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"Bolsonaro quer uma saída autoritária e ruptura institucional no país", diz Guilherme Boulos

Há método e estratégia nessa loucura. Ele não age como todos os outros presidentes da Nova República que tentaram construir governabilidade, diz
Marco Weissheimer
Sul 21
Porto Alegre (RS)

Tradução:

Há método e estratégia na loucura de Bolsonaro. Ele não age como todos os outros presidentes da Nova República que tentaram construir governabilidade e maioria social, mas sim dirigindo-se a uma minoria extremista, com o objetivo de radicalizá-la e para alimentar um tensionamento constante na sociedade. No fundo, Bolsonaro quer uma saída autoritária e uma ruptura institucional no país. A avaliação é de Guilherme Boulos, candidato do PSOL à presidência da República em 2018 e uma das lideranças do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Em entrevista ao Sul21, Boulos faz um balanço dos oito primeiros meses do governo Bolsonaro, chama a atenção para as táticas militares usadas pelo atual presidente em sua ação política (como a do bombardeio de saturação) e aponta o que considera ser o principal desafio para a esquerda e a oposição em geral nos próximos meses:

“Depois de oito meses, nós já percebemos como é que eles agem. Se, num primeiro momento, existia, para usar uma palavra do Moro, a escusa desse método ser uma novidade, agora não existe mais. O caminho para a esquerda brasileira agora é criar um movimento contra o governo Bolsonaro como um todo. Não dá para criar um movimento em torno apenas de agendas específicas do governo, pois ele trata dessas agendas adotando a tática do bombardeiro de saturação. Se você fica só correndo para apagar incêndios dessas agendas específicas, você acaba perdendo o foco. Precisamos criar um movimento que diga ‘Chega de Bolsonaro’, um movimento nas ruas para enfrentar e derrotar o governo Bolsonaro, a sua agenda e a sua política.”

Sul21: Estamos completando quase nove meses de governo Bolsonaro. Como você definiria esse governo e a situação que o Brasil vive hoje?

Guilherme Boulos: Já ficou muito claro que o Bolsonaro tem um projeto de destruição nacional. Ele não tem um projeto para governar o Brasil, para construir maiorias na sociedade ou para construir um diálogo e algum tipo de coesão institucional. Ao contrário, o projeto dele é de destruição. Para tanto ele usa inclusive táticas militares de guerra que utiliza recorrentemente no seu discurso e na sua prática política para atacar pilares historicamente construídos na sociedade brasileira.

Gostaria de destacar alguns pontos que considero especialmente graves e que apareceram na agenda neste período. O primeiro diz respeito à soberania nacional. O governo que se elegeu com o lema ‘Brasil acima de tudo’ é o governo mais lesa pátria da nossa história recente. Entregou a base de Alcântara, no Maranhão, fez um discurso patriótico em relação à Amazônia, mas, pouco antes, disse que pretendia explorá-la conjuntamente com os Estados Unidos, promoveu um alinhamento incondicional da nossa política externa, subordinando-a ao governo de Donald Trump, e está entregando o pré-sal e outros recursos ao capital estrangeiro. É um governo de entrega e destruição nacional, portanto.

Além disso, temos um ataque brutal aos direitos humanos e sociais, a toda rede de direitos que foi construída em torno da Constituição de 1988. O que o Brasil teve de início de Estado Social está sendo aceleradamente desmontado. Atinge também a legislação trabalhista, que é muito anterior à Constituição de 88. A proposta do governo Bolsonaro incluiu o fim do descanso remunerado aos domingos. Ele fala em legitimar o trabalho infantil, em combater os mecanismos de prevenção e punição do trabalho escravo. A tal da carteira verde amarela representa o fim de qualquer direito. Tudo isso se expressa, desde a Reforma Trabalhista aprovada pelo governo Temer, no tipo de emprego que tem sido gerado no Brasil. Mais de 80% dos empregos gerados nos últimos dois anos são informais e precários.

