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Bolsonaro e militares ignoraram denúncias sobre a situação dos indígenas Yanomami

Membros das FFAA inclusive montaram estrutura para avisar criminosos da mineração quando alguma ação que poderia prejudicá-los
Claúdio di Mauro
Diálogos do Sul
Uberlândia (MG)

Tradução:

A história dos vencedores, sobre a descoberta e ocupação das Américas, tem sua base na chegada nas Antilhas dos espanhóis na figura do genovês Cristóvão Colombo em 12 de outubro de 1492. Sua viagem foi custeada pela coroa espanhola, o que lhe dá os méritos de descobridor.

Mas a chegada de Colombo não foi o momento em que se iniciou a ocupação do Continente Americano. Calcula-se que cerca de 40 milhões de pessoas viviam na América. Por isso, a ideia de que a América foi descoberta por Colombo ou mesmo por Américo Vespúcio é considerada como eurocêntrica. Ou seja, se entendia que a América só começou a existir de fato depois da chegada dos europeus que a teriam “colonizado”. 

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A chegada dos europeus no continente americano também é considerada por historiadores como uma invasão, repleta de violência contra os territórios que já eram ocupados por povos nativos ou originários. 

Na América do Norte, a chegada do navio Mayflower, britânico, aconteceu em 1620. Sir Walter recebeu a incumbência da Rainha da Inglaterra para efetivar a colonização. Iniciada a implantação das Colônias em terras da América do Norte, houve a mesma preocupação de exterminar os povos indígenas. Os colonizadores europeus expulsaram ou exterminaram os povos que viviam nessas regiões. 

Isso demonstra que as colonizações europeias, na América, sejam as feitas pelos católicos portugueses e espanhóis ou pelos protestantes ingleses, tinham o objetivo de conquistar e introduzir seus modos de vida, sem aceitar as diversidades dos povos que aí viviam. 

Membros das FFAA inclusive montaram estrutura para avisar criminosos da mineração quando alguma ação que poderia prejudicá-los

Jubileu Sul
Com a designação de uma Ministra que cuide dos temas associados à essas populações que estiveram invisibilizadas, poderemos ter o recomeço

Na América do Norte, na América Central e Caribe, bem como na América do Sul o modelo de ocupação foi de exterminar as populações das Nações Indígenas. Sendo assim, milhões de seres humanos considerados empecilhos para a “civilização europeia” foram mortos, vítimas de genocídios generalizados. 

Conquistadores, brancos em nome das monarquias britânica, espanhola e portuguesa, católicas e protestantes, agiram de maneira genocida, criminosa, na prática do extermínio dos povos que viviam nas Américas, para estabelecer o controle e a estrutura de poder desses territórios. 

Frei Betto | Carta de quaresma 2023: em defesa do Povo Yanomami

O caso brasileiro, componente das conquistas portuguesas, teve o mesmo caráter. A chegada dos portugueses foi uma verdadeira catástrofe para os povos indígenas aqui existentes. A matança para o extermínio se deu na ocupação com a cana de açúcar, especialmente nas áreas da costa do País e, em seguida, as doenças trazidas pelos europeus se incumbiram de matar outro tanto.

Os indígenas foram escravizados e se tornaram a base para a economia dos tempos coloniais. Dos cerca de 5 milhões de indígenas existentes quando os portugueses iniciaram seu processo de extermínio, hoje temos cerca de 450 mil esparramados pelo país. Um verdadeiro genocídio que nunca foi interrompido, mas que agora tem continuidade, por exemplo, com a tentativa de exterminar com a Nação Yanomami. 

As histórias de nossos municípios brasileiros, quase sempre ignoram o fato de que neles viviam indígenas que foram exterminados. Isso aconteceu no Estado de São Paulo, em Minas Gerais, na Bahia.

Essas populações que por aí viviam são invisibilizadas, ignoradas, como se não houvessem existido na história. No máximo tais pessoas eram entendidas como seres que precisavam ser civilizados, para se adaptarem à cultura ocidental. Com esses procedimentos, os territórios foram invadidos por homens brancos e as populações indígenas expulsas quando não foram mortas. 

Regularizar indústria da mineração para “proteger” indígenas é falácia

Com esses fatos históricos perdem-se as experiências de povos que habitaram os territórios brasileiros e das Américas durante centenas de anos. Povos que aprenderam a sobreviver com as condições inerentes à natureza. Os brancos, de origem europeia, criminosamente se instalaram com o objetivo de dominar a natureza e lhe impor seus usos e costumes. São acarretadas as verdadeiras catástrofes que presenciamos nos dias atuais.  

Com relação aos povos indígenas da Amazônia, o governo Bolsonaro recebeu pelo menos 20 pedidos de ajuda, denunciando a situação de sofrimento daquelas pessoas. A ignorância dos alertas foi absoluta. Certamente intencional. 

O Exército brasileiro também recebeu essas denúncias, não as ignorou. Ficou do lado dos garimpeiros que atuavam em terras indígenas, poluindo as águas com mercúrio e, como dizem, “comendo a vagina das nossas mulheres”…

Militares montaram uma estrutura para avisar os criminosos da mineração, quando havia algum tipo de providência que poderia prejudicá-los. Militares ficaram do lado dos garimpeiros, contra os interesses das Nações Indígenas. Aliás, como predominou a atuação para exterminar os povos indígenas, ao longo da história de genocídio. 

Agora, com a designação de uma Ministra que cuide dos temas associados à essas populações que estiveram invisibilizadas ou foram vítimas do extermínio, poderemos ter, em outras bases, o recomeço.

O Brasil e toda a América têm imensa dívida social com os povos indígenas. Com os escravizados indígenas ou negros africanos. Está na hora da reparação. Também está na hora de se dedicar à memória de nossa história a partir desses povos que estiveram até aqui e sofreram tantas perdas.

Cláudio Di Mauro | Geógrafo e colaborador da Diálogos do Sul.


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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Claúdio di Mauro

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