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Bolsonaro não está calado: dossiê do bolsonarismo após derrota nas eleições

Futuro ex-presidente joga para dois lados: para ele servem tanto os atos de rua golpistas como uma oposição dentro das regras do jogo
Redação Passa Palavra
Passa Palavra
São Paulo (SP)

Tradução:

Entramos quase no primeiro mês em seguida à divulgação dos resultados das eleições de 30 de outubro, que confirmaram a vitória de Lula. Numa primeira leitura do cenário que se abria, tentamos encontrar algumas tendências e construir hipóteses em torno delas; numa segunda leitura do cenário, feita enquanto ele se desenvolvia, vimos que as hipóteses se mostraram adequadas, e poderão ser úteis para organizar os fatos que se sucedem freneticamente. Seguiremos alinhavando os fatos com a mesma linha.

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O discurso lacônico de Bolsonaro no dia 1º de novembro, onde se esperava encontrar alguma palavra de reconhecimento do resultado das eleições, disse tudo e nada ao mesmo tempo. Jogando com a ambiguidade, Bolsonaro manteve até há poucos dias prudente silêncio, inclusive nas redes sociais. A mídia corporativa, por sua vez, forçava a mão na interpretação para buscar, nas entrelinhas do tudo e do nada, qualquer sinal de assentimento. Sua tentativa: aplainar as ambiguidades do discurso do presidente, esculpindo assim uma posição em favor da legitimidade do processo eleitoral — posição que o próprio Bolsonaro nunca explicitou. 

O enorme esforço, baldado pelo silêncio do presidente, pretendeu demover seus seguidores de acorrer às portas dos quartéis em contestação explícita ao resultado das eleições. Quase um mês depois de encerradas as eleições, o presidente mantém estrepitante silêncio em público — como na cerimônia de formatura da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em 26 de novembro, onde não discursou (como é seu hábito) — mas articula-se muito fortemente nos bastidores.

Quem se diverte com o silêncio do governante deve prestar mais atenção: Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL), por onde Bolsonaro concorreu à presidência, dá testemunho de que o silêncio de Bolsonaro não é tão silencioso quanto parece. Segundo o político, o presidente “telefona quase todos os dias […] pressionando-o para que tome uma medida judicial contestando o resultado das eleições presidenciais”. O resultado hoje sabemos: o PL ajuizou representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo para invalidar votos decorrentes de urnas dos modelos de 2009, 2011, 2013 e 2015, que teriam “desconformidades irreparáveis de mau funcionamento”. A invalidação dos votos destas urnas, disse o PL, resultaria num cenário em que Bolsonaro seria reeleito com 51,05% dos votos, contra 48,95% de votos para Lula. O PL se colocou em situação complicada, porque o TSE foi rápido em exigir a extensão do pedido também ao uso das urnas no primeiro turno. Não querendo pôr em risco a votação que lhe deu a maior bancada no Congresso (99 deputados e 8 novos senadores, além dos 5 que já tinha), o PL manteve sua posição de restringir a invalidação aos votos do segundo turno; como resposta, o TSE decretou a inépcia do pedido, condenou o partido a pagar multa de R$ 22,9 milhões por má-fé (ou seja, por usar o processo para tumultuar), e mandou incluir o nome de Valdemar Costa Neto no famigerado “inquérito das fake news”.

Se é certo que a fidelidade de Valdemar Costa Neto a Bolsonaro só deve durar até a posse da bancada do PL recém-eleita, o episódio revela como Bolsonaro em seus últimos dias de mandato nada tem de “pato manco”; pelo contrário, tem ainda força suficiente para colocar numa rota suicida o partido que tomou de assalto, pela simples necessidade de forçar até o limite a tese da fraude eleitoral. Aliás, é notório que Bolsonaro anda articulando as manifestações golpistas em meio a seu silêncio públicoconversa com manifestantes, dá notícias sobre o estado de saúde de Bolsonaro, coordena a articulação com políticos e manifestantes para interligar a oposição institucional e os atos de rua

Bolsonaro, como se vê, não está em silêncio.

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Mesmo com tão grande demonstração de força, sob uma ótica de mais longo prazo trata-se dos últimos estertores de um governo que se encerra. Bolsonaro sabe que, fora do Estado, não terá um movimento de massas à sua permanente disposição, como tem agora. Se, no poder, pôde mobilizar em seu favor um movimento que existe e não existe ao mesmo tempo, fora dele precisará de alguma estrutura, porque não mais disporá da máquina pública, tampouco servirá a este movimento como cabeça de ponte dentro do Estado. Sabe que sua eleição foi circunstancial, porque o eleito foi, mais do que ele, o “antipetismo”.