A Reforma da Previdência aprovada, ainda que tenha sido menos ruim que a proposta original de Paulo Guedes, é muito perversa, fazendo com que a Previdência atue como mais um elemento concentrador de renda e não distributivo. Isso terá um impacto na vida das pessoas. Os trabalhadores mais pobres perderão pensão por morte, aposentadoria por invalidez, vão se aposentar mais tarde ganhando menos.

Por fim, temos um profundo ataque à democracia no brasil. O Bolsonaro é, sim, uma ameaça à democracia. Democracia não significa meramente respeitar o jogo eleitoral. É uma prática cotidiana que envolve respeitar a oposição, os direitos e as liberdades. A atuação do governo Bolsonaro é predatória neste sentido. Ele ataca e desrespeita as oposições, defende os valores e a memória da ditadura, chama o Ustra de herói nacional, ofende a memória dos perseguidos e mortos pela ditadura, como foi o caso de Fernando Santa Cruz e do pai da ex-presidente chilena Michele Bachelet. Ele também legitimou aquele tuite desastroso do filho Carlos Bolsonaro dizendo que não há mudanças rápidas pela via da democracia. A todo momento, ele dá um passo além no sentido de testar o ambiente democrático brasileiro, já tão deteriorado.

Por outro lado, não dá para falar sobre o que representam esses oito meses e meio de governo sem também constatar o desgaste acelerado de Bolsonaro e do seu grupo político. Em oito meses, ele perdeu mais da metade do seu capital político. No dia 1° de janeiro, ele tinha 60% de aprovação. Hoje tem 29%. Isso é resultado de sua prática de governar acirrando o núcleo mais raivoso da sua torcida organizada. Ele não governa para o povo brasileiro. Você já ouviu o Bolsonaro falando alguma vez sobre emprego ou sobre educação, que não fosse sobre cortes,  ideologia de gênero ou para atacar professor? Alguém já viu o Bolsonaro falar sobre o SUS? Os temas essenciais que interessam ao povo brasileiro estão fora da agenda dele.

“Há uma degradação da base de apoio do governo, que coloca o país numa situação de crise política”. (Foto: Giulia Cassol/Sul21)
 
Ele não fala para as maiorias, mas para radicalizar uma minoria extremista. Isso, obviamente, tem impacto. Um setor que até votou nele com a expectativa de que as coisas iriam mudar, que ele iria acabar com a corrupção e que a vida iria melhorar está começando a descolar. Até porque quem votou nele com o argumento anti-corrupção já viu o caso Queiroz, os laranjas do PSL, a vinculação das milícias com a morte de Marielle, os escândalos envolvendo Flavio Bolsonaro e a compra de votos a favor da Reforma da Previdência com R$ 40 milhões de emendas parlamentares. Há uma degradação acelerada da base de apoio do governo Bolsonaro, o que coloca o país numa situação de crise política. As resistências ao governo também começaram a crescer. Se a esquerda brasileira ficou nas cordas no primeiro semestre, agora ela começa a sair das cordas. A oposição começa a ter um rumo mais claro até pela completa desorientação e perda de apoio do governo Bolsonaro.

Você se referiu ao grupo político de Bolsonaro. Em meio a esse processo de perda de apoio e dissidências, quem é mesmo o grupo político de Bolsonaro hoje?

O governo Bolsonaro é uma aliança precária de um amontoado de grupos políticos e econômicos. Os principais grupos econômicos que sustentam o governo Bolsonaro são o capital financeiro, que tem Paulo Guedes como seu maior representante, e o agronegócio que está no governo representado pela Teresa Cristina e está sendo amplamente atendido da maneira mais selvagem com liberação desenfreada de agrotóxicos, mineração em terras indígenas e devastação da Amazônia.

Há método e estratégia nessa loucura. Ele não age como todos os outros presidentes da Nova República que tentaram construir governabilidade, diz

Foto: Giulia Cassol/Sul21
“A pauta da defesa da liberdade de Lula é parte da agenda democrática do país”

Dentro desse grupo, temos também o lavajatismo representado pelo Moro no governo, que está em crise e em conflito aberto com Bolsonaro. Bolsonaro antecipou um conflito que poderia acontecer só na véspera de 2022, ao tirar o diretor da Polícia Federal no Rio de Janeiro, para proteger o Flavio, e ameaçar tirar o diretor geral da Polícia Federal, ele diminuiu a autonomia do Moro. Eles estão em conflito, mas é uma ala que ainda está no governo. Moro, mesmo humilhado e enfraquecido, segue no governo.

