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Beija-Flor: Tropa de Elite na avenida (ou a campeã de 2013)

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

E o que vimos na avenida na última escola a desfilar? Uma enxurrada de problemas jogados como forma de “protesto”, mas sem uma interpretação. Quem é a “Pátria Amada”? “Somos filhos de quem”?

Quando terminou o desfile de 2018 da Beija-Flor eu e meu companheiro nos entreolhamos com uma cara de “que coisa bizarra foi essa?”. Digo isso só pra marcar que o meu desconforto foi imediato. Durante o desfile, eu só conseguia lembrar do filme Tropa de Elite, por se tratar de uma obra igualmente artística que se desenrolou no cenário do Rio de Janeiro.

Por Verônica Lima (*)

O filme, sobretudo o primeiro, expõe ao limite a violência policial no Rio de Janeiro, buscando “humanizar” a questão, mas cai no que eu vou chamar aqui de “superexposição” do problema, com uma falta de responsabilidade interpretativa perigosíssima. Porque em Tropa de Elite o problema é do “sistema”, e não se nomeia esse sistema. Existem trabalhos, textos, artigos, vídeos e muita produção crítica sobre o conservadorismo de Tropa de Elite, e depois posso fazer uma atualização com bons links ao final (contribuições são bem-vindas). Mas a questão é que a “crítica pela crítica” de Tropa de Elite gerou e ainda gera uma onda conservadora vide o endeusamento da pior faceta da personagem Capitão Nascimento, e com direito a reforço de estereótipos e discursos rasos e fascistas (como o horroroso “bandido bom é bandido morto”).

E o que vimos na avenida na última escola a desfilar? Uma enxurrada de problemas jogados como forma de “protesto”, mas sem uma interpretação clara. Quem é a “Pátria Amada”? “Somos filhos de quem”? Aposto que alguns responderiam “o sistema”, o mesmo do filme. Fora os estereótipos reforçados: a maioria dos “bandidos” interpretados pela escola eram negros, a tradução de “crime” era sempre algo espetacularizável como roubos e assassinatos, fora a criminalização da prostituição (adoraria ver a Monique Prada escrevendo sobre isso), entre outras questões retratadas de forma bem simplória.

Num momento, o desfile me lembrou mesmo um telejornal da Globo, essa mesma que exaltou o desfile, e esqueceu a ligação da escola com a contravenção até hoje (incrivelmente, o estranho Josias de Souza escreveu sobre isso). E qual é a estratégia da midiatização dos telejornais? Encher o noticiário de tragédias, criar um clima de medo paralisante, apenas pincelando discussões sobre as raízes do problema. Depois tem a novela pra reforçar os estereotipos, pra vender o ideal de sucesso. Depois tem Big Brother pra ter assunto extra. E aí no dia seguinte mais tragédia, mais medo, etc e tal. Essa é outra questão que é muito bem trabalhada por muitos analistas, e que podemos chamar de anestesia social.

Foi isso que a Beija-Flor fez, deu uma anestesia no povo, fez a galera cantar a plenos pulmões, com um samba catártico e bonito, sim (embora alguns especialistas em carnaval não tenham gostado). Quem não quer cantar que se sente abandonado num contexto social em ruínas em tantos aspectos? Mas a evolução da agremiação de Nilópolis deixou um buraco na avenida, para usar uma expressão carnavalesca: quem é, ou quem constrói essa Pátria Amada, cara pálida?

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Cena do filme Tropa de Elite à esquerda. Cena apresentada em um dos carros da Beija-Flor, à direita

Um desfile de 2013, num campeonato de 2018 (muito bem representado por outras escolas)

Impossível não lembrar dos protestos de 2013, “contra tudo e contra todos”, que acabou em outra onda conservadora arrematada pelo golpe político-midiático de 2016 e as deturpações da operação Lava-Jato. Quando não se dá nome aos bois, quando não há posicionamento claro, a manipulação ganha espaço, e o conservadorismo (de todos os lados) também.

Nesse sentido, o desfile da Beija-Flor me pareceu uma viagem temporal: poderia ter sido facilmente apresentado em 2013, naquele clima difuso. Diferentemente dos desfiles de outras escolas, super conscientes do que estamos vivendo hoje: Paraíso do Tuiutí (chamada por alguns como a grande campeã desse ano, e que retratou a cara do racismo VIVA, bem VIVA, e os verdadeiros monstros que bebem o sangue da nossa gente), Mangueira (com sua crítica inteligente ao desmonte das verbas do carnaval por parte da prefeitura), Salgueiro (com o enredo sobre a força da mulher negra), e até mesmo Portela (que embora sem grandes enfase, falou do preconceito com migrantes, um problema sempre presente dentro e fora do Brasil).

Interessante observar que essa identificação com os protestos se refletiu claramente nas alegorias e até em alas da Beija-Flor. Por exemplo, um único carro (se não me engano, o penúltimo) trazia, no mesmo “balaio”, a questão da transexualidade (Pablo Vittar representando), a violência no esporte (com bailarinos fazendo uma apresentação numa réplica de campo de futebol), prostitutas, entre outras coisas que eu devo não estar lembrando, de tanta coisa que tinha. E o que eram as ruas em 2013 senão uma “geléia geral” sem foco? Depois devidamente aproveitadas pra reforçar estereótipos e posições simplistas que não chegaram nem perto de instalar uma discussão efetiva e madura sobre o que seria uma reforma política, muito menos de enfrentamento real dos problemas sociais que castigam nosso país.

E o desfile da Beija-Flor vai chegar a esse mesmo não-lugar. Não à toa a Globo está celebrando tanto esse título. Festejarão até o desfile das campeãs, e depois voltarão ao anestesiamento com as tragédias, sem discussão eficaz sobre o que poderia ser transformado de verdade. No samba, a Beija-Flor chama um difuso “você que não soube cuidar, que negou o amor” a aprender com escola. Mas, no fim, ela só reproduziu a velha estratégia da crítica pela crítica. Os holofotes que fizeram “o menino que você abandonou” (olha o interlocutor indefinido, aí gente!) brilhar na avenida, são os mesmos que se apagam todos os dias pras raízes dos diversos problemas que vemos.

Meu cunhado resumiu, na manhã de ontem: “falou de tudo, mas não falou de nada”.

Confira o desfile:

(*) é jornalista e pesquisadora


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Revista Diálogos do Sul

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