Por isso, Bolsonaro tenta montar um Principado de Elba redivivo, cercando-se de recursos. Em mais uma prova de força momentânea sobre o partido que tomou de assalto, muito provavelmente sob chantagem dos 50 correligionários recém-eleitos, Bolsonaro arrancou de Valdemar Costa Neto um cargo remunerado no PL (Bolsonaro está, pela primeira vez em décadas, sem mandato), além de moradia em mansão no Lago Sul (bairro nobre de Brasília) e escritório político, tudo custeado pelo PL por fora da remuneração; em paralelo, Bolsonaro já está viabilizando suas aposentadorias, que lhes garantirão outros R$ 42 mil mensais. É com estes recursos — iniciais, diga-se — que Bolsonaro, longe de sua base eleitoral tradicional no Rio de Janeiro, pretende viabilizar sua permanência como liderança de oposição ao governo Lula logo nos primeiros dias sem mandato.

Eduardo Bolsonaro com Steve Bannon

Bolsonaro arquiteta, também, o que deixará no campo institucional ao sair. Age como a tropa derrotada que, ao retirar-se do campo de batalha arruinado, espalha minas e booby trapscontra as tropas vencedoras que avançam, para abater seu moral. Além de nomear dois novos ministros ao STJ e seguir empossando gente em cargos intermediários da administração pública, promoveu dez generais-de-exército, e articula a eleição de um assecla para a sucessão de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) na presidência do Senado, para que este eventual sucessor atenda-lhe o pedido de impor ao STF anistia a ele, a seus familiares e aos golpistas que se aglomeram nas estradas e nos quartéis.

Futuro ex-presidente joga para dois lados: para ele servem tanto os atos de rua golpistas como uma oposição dentro das regras do jogo

Marcello Casal JrAgência Brasil
Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, disse conversar diariamente com Bolsonaro

Além disso, há a articulação internacional do bolsonarismo. Por meio de seu filho Eduardo, Bolsonaro busca há certo tempo reforçar laços com a Conservative Political Action Conference (CPAC)em 30 de outubro Eduardo esteve em Mar-a-Lago, mansão do ex-presidente e aliado de Bolsonaro, Donald Trump, onde teria se encontrado com Steve Bannon, estrategista político da extrema-direita internacional, e Jason Miller, empresário e estrategista das comunicações do próprio Donald Trump em sua campanha presidencial de 2016. Suspeita-se que o próprio Steve Bannon tenha orientado Bolsonaro a contestar o resultado das eleições.

Engane-se quem quiser: Bolsonaro não está em silêncio.

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Seguimos com a hipótese de que, em fim de mandato, Bolsonaro joga para os dois lados: para ele, servem-lhe tanto as manifestações de rua, os bloqueios de estradas e os acampamentos em frente aos quartéis quanto uma oposição parlamentar adestrada às regras do jogo político constitucional, ou que aparente sê-lo. Mesmo fraturado por disputas internas e brigas de família, o núcleo duro bolsonarista segue firme na construção de seu próprio futuro político, usando todas as armas à sua disposição.

Para posicionar-se no cenário político ao fim de seu mandato e evitar o ostracismo, Bolsonaro conta com duas armas principais. Tem um braço institucional, composto pelos milhares de militares espalhados em cargos públicos por todo o Executivo, pela Polícia Rodoviária Federal, por parte da Polícia Federal — que é mais “lavajatista” que bolsonarista, distinção que não se deve esquecer — e pela bancada parlamentar recorde recém-eleita na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Tem, também, um braço militante, sem qualquer laço orgânico além dos grupos de WhatsApp e Telegram, respondendo ao sabor do momento a certos chefes mais reconhecidos. O próprio Bolsonaro tende a agir, agora que será sucedido por Lula, como uma espécie de vertedouro: caso o próximo governo, e sobretudo os tribunais, ajam de maneira a isolar ou eliminar do tabuleiro político o movimento radical por ele capitaneado, Bolsonaro poderá orientar — desta vez sem ambiguidades — a massa enraivecida a tomar as ruas, colocando contra a parede o governo, os tribunais e os militares, que se arrogam a função de mantenedores da ordem. Caso isso não ocorra, Bolsonaro continuará agindo dentro da institucionalidade, mas criando constrangimentos ou tentando obstruir o governo sempre que possível, minando sua credibilidade e governabilidade e, é claro, produzindo desinformação. Episódios de violência e intimidação aqui e ali representariam, assim, uma tentativa de manter a chama do radicalismo acesa, mas sob controle, como numa forja, Bolsonaro tendo as mãos sobre o fole.