Há ainda a ala dos generais da reserva, onde está um setor das forças armadas, sobretudo do Exército. A Aeronáutica e a Marinha tem uma presença muito menos expressiva. As forças armadas brasileiras não são tão ruins quanto o governo Bolsonaro. Quem está no governo é um setor mais autoritário e menos nacionalista do Exército. O general Heleno é uma expressão disso. É importante não esquecer que ele foi ajudante de obras do general Silvio Frota, no ocaso da ditadura militar. Frota, que tentou dar um golpe no Geisel, porque ele não estava suficientemente alinhado com os Estados Unidos e queria fazer a transição para a democracia. O Bolsonaro é desse mesmo setor. É daí que essa turma vem. É a turma do porão.

E temos também o que poderia ser chamado de bolsonarismo duro, que é esse núcleo duro para quem Bolsonaro fala o tempo todo. A família Bolsonaro faz parte desse grupo, junto com essa figura estarrecedora que é o Olavo de Carvalho e algumas lideranças evangélicas que, por uma pauta ultraconservadora ligada aos costumes, acabam se alinhando ideologicamente ao bolsonarismo mais duro. Bolsonaro está privilegiando esse núcleo duro em detrimento das outras alas do governo, o que também tem gerado conflitos internos e constrangimentos.

Há uma estratégia por trás dessa escolha em privilegiar esse núcleo duro?

Eu acho que tem uma estratégia. Essa é uma das grandes perguntas: para onde vai o governo Bolsonaro? O que Bolsonaro quer com isso? Todos os outros presidentes da Nova República tentaram construir governabilidade e maioria social. Alguns conseguiram e outros não. Alguns caíram por não conseguir, mas todos fizeram um esforço para ter maioria parlamentar, para ter uma relação com o Judiciário e, sobretudo, com a sociedade. Se Bolsonaro faz uma besteira e a sociedade rejeita, ele dobra a aposta. Ele indica o filho embaixador, a própria base dele rejeita, 70% da sociedade brasileira é contra e ele triplica a aposta, suspende outras pautas no Senado para poder priorizar a aprovação do filho. Para onde isso leva? Perda de apoio social, que já está acontecendo, não construção de uma base de sustentação parlamentar, o que já aconteceu, e um tensionamento constante do país.

“Bolsonaro quer uma saída autoritária”. (Foto: Giulia Cassol/Sul21)

 

No fundo, Bolsonaro quer uma saída autoritária e uma ruptura institucional no país. Ele só não fez isso ainda porque não tem força para tanto. Aquilo que o Carlos Bolsonaro expressou é o sentimento mais profundo de Bolsonaro e revela o modus operandi do governo. Ele não acredita que o projeto que representa, que é um projeto profundamente antidemocrático, possa ser implementado pela via democrática. As suas referências à ditadura não são ornamentais. O projeto que ele defende envolve censura, prisão de jornalistas que divulgarem o que ele não quer, considerar movimento social como terrorista, querer varrer os vermelhos do Brasil, tratar torturador como herói nacional. Esse conjunto de valores expressa o projeto de sociedade que Bolsonaro deseja.

Com os limites da Constituição e da institucionalidade democrática que ainda restam no Brasil ele não pode fazer isso. Por isso, ele tensiona, a todo momento,  essas instituições e busca criar condições para que ele possa fazer essa ruptura em algum momento. Não consigo imaginar outro caminho para o qual a postura do Bolsonaro leve a não ser buscar um objetivo como esse. Isso pode parecer uma tática amadora. Afinal, se ele não tem força hoje, no ano que vem vai ter menos ainda, pois não vai ter apoio social. Porém, não podemos desprezar uma coisa: o tipo de influência que ele pode construir e aprofundar nas forças armadas brasileiras. Eu acho que hoje ele não tem maioria na ativa e que vários generais do Exército, por mais que sejam conservadores ou até de direita, se sentem incomodados com Bolsonaro, não só pela sua postura, mas por quebra de hierarquia. Bolsonaro tem relação direta com a tropa. Toda semana, ele participa de formaturas e outros eventos com cadetes, cabos, oficiais de baixo escalão.

