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Bolívia: moradores de El Alto condenam “Áñez assassina” e polícia despeja bombas

O candidato Luis Arce (MAS), que lidera disputa pela presidência, declarou que "é insustentável que crimes como estes permaneçam impunes"
Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Duas sessões de honra que comemoravam os 35 anos de fundação de El Alto, “a mais jovem cidade boliviana”, onde ocorreu no ano passado o massacre de Senkata, foram encerradas nesta quinta-feira com moradores, familiares e vítimas entoando “Áñez assassina” e jogando ovos, tomates, lixo e pedras na autointitulada presidenta e seus partidários.

Rechaçando a presença da autointitulada presidenta Jeanine Áñez, as primeiras confrontações se deram lugar na zona 25 de Julho do Distrito 8, durante a Sessão de Honra da Câmara de Senadores, e a segunda na Ceja, após a sessão do Conselho Municipal.

Áñez chegou sob forte escolta policial e após discursar na sessão de honra do Conselho, dizer que “o tempo de violência havia terminado” e fazer promessas de  “100 milhões de dólares” que viriam para El Alto – sem explicar sobre os cortes já praticados nos recursos para a saúde, educação e segurança -, foi enfaticamente vaiada.

Diante da intensidade do protesto dos populares que tomaram as passarelas próximas ao local, as centenas de policiais militares que cercavam a governante tentaram garantir sua saída com violência e despejaram bombas de gás de forma indiscriminada.

Respondendo à agressão, manifestantes acabaram danificando os vidros de vários veículos governamentais e obrigando Áñez – – que também é candidata à Presidência nas eleições de 3 de maio – a fugir, fortemente escoltada e, literalmente, pela porta dos fundos.

Outra confrontação ocorreu no bairro de Senkata, quando os golpistas tentaram instalar uma sessão do Senado e moradores repudiaram a presença do forte aparato militar e exigiram a saída de senadores “vende-pátria” como Oscar Ortiz. Ex-candidato à presidência, Ortiz foi financiado pela Embaixada dos Estados Unidos, identificado como um dos artífices do golpe contra o presidente Evo Morales, sendo atualmente defensor da candidatura de Áñez.

Para reprimir o protesto em Senkata também foi lançada uma enorme quantidade de bombas tóxicas que atingiram estudantes do Colégio 25 de julho, obrigando que fossem liberados, evacuados e tratados.

O candidato Luis Arce (MAS), que lidera disputa pela presidência, declarou que "é insustentável que crimes como estes permaneçam impunes"

Los Tiempos
Moradores protestaram das passarelas próximas ao local em que se encontrava a autoproclamada presidenta Áñez e foram brutalmente reprimidos

Cinegrafista foi preso

Cobrindo os relatos dos abusos do enorme contingente policial, que chegaram inclusive a ocupar os tetos dos prédios vizinhos, o cinegrafista Rene Huarachi, da Rádio e Televisão Bartolina Sisa, foi preso na tentativa de impedir a veiculação de imagens que incriminassem o governo.O cinegrafista Rene Huarachi, da Rádio e Televisão Bartolina Sisa, foi preso na tentativa de impedir a veiculação de imagens (LaResistencia.Info) 

“Está mal que a Polícia atue contra as crianças. Eles não têm nenhuma culpa. Porque vieram jogar bombas nas pessoas e estas crianças não merecem porque esta é apenas uma escola”, declarou uma vizinha enquanto prestava socorro aos pequenos. O relato foi registrado pelos jornais, mas a pessoa ficou receosa de identificar-se.

Imagens mostram pais acendendo cigarros e tentando acender fogueiras para que a fumaça neutralize o efeito do gás lacrimogêneo que afetou as crianças.

A presidenta do Senado, Eva Copa, “repudiou totalmente o ato, pois a Polícia atuou de forma abrupta ao jogar gases, sabendo que há uma escola na frente”. Dirigente do Movimento Ao Socialismo (MAS), do candidato à Presidência Luis Arce, ex-ministro da Economia de Evo Morales, Copa assegurou que logo o tempo em que “se trata a população como selvagens” será página virada.

O massacre de Senkata

No dia 19 de novembro de 2019 em Senkata, havia muita fumaça e helicópteros em El Alto e Jeanine Áñez determinou uma megaoperação policial-militar para retomar a unidade da Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB), nacionalizada pelo governo Evo e ocupada por manifestantes contrários ao golpe, A ação resultou em um massacre em que morreram oficialmente 10 manifestantes e 30 ficaram feridos à bala.

Fartamente documentada, a covardia foi qualificada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas como “grave violação aos direitos humanos”. Apesar da eloquência das provas -, Áñez condecorou os responsáveis da Unidade Tática de Operações Especiais de La Paz com a “Medalha do Valor”, por sua “participação pacífica para recuperar a democracia no país”.

Arce: “Queremos justiça”

Como tem sustentado Luis Arce, que lidera a disputa pela presidência, é insustentável que crimes como estes permaneçam impunes. “Somos povos de paz, não nos move o ódio nem a vingança, queremos justiça e não descansaremos até lográ-la”, sustentou.

Membro da Assembleia Permanente de Direitos Humanos em El Alto, o ativista David Inca denunciou o terrorismo de Estado praticado pelos golpistas e alertou para “os riscos da campanha de silenciamento, perseguições e ameaças” desencadeada contra jornalistas, “com o objetivo de invisibilizar as vítimas”.

“Quem está conseguindo romper o cerco midiático é a imprensa internacional, pois a mídia nacional está tendo uma relação comercial, mercadológica, que informa à medida que o veículo recebe publicidades do governo, censuras ou ameaças”, frisou.

Leonardo Wexell Severo é jornalista e colaborador da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Leonardo Wexell Severo

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