Assista na TV Diálogos do Sul

As duas armas políticas à disposição de Bolsonaro são usadas, neste momento, de acordo com certo “plano”: primeiro, paralisar as estradas para criar um fato político; depois, aglomerar-se nas portas dos quartéis para pressionar as Forças Armadas (FF. AA.) a dar um golpe para impedir a posse de Lula (PT); por último, o esgotamento das vias institucionais de questionamento do resultado das eleições, encurralando tanto os manifestantes de rua quanto os militares.

Para que este “plano” desse certo, Bolsonaro precisava de algum fato político para aproveitar os últimos dias no comando do Estado. Não pretendia deixar o comando do Estado sem desestabilizar o novo governo antes mesmo da posse. Sua decisão tresloucada de contestarjudicialmente o resultado das eleições no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é motivo de piada na internet, mas sinaliza a passagem da segunda para a terceira fase desse “plano”: testa, pela ação, os limites reais da estratégia institucional, e atiça o ânimo da militância de rua quanto aos fatos que vão se sucedendo. Deste ponto em diante, escasseiam os meios para contestação institucional dos resultados eleitorais, e alarga-se o caminho para o golpismo aberto. Estariam os asseclas do “capitão” à altura da missão?

Qualquer que seja a resposta, um fato se impõe: Bolsonaro não está em silêncio.

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Tanto o recurso quanto a multa imposta pelo TSE municiaram o braço institucional do bolsonarismo com fatos a “criticar”.

Por comporem a chapa pela qual Bolsonaro concorreu à reeleição, o Partido Progressista (PP) e o Republicanos foram igualmente condenados pelo TSE à multa milionária, mas argumentaram, para fugir à punição, que “não foram consultados” sobre o processo e “reconhecem o resultado das eleições”; o TSE acatou o argumento e livrou-os da multa, onerando apenas o PL com a punição. Não se sabe até que ponto esse “racha” entre PP, Republicanos e PL é pontual ou mais profundo, mas há evidentes problemas de relacionamento. Se é natural esperar uma rota de colisão entre estes partidos e o novo governo, porque abrigam parlamentares em franca oposição ao candidato vencedor, há grandes chances de que sua oposição se fará por fora da hierarquia bolsonarista: baterão juntos, mas marcharão separados. O PL, por sua vez, unificou-se: antes da multa havia atritos entre a ala bolsonarista recém-chegada e os membros do “centrão” que a precedeu no partido, mas a multa uniu as duas alas pela sobrevivência do partido.

Hamilton Mourão, vice-presidente em fim de mandato, eleito senador pelo Rio Grande do Sul, disse em reação à multa imposta ao PL pelo TSE que se trata de “vingança”, e que é hora de a “direita conservadora” agir contra a “esquerda revolucionária”. O deputado Marcel Van Hattem (NOVO-RS), por sua vez, solicitou abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra supostos abusos de autoridade por parte de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do TSE, tentando reverter ou questionar medidas como bloqueio de contas bancárias de 43 pessoas suspeitas de bancar manifestações golpistas; bloqueio a redes sociais de parlamentares bolsonaristas, por onde incitavam e coordenavam o apoio às mesmas manifestações; mandados de busca e apreensão contra empresários abertamente defensores de um golpe militar para impedir a transmissão do poder por Bolsonaro; e decisões do STF e do TSE contra a rede de comunicações Jovem Pan, cujo tratamento desigual dos candidatos durante as eleições era notório, e contra a produtora olavista de audiovisual Brasil Paralelo, que pretendeu lançar durante as eleições documentários capazes de influenciar seu resultado, porque apresentavam um misto de fatos comprovados e interpretações distorcidas em desfavor de Lula.

Ainda que a voz seja de seus correligionários, vê-se, mais uma vez, que Bolsonaro não está em silêncio.

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O outro lado da moeda é a ruidosa e delirante agitação golpista nas estradas e em frente aos quartéis das FF. AA., que perduram desde o anúncio do resultado das eleições.

Tem sido comum dizer que tais manifestações são “bolsonaristas”. Seguindo a hipótese de que o voto em Bolsonaro foi mais um “antipetismo” que um voto programático em Bolsonaro (porque programa, que é bom, não havia nenhum), apresentamos um panorama ligeiramente diferente, porque mais específico. Na nossa leitura, as manifestações não evidenciam a existência de um “bolsonarismo” coeso. 