Uma matéria publicada recentemente, na revista Época se não me engano, diz que ele está com o número do Whatsapp pessoal dele em grupos de Whatsapp da tropa, de cabos, sargentos e tenentes. Isso incomoda o generalato. Mas isso vai, ao mesmo tempo, construindo na base das forças armadas brasileiras um núcleo bolsonarista com identificação com o projeto dele. Considerando que é ele, como presidente da República e como comandante em chefe das forças armadas, que vai fazer as promoções, indicar quem serão os novos generais de quatro estrelas e os novos comandantes militares, talvez esse jogo tenha uma estratégia de fazer com que essa posição dele ganhe força nos próximos anos para dar passos mais ousados que hoje não têm condições de dar. Não podemos ficar alheios a esse risco.

Não acho que esse seja o cenário mais provável, pois não é fácil fazer isso. Agora, há cinco anos, a gente também não achava que estaríamos hoje no nível de deterioração democrática em que estamos. A luz amarela está acesa. É preciso ter muito cuidado com o que representam esses movimentos do Bolsonaro em relação a riscos de ruptura institucional.

Entre muitas situações de violações de direitos e de repressão contra movimentos populares organizados, temos o caso da prisão de lideranças do movimento de luta por moradia em São Paulo. Poderia nos detalhar o que está acontecendo em São Paulo e qual a condição dessas pessoas?

Esse inquérito começou com o desabamento daquele prédio no largo Paissandu, em São Paulo. Houve um incêndio, o prédio desabou, com vários mortos e feridos. Era um prédio da prefeitura de São Paulo que estava ocupado. Alguns moradores sobreviventes do prédio denunciaram à imprensa que sofriam extorsão, que tinha gente no prédio que cobrava aluguel deles e que os ameaçava. Ao que tudo indica, pelos indícios apresentados, isso é verdade. Alia havia aproveitadores travestidos de movimento social. Abriu-se então, corretamente, uma investigação do Ministério Público para apurar essa situação.

Depois disso, um promotor do MP de São Paulo resolveu fazer justiça criminal por atacado. A lógica adotada foi: já que isso aconteceu neste prédio, então acontece em todos. Ele começou a fazer uma investigação generalizada nos prédios do centro, tirando conclusões abusivas. O princípio da justiça criminal é a individualização de conduta e não a generalização. Não é possível querer condenar alguém dizendo que ocorrem práticas ilícitas em ocupações. No Congresso Nacional ocorrem práticas ilícitas. No próprio Ministério Público, como está mostrando a Vaza Jato, ocorrem muitas práticas ilícitas. Nem por isso vou dizer que todo promotor é bandido e criminoso.

“O governo Bolsonaro e, em São Paulo, o governo Dória, já têm seus presos políticos da luta social”. (Foto: Giulia Cassol/Sul21)
 
Eles pegaram um caso de extorsão numa ocupação e saíram prendendo um monte de gente, incluindo lutadoras sociais como a Preta Ferreira, uma jovem negra, liderança da Ocupação 9 de Julho. A mãe dela, Carmen, uma liderança histórica do movimento de luta por moradia em São Paulo, está com mandado de prisão. Ou seja, se estabeleceu um clima de caça às bruxas e de perseguição generalizada. Tem gente presa há mais de dois meses sobre isso. Quando você tem um caso como este, é preciso separar o joio do trigo. Foi o que o Ministério Público de São Paulo não fez. Fui visitar a Preta, há cerca de três semanas, na Penitenciária Feminina de São Paulo. Ela está forte e resistente. Trata-se de uma prisão com objetivo político para desmoralizar não só ela, mas a luta do movimento social. Tenho certeza de que, quando ela sair de lá, vai sair com ainda mais disposição de lutar. É importante assinalar que o governo Bolsonaro e, em São Paulo, o governo Dória, já têm seus presos políticos da luta social.

