memória das suas palavras?
  • O.M  -O que mais me impressionou foi a visão ampla e compreensiva de Agostinho Neto sobre os temas abordados. Sobre o futuro das relações do Brasil e Angola, por exemplo, disse estar convencido de que os nossos países – irmanados pela cultura e pela mestiçagem – tinham tudo para o estabelecimento de proveitosas relações comerciais, econômicas, técnicas e culturais. Também percebi que, em 14 anos de guerra, ele não se tornara hostil a Portugal: era adversário, sim, do colonialismo português.
  • O que aconteceu depois?
  • O.M – De Nairobi fui a Angola. Lá visitei o Alto Comissário português, Silva Cardoso, e os três Primeiros Ministros, um de cada movimento. O Alto Comissário português, general da aviação, pareceu-me inadequado para as funções, entre outras razões porque não demonstrava isenção entre os três movimentos: na rápida e afável conversa que tivemos fez acusações a Holden Roberto e Agostinho Neto e afirmou que dos três dirigentes,  Savimbi era “o menos ruim para os portugueses”.
  • Você se entrevistou com Savimbi?
  • O.M – Sim, marquei uma entrevista com ele em Silva Porto (hoje Huambo). O encontro foi num hotelzinho e o local onde Savimbi me recebeu estava apinhado de guerrilheiros pesadamente armados.
  • Como foi a conversa?
  • O.M. – Bastante descontraída. Declarei-lhe qual era a proposta brasileira e nem tinha terminado de explicar a idéia da Representação Especial, ele já tinha aceitado. Falei da cooperação que o Brasil poderia prestar mas fiquei com a impressão de que ele pouco ou nada sabia do nosso país e pouco lhe interessava esse tipo de cooperação. Só me disse que iria pensar no assunto e eu senti que o que ele teria gostado de escutar eu não poderia dizer. Só podia afirmar que o Brasil se propunha a ser isento. Despedi-me logo porque a missão estava cumprida: o Brasil tinha agora também o apoio da UNITA para abrir a representação.
  • E a posição do FNLA? Onde aconteceu a entrevista com Holden Roberto?
  • O.M  – Foi no Zaire. Mas como de lá demorara a confirmação da data, aproveitei esse período em Luanda para conversar novamente com Agostinho Neto.
  • Onde foi o encontro?
  • O.M  – Numa das casas oficiais que antes serviam como moradia de funcionários coloniais, perto do Palácio de Governo. Marquei a entrevista por telefone e ele me recebeu essa mesma tarde. Só havia no local dois guardas, no jardim. Ele mesmo me abriu a porta e me convidou a entrar.
  • Como foi esse segundo encontro?
  • O.M  – Muito agradável. Em primeiro lugar eu cumprimentei-o pela recepção que tivera em Luanda no dia 4 de fevereiro, que eu presenciara. Depois conversamos sobre a cooperação entre Brasil e Angola.
  • Algum projeto concreto?
  • O. M. – Eu tinha estado com o vários ministros do governo de transição, entre os quais o de Planejamento, Saidy Mingas, do MPLA, jovem e culto economista, que tinha grandes expectativas na cooperação bilateral, e com o Ministro da Saúde, Samuel Abrigada, do FNLA. Por ser Agostinho Neto médico achei oportuno trocar idéias com ele sobre os planos de Abrigada, que aspirava a levar para Luanda trezentos profissionais, para lotar os hospitais que pretendia construir, principalmente na fronteira Norte.
  • Agostinho Neto concordou com esse projeto?
  • O.M. – Ele me disse que conhecia o plano e acreditava que se o Brasil tivesse esses trezentos médicos disponíveis com certeza iria enviá-los para a Amazônia, onde seriam muito necessários aos planos de desenvolvimento em curso, refletidos na construção da Transamazônica. Também me disse que o êxodo de médicos portugueses, que lastimava por desnecessário, pouco iria prejudicar o povo. A população negra, mesmo nas áreas urbanas, não tinha acesso a essa medicina. Tratava-se com ervas e chás. E ele desejava que essa medicina africana fosse estudada e revalorizada naquilo que pudesse ter de verdadeiramente cientifico.