O que se vê nas ruas e nos quartéis, inclusive com perfis diferentes em cada um desses palcos, é a atuação vanguardista e agressiva de grupos econômicos e sociais tradicionalmente envolvidos com a extrema-direita brasileira — CACs, setores do agronegócio, garimpeiros, extrativistas, policiais e militares (da ativa ou aposentados), agentes de segurança, artistas marciais, milicianos, etc. — agitando e mobilizando outros grupos mais amplos, mas sensíveis às pautas e temas da direita — neopentecostais fundamentalistas, “empreendedores” (periféricos ou não), setores da classe média empobrecidos nos últimos oito anos, “lavajatistas”, “olavistas”, etc. É, ainda, um movimento que existe e não existe ao mesmo tempo, a mostrar na prática do que é capaz quando agitado — e como desaparecerá quase sem rastro ao fim da agitação.

Bolsonaro evita assumir qualquer compromisso explícito ou ligação com esta ala radical, porque constantemente assombrado pelo fantasma de Jeanine Añez

Assista na TV Diálogos do Sul

Levantamos a hipótese de que, na vitória de Lula, o voto “antibolsonaro” teria tido muito mais peso nessas eleições que um voto programático, ideológico, em Lula. Somente para ficarmos nos caciques que compõem o amplo arco de alianças visto nas eleições mais recentes, não se pode cogitar Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Pérsio Arida, Armínio Fraga, Monica de Bolle, Simone Tebet, André Janones, Renan Calheiros e outros que declararam voto em Lula como gente convertida ex todo corde aos documentos e resoluções programáticos do “socialismo democrático” defendido pelo PT (ver aqui e aqui). O mesmo vale para amplas parcelas do eleitorado, que votaram em Lula mais para “tirar Bolsonaro” que, necessariamente, por qualquer simpatia com a esquerda.

Complementamos agora a hipótese com duas outras, uma mais evidente e outra que dela se infere.

Dos resultados eleitorais observa-se que foi invertido o cenário das eleições de 2018, em que o voto “antipetista” parece explicar mais a eleição de Bolsonaro que uma afinidade ideológica ou programática com o então candidato. Infere-se daí, olhando para o resultado desta eleição e da anterior, que a inversão é de sinais, não de lógica: a rejeição segue determinante para os resultados, e as eleições presidenciais no Brasil se transformaram numa “disputa de rejeições”, onde é menos comum votar por afinidades com o programa de um candidato e mais comum votar nele para tirar do poder alguém que desagrada. Esta “disputa de rejeições” obnubila a claríssima linha que separa os fascistas do resto, mascara as inúmeras clivagens que se vão reproduzindo em meio à população. As tendências que separam os interesses concretos das classes sociais, ainda mais nítidas que a linha divisória entre “fascistas” e “progressistas”, vão misturadas no mesmo saco.

A tentativa de lançar luzes sobre essas linhas e tendências passa por tentar construir dois campos, determinados por tendências antagônicas caracterizadas pelos limites máximos de tolerância a certas práticas. De um lado, há quem defenda, no limite, valores e práticas tendentes ao universalismo, ao cosmopolitismo, ao laicismo, à solidariedade, ao coletivismo e ao igualitarismo econômico, político e social. De outro, há quem defenda valores e práticas tendentes aos particularismos, ao nacionalismo, ao fundamentalismo e integrismo religioso, ao individualismo solipsista, às muitas formas de perpetuação das desigualdades e assimetrias econômicas, políticas e sociais, e à distorção caritativa da solidariedade. São tendências muito amplas, propositalmente amplas, para tentar captar a diversidade dos campos políticos que se colocam em oposição. Nem está em discussão nesta construção de campos, por exemplo, o que vem a ser “anticapitalismo”, porque se está a falar da prática de pessoas para quem isto não faz, até o momento, sentido algum. Para piorar, há momentos em que tais tendências se cruzam, mostrando, assim, pontos de convergência onde se podem encontrar práticas contraditórias. Não pretendemos dar qualquer nome a estes campos que não venha da própria prática. Deixamos, assim, inominados os campos, porque assim se percebe melhor o fluxo de pessoas e práticas entre um e outro.