Diante desse cenário de aumento da repressão e da criminalização, o MTST foi obrigado a rever sua estratégia de luta, adotando uma posição mais defensiva

Fizeram um grande estardalhaço em cima disso, mas é preciso tirar a fumaça do meio do caminho. O MTST fez inúmeras ocupações este ano. Estamos com uma ocupação, ao lado do aeroporto de Guarulhos, com duas mil famílias. Semana passada, o MTST fez uma ocupação grande em Alagoas. Não é verdade que, diante do governo Bolsonaro, o movimento recuou, encolheu o rabo entre as pernas e não está mais fazendo luta social. Há uma mistificação em torno disso. O movimento também está utilizando outras formas de luta, sobretudo resistência a processos de despejo. O governo Bolsonaro criou um clima de salvo conduto, de que vale tudo para atacar a luta social e comunidades inteiras. Muita gente que estava com um projetinho na mão viu neste cenário uma oportunidade e está cometendo todo tipo de abuso porque se sente legitimado por um governo autoritário, que não respeita direitos humanos nem a dignidade das pessoas. Aqui em Porto Alegre, nós temos o exemplo da Vila Nazaré que está sendo removida por meio de uma ação da empresa alemã Fraport, concessionária do aeroporto, para a expansão da pista. Pegaram apartamentos do Minha Casa, Minha Vida, construídos com recursos públicos, que poderiam ajudar a resolver o problema do déficit habitacional de Porto Alegre e da população em situação de rua, para uma remoção que hoje interessa a uma concessionária privada. É uma remoção forçada, rejeitada por boa parte das famílias. O MTST também está acompanhando essa situação.
No Brasil inteiro temos feito lutas contra despejos e mobilizações por serviços públicos e, em especial, por política habitacional. Bolsonaro secou a política de moradia no Brasil. O Minha Casa, Minha Vida, na sua faixa 1, que é a mais popular, construiu zero casas no Brasil este ano. É a primeira vez que isso ocorre.
Já que referi a população em situação de rua, gostaria de comentar uma fala da secretária de Desenvolvimento Social de Porto Alegre, Comandante Nádia, que disse não admitir que uma praça esteja cheia de moradores de rua. Em tempos de bolsonarismo, a galeria das aberrações é grande, mas essa foi uma das maiores aberrações que eu ouvi este ano. A pessoa dizer que é preciso tirar a população em situação de rua da rua porque as famílias não estão conseguindo passear nas praças com suas crianças e com seus animais de estimação e que tem gente que se acha com o “direito de morar na rua”… É uma coisa assustadora o nível de barbárie e de deterioração humana a que a gente chegou.

Há um aumento geral da população em situação de rua no Brasil inteiro. Em São Paulo, saiu uma pesquisa recente apontando que aumentou três vezes a população em situação de rua nos últimos dois anos. Não sei se saiu alguma pesquisa recente aqui em Porto Alegre, mas eu tenho rodado o país e por onde tenho passado, em cidades grandes e médias, em todo lugar há o relato do aumento da população em situação de rua. A razão é evidente. Você tem aumento do desemprego e aumento da precariedade do trabalho. Muita gente que paga aluguel, não consegue mais pagar aluguel. Para enfrentar esse problema, o poder público deveria fazer política de habitação. Como essa política está zerada, as pessoas estão indo para a rua, fazendo ocupações.

Estamos vivendo um cenário explosivo. Isso não vai parar nem diminuir, pelo contrário, vai aumentar. É o encontro entre o aumento da miséria e da pobreza no país com a omissão completa do Estado em oferecer políticas e alternativas. Exatamente no momento em que o Minha Casa, Minha Vida é zerado, a Fundação Getúlio Vargas registra o maior déficit habitacional da história do país: 7,8 milhões de famílias. É evidente que isso vai se expressar na população em situação de rua.