  • Aconteceu, finalmente, a entrevista com Holden Roberto?
  • O. M. – Na mesma noite do encontro com Agostinho Neto embarquei para Kinshasa.  A entrevista com Holden Roberto foi dois dias depois, num quartel da FNLA. Levei comigo o Embaixador do Brasil no Zaire, Botelho Barbosa. Holden recebeu-nos cordial e informalmente. Era mais simpático do que Savimbi e foi a tal ponto loquaz que só com certa dificuldade pude expor-lhe a nova politica externa brasileira. Holden concordou imediatamente com a idéia da Representação Especial.
  • Alguma lembrança particular do encontro?
  • O. M.- O narcisismo de Holden Roberto chamava a atenção; ele se apresentava como o único  libertador de Angola. Terminou agitando no ar um documento, o Tratado de Alvor, dizendo: “Quem redigiu este Tratado fui eu.  Eu mostrei a Savimbi que, se estivéssemos juntos, nem os comunistas portugueses nem Agostinho Neto prevaleceriam. Eu redigi todos os artigos deste Tratado…” Em relação à minha missão, estava cumprida. Com o aval dos três movimentos, o Brasil poderia abrir a Representação Especial perante o Governo de Transição.
  • Quando você chegou a Luanda, já como Representante Especial?
  • O.M – Cheguei em 22 de março de 1975. Meu único colaborador, Conselheiro Cyro Espirito Santo Cardoso e a minha mulher, Ivony, chegaram pouco depois. Nos alojamos no Hotel Trópico. Com a experiência de outros postos convulsionados, Ivony resolveu acumular mantimentos. Correu riscos de toda ordem, mas graças a essas providências pudemos sobreviver os seguintes meses, quando a situação se agravou.
  • O Itamaraty ajudou, nessas circunstâncias?
  • O.M. –  O Itamaraty – que pretendia ficar neutro – não estava preparado para aquela situação. Porém, o mínimo que poderia ter feito para ajudar-nos teria sido criar uma força-tarefa interdepartamental, dedicada a apressar a solução dos problemas logísticos e administrativos. Sem esse apoio, faltaram recursos e pessoal e os riscos tornaram-se maiores. No entanto,  a Representação nessa altura chegou a conceder cinco mil vistos por mês para o Brasil e retirou todos os civis brasileiros, utilizando um navio, o Cabo de Orange!
  • Quando ficou claro que o MPLA tinha o controle de Luanda e, nessa condição, seria ele a proclamar a independência, o que ocorre?
  • O.M  – Por essa época, numa fase de relativa paz na cidade, passou por Luanda Italo Zappa, que voltava de uma conferência em Kampala, Uganda. Ficou só umas horas e encontrou-nos a todos os brasileiros da Representação Especial, muito emagrecidos pelas privações passadas e pelo excesso de trabalho. Penalizado com nossas condições físicas, ou influenciado pelo pessimismo de uma rápida conversa que teve com o Primeiro Ministro da Unita, (que ainda figurava no já inexistente Governo tripartite, mas se preparava para sair no dia seguinte) , Zappa propôs-nos simplesmente o fechamento da Representação Especial, tal como os ingleses fizeram com seu Consulado Geral.
  • E você aceitou?
  • O. M. – Claro que não! Opus-me firmemente! Se em março havíamos chegado a Luanda com promessas de isenção e neutralidade entre os três movimentos, como voltar atrás agora que o MPLA se aprestava, com indiscutível apoio popular, a assumir o poder? Se nos retirássemos, estaríamos rompendo toda uma política, sem ter qualquer outra para substituí-la. E não seríamos perdoados tão cedo por essa defecção.
  • Zappa aceitou esses argumentos?
  • O. M. – Me deu a razão e embarcou no dia seguinte.
  • E como ficou a sua situação?