Estes campos antagônicos rasgam e dividem toda a sociedade brasileira. Dilaceram Igrejas, onde se pensava haver absoluto predomínio do bolsonarismo, mas mostram um movimentocrescente rumo aos templos onde se verifica neutralidade política. Separam famílias, onde as tradicionais divergências políticas se transformaram em brigas irreconciliáveis. Em cidades de vários portes, anima a criação de listas de boicote contra certas empresas e profissionais identificadas como “petistas”, havendo mesmo cidades onde bolsonaristas pressionam empresas e profissionais que julgam “petistas” a identificar seus locais de trabalho com uma estrela do PT — mimetizando assim o nazismo (neste último aspecto, em que diferem estes boicotes daqueles que se pretendeu promover, não muito tempo atrás, contra empresas apoiadoras de Bolsonaro?). Os antagonismos que rasgam a sociedade brasileira afetam até os escoteiros, pobres coitados, cuja recente revisão de princípios colocou em lados contrários, com as ofensas e paranoias de praxe, os que consideram como um de seus três pilares ou “Deus”, ou a “vida espiritual”.

Conteúdo que circula nas redes

Bolsonaro age no segundo dos dois campos, agitando-o antagonicamente contra o primeiro. Este segundo campo não precisa de Bolsonaro para existir, mas acolheu-o, ainda que provisoriamente, como elemento de coesão e como cabeça de ponte no Estado. Por comodidade, vamos chamá-lo de bolsonarismo, sem aspas, quando nos referirmos ao “núcleo duro” bolsonarista “raiz” (o próprio Bolsonaro, sua família e alguns cúmplices mais próximos); e de “bolsonarismo”, com aspas, para nos referirmos aos eleitores e apoiadores do presidente, porque parte daquele campo mais amplo, muito mais diverso que o bolsonarismo “raiz”. Provavelmente o “bolsonarismo” terá alguma sobrevida depois das eleições, com ou sem o próprio Bolsonaro — mas Bolsonaro faz de tudo para ficar na crista da onda deste campo mais amplo, porque ele, sim, é o fato relevante.

Aquilo de que falamos, entretanto, ainda não tem nome; a definição desses campos, ademais, ainda é tão provisória e frágil que será necessário bastante tempo até relacionar estas práticas com as classes sociais onde se radicam. Mas os campos estão aí, diante de nós, e não podemos nos furtar a reconhecê-los.

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Se Bolsonaro tenta fincar os pés no campo instável de um movimento a quem talvez já não sirva como antes serviu, por trás dele projeta-se a sombra dos militares. A missão da ONU no Haiti e a intervenção federal no Rio de Janeiro tiveram sobre o regime instituído pela Constituição de 1988 papel semelhante ao da Guerra do Paraguai no reinado de Pedro II: fortaleceram o espírito de corpo das FF. AA. e deram-lhe delirante senso de “missão”, retomando conexões com o pior entulho ideológico da mística militar brasileira (do positivismo ao olavismo, passando pela doutrina da segurança nacional). As relações entre Bolsonaro e a cúpula das FF. AA., por sua vez, sempre foram muito tensas, recuperando-se apenas quando a Comissão da Verdade ameaçou abrir o armário onde militares de alto escalão e seus mentores esconderam os esqueletos com que construíram suas carreiras. Eleito Bolsonaro em 2018, sob o pretexto de “economia de salários” (porque todo militar já é funcionário público), militares foram espalhados em cargos federais de todos os tipos, dobrando sua presença no serviço público federal entre 2016 e 2020, sem contar os ministérios, cargos de alto escalão e a proximidade com o próprio presidente. Há quem se pergunte se foi Bolsonaro quem usou os militares ao chegar ao poder, ou se foram os militares quem usou Bolsonaro para retornar, de fato, ao poder; em fim de mandato, essa pergunta, que pareceu perder o sentido, ganha novas dimensões.

Bolsonaro sempre condicionou a aceitação do resultado das eleições à palavra das Forças Armadas. Com isso, ganhou inaudita centralidade o famigerado relatório do Ministério da Defesa sobre as urnas eletrônicas, enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 9 de novembro. Produzido na mais absoluta irregularidade — porque não é da competência do ministério dar parecer sobre eleições — ele foi ambíguo o suficiente para gerar uma guerra de notas públicas. Primeiro saiu uma nota do TSE dizendo que o relatório não apontou qualquer fraude. A nota do TSE foi logo respondida por outra, do Ministério da Defesa, em que a pasta afirma, com base no relatório, não ser possível “assegurar que os programas que foram executados nas urnas eletrônicas estão livres de inserções maliciosas que alterem o seu funcionamento”.

A guerra de notas, ao mesmo tempo em que se mantém nas “quatro linhas da Constituição”, estimula os delírios dos bolsonaristas radicais, porque o relatório sugere aperfeiçoamentos, sobretudo para evitar a possibilidade de “acesso à rede, durante a compilação do código-fonte e consequente geração dos programas”, algo que tem sido repetido por Bolsonaro e os bolsonaristas diariamente. Assim, o relatório favorece, ao mesmo tempo, a radicalização nas ruas e a oposição institucional.

