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Bob Dylan, 80 anos: conheça a história por trás de suas mais expressivas canções de protesto

Testemunhar uma injustiça e não fazer nada para impedi-la é a mesma coisa que cometê-la, disse o artista sobre a música Blowing In The Wind
Danilo Nunes
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Tempos difíceis os que estamos vivendo, não? Por isso se torna cada vez mais necessário usarmos todas as ferramentas de comunicação e interação possíveis e impossíveis para que possamos nos unir, nos formar e informar sobre os acontecimentos e os riscos do momento que ameaça nossa democracia e nossas vidas.

Para isso, além de todos os novos meios de comunicação e suas formas recentes que se intensificaram dentro do isolamento social decorrente da covid19, temos a arte. Sim, a arte. 

Instrumento de comunicação que vem se mostrando cada vez mais poderoso e capaz, por meio dos seus agentes (artistas), fazendo-se presente no novo cotidiano da sociedade, engajando e mobilizando cada vez mais a população em seus métodos simbólicos e atraentes.

Não é de hoje que essa ferramenta cultural se mostra capaz de revolucionar as estruturas se (re) significando e se (re) adaptando às mudanças e transformações naturais e/ou direcionadas pelo próprio sistema, estando sempre na vanguarda das lutas, resistência e defesa dos direitos sociais.

Uma de suas formas é o que acontece no segmento musical denominado Música de Protesto que se apresenta como uma forma de se fazer música abordando temas sociais, políticos e econômicos presentes nos momentos históricos em que vive a humanidade, entendendo o passado para resistir no presente, construindo o futuro desejado e comum a todos (as) os (as) cidadãos (ãs). Um tipo de música que questiona, denuncia e gera reflexão por parte da população que a consome estimulada pelo artista que a concebe e apresenta.

Testemunhar uma injustiça e não fazer nada para impedi-la é a mesma coisa que cometê-la, disse o artista sobre a música Blowing In The Wind

Reprodução: Dena Flows
A música de Bob Dylan foi moldada para as gerações futuras e abriu o caminho para vários gêneros que viriam depois

O artista, por si só já, por necessidade de sua profissão e ofício, vivencia e alimenta-se da constante busca pela experiência humana através da observação e reflexão, o que o leva à prática filosófica, praticando cada vez mais a reflexão e o questionamento sobre o ser, o espaço e o sistema. Neste artigo, quero falar da Música de Protesto através da vida e obra de um dos maiores artistas da música mundial: Bob Dylan.

Bob Dylan

Bob Dylan, que completou 80 anos no dia 24 de maio, teve algumas de suas composições utilizadas como música de protesto, como veremos a seguir.

Robert Allen Zimmerman, o Bob Dylan, nasceu no dia 24 de maio de 1941 em Duluth, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos. Ele além de ser músico, cantor e compositor, também é ator, pintor, escritor e artista visual. Atua na arte há mais de cinquenta anos e possui canções e temas que se tornaram hinos na voz do povo. 

Dylan compôs sua primeira canção de protesto The Death of Emmett Till denunciando assassinato do homem um negro Emmett Till, que ocorreu no Mississipi, em 1955. 

Já em Talkin John Birch Paranoid Blues, protestava contra John Birch Society, grupo anti-comunista fundado em 1958. 

Em A Hard Rain’s A-Gonna Fall, Dylan protesta contra a crise de mísseis em Cuba, falando sobre a guerra nuclear. 

A crítica às matanças das guerras e o massacre de indígenas nativos em seu país e dos mexicanos são questionados em With God On Our Side.Funeral de Emmett Till / Winkiemedia 

A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos é tema da canção The Times They Are A-Changin.

O assassinato da garçonete negra de 51 anos, mãe de onze filhos Hattie Carrol por um homem branco foi retratado e questionado na canção The Lonesome Death Of Hattie Carrol

Já em junho de 1963, um organizador de manifestação pelos direitos civis dos negros Medgar Evers foi morto por um racista branco da classe trabalhadora no Mississipi. Dylan protestou com a música Only a Pawn In The Game, mas esse protesto musical abrangeu também toda a infraestrutura social que apoiava a segregação no sul. Hattie Carrol  foi capa dos jornais da época / Dylanesco 

A crítica agressiva à indústria bélico-militar-industrial que dá linha à política externa norte-americana veio com a canção Master Of War

Já o acontecido com do ativista negro George Jackson, preso e morto, foi alvo de crítica com a canção George Jackson

Dylan escreveu Hurricane em 1975, depois de ler a autobiografia do boxeador Rubin Carter, preso por um assassinato que afirmava não ter cometido. 

Mas foi em Blowing In The Wind que Bob Dylan atingiu e continua a atingir cada vez mais gerações que vão chegando como público e consumidor das canções de protesto. Uma canção que nasceu a partir de uma discussão política em que Dylan participou e foi composta, em abril de 1962, no The Commons, em Greenwich Village uma casa noturna em Nova Iorque em apenas dez minutos. 

Segundo Dylan, a canção não nasceu com o objetivo de protesto, mas de reflexão. E como afirmou Bob Dylan: Testemunhar uma injustiça e não fazer nada para impedi-la é a mesma coisa que cometê-la. “A ideia veio a mim de que você é traído por seu silêncio, de que todos nós, nos EUA, que não nos manifestamos, estamos sendo traídos por ele”, afirmou mais tarde, segundo Nigel Williamson, autor de O Guia do Bob Dylan.

Pois é, como disse, a arte tem papel fundamental nas lutas por direitos civis e sociais e no combate à desigualdade. No Brasil e no mundo, sempre esteve na vanguarda das lutas e resistência. 

Onde há injustiça perante a sociedade, lá estaremos nós, artistas, músicos, poetas, atores para questionar, criticar e informar toda uma população que é alvo do sistema capitalista neoliberal que busca formas de alienação e emburrecimento de um povo. 

Enquanto acreditamos na ferramenta da arte como veículo de comunicação para provocar a consciência de classe de todos (as) nós. Parabéns artistas. Parabéns, Bob Dylan pelos seus 80 anos!Mural de Detroit com o rosto de Bob Dylan / Flickr 

Para finalizar, deixo a vocês uma playlist de Bob Dylan e suas canções de protesto. É só clicar e apreciar!

  1. The Death of Emmett Till

  1. Talkin’ John Birch Society

  1. A Hard Rain’s A-Gonna Fall

  1. With God On Our Side

  1. The Times They Are A-Changin

  1. The Lonesome Death of Hattie Carrol

  1. Only a Pawn in Their Game

  1. Masters of War

  1. George Jackson

  1. Hurricane

  1.  Blowing in the Wind

Danilo Nunes é músico, ator, historiador e pesquisador de Cultura Popular Brasileira e Latino-americana.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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