  • O.M –  Coloquei claramente para o Itamaraty que não seria cabível errar. Ou reconhecíamos o governo do MPLA na primeira hora ou me davam instruções para retirar-me imediatamente de Angola, com a Representação Especial e todos os funcionários brasileiros. Finalmente, dois dias antes das festas programadas, recebi a decisão do Itamaraty para ser comunicada ao governo local: o Brasil reconheceria o Governo de Luanda por declaração a ser dada à imprensa em Brasília às oito horas do dia 10 de novembro dado que, pela diferencia de fuso horários, naquele momento seria meia-noite em Angola, exatamente quando o MPLA estaria assumindo o poder. Na mesma data, informara-me o Itamaraty, seria assinado o decreto que criava a Embaixada do Brasil em Luanda. Transmiti o recado ao Primeiro-ministro do MPLA, Lopo do Nascimento. A notícia causou grande impacto e alegria no MPLA.
  • Até quando você ficou em Angola?
  • O.M – Fiquei até janeiro de 1976. Depois do dia da Independência muitas coisas aconteceram. Tão pronto esse reconhecimento foi anunciado – e ainda mais quando foi confirmada a presença de tropas cubanas em Angola – os setores mais conservadores da opinião pública se agitaram. Não aceitavam a nossa presença do lado dos países socialistas e, em particular, de Cuba.
  • Como reagiu o Itamaraty?
  • O. M. – O Embaixador Zappa, com uma nítida visão da importância da imprensa nas relações internacionais, procurava explicar ao público brasileiro, através dos jornalistas que diariamente o procuravam, o sentido da posição de equanimidade adotada pelo Brasil e a necessidade de manter firme essa posição se quiséssemos ter relações corretas e frutuosas, a longo prazo, com o continente. Mas no próprio Itamaraty Zappa encontrava críticas ao diálogo com a mídia e, na verdade, a Chancelaria calava-se diante da campanha que forças nacionais e estrangeiras moviam contra o reconhecimento de Angola. Certamente os Embaixadores dos países socialistas acreditados em Brasília alertavam o MPLA em relação ao que aqui vinha acontecendo.
  • Quando foi aberta efetivamente a Embaixada em Luanda?
  • O. M. – Com a informação recebida em 10 de novembro, eu fixei na porta do até então Consulado uma placa com a palavra Embaixada. Porém, estava alheio ao fato que em torno desse assunto criara-se, no Brasil, também uma dura polêmica. Representativo do impasse interno foi o telegrama particular que me enviou o Chanceler Silveira, afirmando que  se  encontrava sob fortes pressões pela atitude que tomara no reconhecimento de Angola,  que o Decreto que criava a Embaixada em Angola sequer tinha sido levado para o general Geisel, que com a minha insistência na necessidade de cumprir a palavra empenhada estava “atrapalhando” o processo e o melhor era permanecer de baixo perfil, sem ver nem contactar ninguém em Angola e que enquanto o impasse continuara iria me desempenhar como Encarregado de Negócios!
  • Mas você não tinha sido nomeado já Embaixador em Angola?
  • O.M. – Tinha sido nomeado Embaixador Especial para a solenidade da Independência, pois a representação anterior tinha status especial. Para servir na nova Embaixada tinha que ser designado, especialmente, um embaixador, que podia ou não ser eu.
  • Qual foi a sua reação ao telegrama do chanceler?
  • O.M. – Respondi  no mesmo dia e no mesmo tom. Mostrei que se tinha aceitado permanecer em Luanda durante um ano de guerra para construir um relacionamento sério do Brasil com  Angola independente, não podia agora estar atrapalhando o processo, e que quanto às pressões sobre ele, as suportasse com a mesma disposição com que eu enfrentara um ano de guerra, lembrando a ele que segundo tinha ouvido dos angolanos, as relações futuras com a África dependiam da atitude firme que o Brasil tivesse na sustentação do reconhecimento de Angola independente. Finalmente, disse-lhe que não poderia ser Encarregado de Negócios depois de ter sido nomeado Embaixador para o 11 de novembro. E que se não estivesse contente com a minha atuação, me desse ordem de regresso ao meu posto em Londres ou ao Brasil.