Em meio à guerra de notas entre o TSE e o Ministério da Defesa poucos dias depois das eleições, os comandantes das três Forças Armadas aproveitaram a ocasião para dar seu pitaco na conjuntura por meio de outra nota, em que legitimaram as manifestações em frente aos quartéis e tiros de guerra, e mandaram recado ao Judiciário (em especial ao STF) para não interferir nelas. Esta nota em especial tem sido interpretada na imprensa brasileira de várias formas. A Folha vê nela “recado ao Judiciário”, e afirma que ”[p]ara o generalato, a manifestação nos QGs traz um pedido ilegítimo para uma insatisfação legítima”. O UOL, via Thais Oyama, vai na mesma linha. O Correio Braziliense, via Denise Rothenburg, engrossa o coro. O Estadão fez matéria puramente declaratória. A Globo divulgou a nota na mesma linha que adotou desde a primeira manifestação pública de Bolsonaro ao fim da eleição: enquadrar qualquer declaração do bolsonarismo e seus aliados nos marcos de uma resignação com o resultado eleitoral, e condenar as manifestações nas estradas e nos quartéis. A CNN vai mais longe na interpretação, afirmando tratar-se a nota de “apoio à democracia e ao estado democrático de direito”.

Nesta nota está dito, literalmente, algo que cientistas políticos especulam há algum tempo: as Forças Armadas brasileiras arrogam para si aquela instituição sui generis, verdadeiro câncer absolutista, que foi o poder moderador. Basta ler a nota, que está lá, no trecho destacado: “acerca das manifestações populares que vêm ocorrendo em inúmeros locais do País, a Marinha do Brasil, o Exército Brasileiro e a Força Aérea Brasileira reafirmam seu compromisso irrestrito e inabalável com o Povo Brasileiro, com a democracia e com a harmonia política e social do Brasil, ratificado pelos valores e pelas tradições das Forças Armadas, sempre presentes e moderadoras nos mais importantes momentos de nossa história”. A “sombra” do poder moderador, extinto pela constituição brasileira de 1891, perdurou na República principalmente por causa dos militares, porque seu oficialato aprendeu nas escolas da Praia Vermelha, do Realengo e das Agulhas Negras que eles, militares, são a encarnação deste poder. O fato de finalmente dizerem-se “moderadoras” em público, num momento de altíssima tensão interinstitucional, expressa como as FF. AA. estão à vontade em dizê-lo, tão certas estão do exercício deste suposto poder. É como quem diz: “vocês passam, eu fico”. Esta minúcia institucional reforça ainda mais o insuflamento às duas vertentes do “bolsonarismo” — porque, no fundo, toda a agitação da extrema-direita brasileira em torno do artigo 142 da Constituição, vez que o “bolsonarismo” caracteriza-se também por sempre tentar manter a aparência de respeito à legalidade em meio às agitações golpistas e às pretensões ditatoriais, é uma forma velada de suplicar às Forças Armadas que exerçam o poder moderador sob a forma de um golpe de Estado.

A nota mostra, pelas palavras da cúpula, o que acontece em toda a corporação de cima a baixo. Embora o general da reserva Carlos Alberto Santos Cruz, oposicionista a Bolsonaro desde sua expulsão do governo por pressões da ala olavista, assegure que “nem o governo e nem a população” precisam temer o compromisso das FF. AA. com o regime democrático, basta olhar para o noticiário mais comezinho e ver como oficiais da ativa do Exército atacam Lula, Alckmin e o STF. No Ceará, por exemplo, o comandante da 10ª Região Militar, general André Luiz Ribeiro Campos Allão, diz que protegerá os participantes “mesmo que existam ordens de outros poderes no caminho contrário”. No Tribunal de Contas da União (TCU), órgão civil de controle externo da administração pública, um de seus ministros, Augusto Nardes, teve vazado um áudio em que, afirmando ter “muitas informações”, diz estar “acontecendo um movimento muito forte nas casernas”, e que “é questão de horas, dias, no máximo, uma semana, duas, talvez menos do que isso”, para um “desenlace bastante forte na nação, [de consequências] imprevisíveis, imprevisíveis”; outros ministros do TCU apressaram-se em afirmar que tudo não passava de um blefe, associações de integrantes dos Tribunais de Contas lançaram nota conjunta em repúdio, o PT ameaçou o ministro com notícia-crime no STF, e no fim das contas o ministro pediu licença do TCU por motivos médicos — sem desmentir o conteúdo do áudio.

Embora, de fato, a nota dos militares contenha uma concepção das FF. AA. enquanto “poder moderador”, não podemos deixar de notar, por outro lado, que ela descarta explicitamente qualquer intervenção militar, seja contra a transferência do poder a Lula, seja contra os manifestantes (se os manifestantes não tivessem desbloqueado as estradas e a polícia tivesse mantido o apoio ativo ou passivo aos bloqueios, a única alternativa seria uma intervenção militar; o pronunciamento dos militares foi no sentido de que isso está fora de cogitação).

O “poder moderador” dos militares exerce-se com muito maior sutileza. Compare-se a nota dos comandantes ao tuíte ambíguo do general Villas Bôas às vésperas do julgamento do pedido de habeas corpus de Lula em 2018, justificado posteriormente, num livro escrito pelo general, como tentativa de se antecipar a possíveis “consequências do extravasamento da indignação que tomava conta da população”: Villas Bôas escreveu que “tínhamos [o Alto Comando das Forças Armadas] aferição decorrente do aumento das demandas por uma intervenção militar”, e por isso “era muito mais prudente preveni-la do que, depois, sermos empregados para contê-la”. Ou seja, se o que Villas Bôas escreveu for verdade, o tuíte em questão, antes de uma ameaça de golpe, foi uma pressão sobre o STF para que não tomasse uma decisão que jogasse mais lenha na fogueira, causando uma rebelião violenta que obrigaria os militares a intervir. Na prática, o tuíte foi um exercício deste “poder moderador” inconstitucional — assim como tuíte recente em que chama as manifestações golpistas de “democráticas”.

A nota de agora tenta fazer o mesmo, ao pretender dar uma direção à luta política que “não os obrigue” a uma intervenção militar. Afirmam, de um lado, que o resultado das urnas terá de ser respeitado e os “excessos” dos manifestantes reprimidos; de outro, dizem que as manifestações, desde que não resultem em violência de rua, são “legítimas” e o Judiciário deve abster-se de usar medidas de exceção contra os bolsonaristas.

Se este cálculo “moderador” realmente se passa na cabeça do alto oficialato brasileiro, poderá haver, em breve, choques entre militares e a expectativa dos manifestantes que lhes atazanam o juízo em frente aos quartéis e sedes de tiro de guerra. Insatisfeitos com o que consideram ser uma lentidão dos militares em atender aos “apelos do povo”, manifestantes começaram a divulgar nos meios de comunicação da extrema-direita retratos de generais acusados de serem “comunistas”, entre eles Valério Stumpf (chefe do Estado-Maior do Exército), Tomás Miné Ribeiro de Paiva (comandante militar do Sudeste), André Luiz Novais (comandante militar do Leste), Richard Nunes (comandante militar do Nordeste) e Guido Amin (chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército). Em resposta, o Comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes, encarregou o general José Ricardo Vendramin Nunes, Chefe do Centro de Comunicação do Exército, de divulgar um comunicado interno em defesa dos generais acusados de serem “melancias” (ou seja, “verdes por fora e vermelhos por dentro”).

Em novo exercício da “moderação”, em 24 de novembro Bolsonaro reuniu-se com os comandantes das FF. AA. em 24 de novembro para discutir a decisão do TSE. Não é um ponto fora da curva: Bolsonaro habitualmente se reúne com a cúpula das FF. AA. a cada crise — como em 26 de outubro, ao ver desmontadas suas alegações falsas de boicote à sua campanha por rádios do Nordeste. Não se sabe o que discutiram nesta reunião mais recente, mas há quem diga que os militares desaconselharam qualquer reação contra o TSE.

***

Enquanto isso, a classe trabalhadora assiste a tudo isso bestializada, atônita, surpresa, sem conhecer o que significa — dizem alguns. Vê tudo isso como se fosse, seriamente, uma transição de governo normal — dizem outros. Ora, quem sente fome, medo e o peso do desemprego e das dívidas sabe que nada disso faz bom agitprop. Pelo contrário: intimida, desnorteia, fragmenta, faz desconfiar da própria sombra.

Em meio ao ensurdecedor silêncio da classe trabalhadora, de quem se esperava alguma contestação a tudo o que se sucede, fenômeno muito curioso começou a se dar nos grupos “bolsonaristas”. Alguém teve a ideia de produzir lá dentro curto-circuitos, veiculando exatamente aquilo que os “bolsonaristas” querem ouvir, mas contendo elementos absurdistas, duplo sentido, etc., de modo a ridicularizar completamente a informação, e quem nela crê.