  • – E foi, de fato, substituído?
  • O.M. – Depois de outra troca de telegramas, em tom diferente – num dos quais eu elogiava a política africana que ele, Silveira, de fato iniciara – recebi instruções para deixar Luanda. Seria substituído por Affonso Celso de Ouro Preto, sub-secretário, colaborador de Zappa, que era, de fato, uma excelente designação para Encarregado de Negócios.
  • Aí se deu o seu retorno a Londres?
  • O.M. – Na verdade, não ainda, porque quando cheguei a Lisboa estava me aguardando um telegrama com ordens de voltar a Luanda. Relutei muito em voltar, tive uma irritada conversa telefônica com Zappa e com Silveira, e aceitei apenas por mais alguns dias. É que tinha que esclarecer a razão pela qual o nome de Ouro Preto havia sido recusado. E era porque ele tinha um meio-irmão, mais velho, Carlos Silvestre, que fora Embaixador em Portugal na época de Salazar e durante visita a Angola, nos anos 60, fizera um destemperado discurso de cunho colonialista. O MPLA confundira os dois irmãos. Como a decisão da recusa tinha sido do Biro Político do MPLA, só o mesmo órgão, que se reuniria o último dia de 1975 podia revogar a decisão. Por isso fiquei em Luanda até 6 de janeiro de 1976 e não voltei mais.
  • Quando foi criada a Embaixada?
  • O.M. Na virada do ano de 1975 para 1976. E o reconhecimento de Angola e das outras ex-colonias portuguesas foi citado num parágrafo do discurso de fim de ano do general Geisel. Aliás, corrigido o equívoco por parte do MPLA, compareci em Luanda à festa de fim de Ano no Palácio do Governo, acompanhado de Ouro Preto, e pude apresentar o novo Encarregado de Negócios a todos os meus conhecidos do MPLA, ao mesmo tempo em que me despedia e escutava do Presidente Neto elogios à isenção que eu havia demonstrado naquele período e agradecimentos pelo reconhecimento que o Brasil foi o primeiro país a conceder a Angola.
  • A sua experiência, marcante, de fato mostra de que forma tortuosa se escreve a história…
  • O.M. – Tão tortuosa que só em 2006 eu vim a tomar conhecimento – através de documentos que o Ministro Silveira tornou públicos em depoimento ao Centro de Documentação da Fundação Getúlio Vargas – de dois telegramas trocados entre o Embaixador Zappa e o próprio Silveira. É que, ao contrário do que tinha dito para mim, Zappa enviou a Silveira um telegrama desde a África do Sul, a escala antes de regressar ao Brasil depois da visita a Luanda, recomendando que fosse fechada a Representação Especial e repatriados todos os brasileiros que lá estávamos. O outro era a resposta de Silveira. O chanceler me dava a razão, já que Zappa teve a honestidade de colocar que eu era contra essa possibilidade. E afirmava que não pouparia esforços para tentar assegurar a integridade física de todos nós.
  • Que respaldo teria tido Silveira para se manter firme nessa posição? Seria essa uma decisão pessoal?
  • O.M  – De fato, Silveira entendera perfeitamente que – apesar do alto preço que estava sendo pago pela criação da Representação oficial – ao ponto que pela primeira vez na história do Brasil o Itamaraty e o Ministério da Guerra, então ocupado por Sílvio Frota, estavam em discordância, recuar a essa altura teria sido um grande equívoco. Porém, tenho a impressão, é uma intuição pessoal, que foi o próprio Geisel quem com a sua conhecida firmeza, exigiu de Silveira e de Zappa a manutenção da decisão do reconhecimento de Angola, mesmo depois que os cubanos desembarcaram em Luanda após a proclamação de Agostinho Neto.

*Beatriz Bissio é


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Beatriz Bissio

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