Alguns exemplos:

1) “Notícia” informa uma “lista de militares e juristas” que confirmaram a fraude eleitoral: Alan Bida Nossako, Andressa Colindo, Botelho Pinto, Cíntia Amin Avara, Crispin Tinho, Cuca Beludo, Dayde Costa, Diva Gina Berta, Elba Tiúma, Eva Gabunda, H. Romeu Pinto, Isadora Bocchetti, entre outros nomes “sugestivos”.

2) Outra “notícia” com bastante circulação em certos grupos afirma que um certo “general Eulino Zahpi” (Ou seja, “eu li no zap”. No Brasil popularizou-se o diminutivo zap para o aplicativo WhatsApp) estaria com “as provas” da “fraude eleitoral”, e que as levaria a público “amanhã”. (Outra característica dessas “notícias” é que tudo sempre acontecerá “amanhã”.)

3) O lutador de MMA Victor Belfort, celebridade entre bolsonaristas, caiu na pegadinha de que um certo “general Benjamin Arrola” (ou seja, “beija a minha rola”, vulgarismo para pênis no Brasil) denunciaria a fraude em breve.

4) Outra “notícia” diz que certo funcionário da Corte de Haia, que dizem se chamar “Norman Cohen” teria um “relatório completo” sobre a “fraude” nas eleições, que seria divulgado — como sempre — “amanhã”. Acontece que, como era de se esperar, há uma foto a ilustrar a “notícia”; é do falecido cantor e compositor Leonard Cohen.

Estaria em curso uma operação difusa de “contra-contrainformação”? Se for este o caso, tudo indica que funciona, pois confunde (ainda mais) a própria máquina descentralizada do bolsonarismo, o suficiente para desmoralizá-la parcialmente.

Este fenômeno parece ser o uso sistemático daquilo que o filósofo Rodrigo Nunes chamou num artigo de “hiperidentificação”, e que teve seu evento mais conhecido aqui no Brasil no episódio da “piroca inflável” durante a manifestação golpista de 7 de setembro de 2021 (ver aqui, aqui, aqui). Outro acontecimento marcante nesse sentido foi a mobilização de jovens americanos que reservaram milhares de ingressos para o comício de Donald Trump e não compareceram, transformando o evento num fiasco (ver aqui, aqui, aquiaqui e aqui). Se puxarmos um pouco mais no tempo, é o tipo de coisa que o personagem Borat fazia. Ao levar certas ideias ao seu limite, exagerando-as, elas se mostravam absurdas e condenáveis. Em muitos casos é uma crítica mais eficaz do que a mera oposição de ideias “falsas” e “verdadeiras”. É o uso do humor e da inteligência contra um inimigo que age como um “troll” de internet.

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Por outro lado, o “império da quinta série” (como vem sendo chamada a prática por alguns) pode ser simplesmente uma continuação menos domesticada do “janonismo cultural”, nome com que a campanha de Lula disfarçou a atuação de seu aliado, o deputado André Janones (Avante-MG), na condução de parte das estratégias de comunicação. Janones massificou na campanha do PT seu “estilo agressivo” — eufemismo para o uso intensivo de notícias falsas, boataria desabrida e teorias da conspiração — para horror de críticos liberaise do próprio campo bolsonarista. O “império da quinta série” parece ser apenas a continuidade do janonismo cultural.

***

No correr destes dias, esse “império da quinta série” parece, além disso, ser a tônica daquele outro campo que saiu vitorioso nas eleições. Alguns ainda estão inebriados com a vitória de Lula no segundo turno, e dedicam-se ao escárnio dos “bolsonaristas” que se aglomeram nas portas dos quartéis e sedes de tiro de guerra. Poucos levam a sério a possibilidade de um golpe de Estado a beneficiar Bolsonaro ou qualquer um do outro campo, restringindo o que veem diante de si a questões psicológicas ou psiquiátricas individuais, sem perceber como mesmo isso pode ser objeto de manipulação em contextos mais amplos de análise. A aparência caricata de um movimento social ou político não deve ser tomada como sinal de ausência de perigo; foi assim que foram deixando Olavo de Carvalho alargar incólume e inconteste seu âmbito de influência ao longo dos anos, porque era “um cara que ninguém sério leva a sério”. O resultado está aí para quem quiser ver.

Com este ensaio, pretendemos apresentar uma espécie de “soma e segue” das movimentações do “bolsonarismo”. Ao compreender melhor os estertores da derrocada do governo Bolsonaro, esperamos ter conseguido desenhar as linhas gerais das tendências que mobilizarão nos próximos anos. 

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