A questão da prisão de Lula e do movimento pela sua libertação vem frequentando o debate em torno da formação de uma frente de esquerda, ou de centro-esquerda, no país. Em que medida, na tua avaliação, a bandeira do Lula Livre pode desaglutinar ou prejudicar a formação dessa frente tendo em vista as eleições municipais de 2010 e, de um modo mais amplo, a oposição ao governo Bolsonaro?

Existem níveis diferentes de unidade. Uma das pautas democráticas fundamentais hoje é a questão do Lula. O Lula é um preso político. Quem vê as mensagens divulgadas pelo Intercept e ainda acha normal ou natural o Lula estar preso ou é hipócrita, ou é oportunista e está buscando o seu interesse pessoal achando que ele permanecendo preso é melhor para isso, ou então simplesmente não entendeu o que está acontecendo no país. Temos hoje o desenho de um conluio, de uma armação política feita para tirar Lula da eleição e colocá-lo na cadeia, com procedimentos ilícitos, criminosos e imorais praticados por Sergio Moro e pelo Ministério Público. Em qualquer país sério do mundo, o Moro estava derrubado do Ministério da Justiça e respondendo criminalmente. O Dallagnol estava afastado pelo Conselho Nacional do Ministério Público e o Lula estava na rua.

Acho descabido querer, por questões menores, por diferenças partidárias, por interesses eleitorais mesquinhos ou mesmo por ressentimentos, adiantar a eleição de 2022 e ser contra essa pauta. A pauta da defesa da liberdade de Lula é parte da agenda democrática do país. Esse é um debate. Outro diz respeito à constituição de frentes eleitorais para 2020. Eu defendo a unidade mais ampla da esquerda para se apresentar contra o bolsonarismo em 2020 onde ela for possível. Nem sempre será. Às vezes, ela se confronta com interesses paroquiais, com questões relacionadas ao fim da coligação proporcional. Em São Paulo, por exemplo, estamos vivendo um problema. Há um cenário de fragmentação e é difícil que saia uma candidatura única do campo de esquerda. Aqui em Porto Alegre, pelo que eu tenho acompanhado, há um debate mais avançado na direção dessa possibilidade.

Qual é o problema, exatamente, em São Paulo?

Há várias pré-candidaturas e ninguém quer abrir mão da sua candidatura própria. Com o fim da coligação proporcional, um partido tem mais chance de eleger uma bancada maior de vereadores se ele tiver candidato a prefeito, que puxa voto de legenda. Antes, o voto de legenda era para a coligação como um todo. Então, não tinha problema você ter um candidato único na majoritária e vários partidos na proporcional porque o voto de legenda do cabeça da chapa era distribuído entre todos. A eleição de 2020 será a primeira sem coligação proporcional. Há uma avaliação geral, na direita e na esquerda, que para eleger vereador será preciso lançar candidato a prefeito. Lamentavelmente eu difícil que se tenha uma unidade no campo de esquerda em São Paulo, a partir do que se desenha hoje.

A nossa posição tem sido a de construir espaços de unidade. Um ponto que acredito que devemos considerar na postura da esquerda e da oposição em geral é que precisamos ter unidade e enfrentar juntos o governo Bolsonaro, mas precisamos de uma oposição mais combativa. Não dá pra gente ter, de um lado, um governo que age com selvageria e atua na lógica da guerra e, do outro lado, você ter uma oposição domesticada, dócil, bem comportada, que só fica se lamentando na internet. A caravana que tenho feito pelo país, desde o primeiro semestre, tem sido para ajudar a fortalecer uma oposição de rua, uma oposição mais combativa, que faça um enfrentamento mais direto ao governo Bolsonaro e não fique presa apenas às agendas eleitorais.

2020 será importante e tende a ser uma eleição com viés plebiscitário forte em relação ao governo Bolsonaro. Tenho certeza que o bolsonarismo não chegará nesta eleição com a mesma força que tinha em 2018. A onda já começou a baixar. Mas, quem está pensando hoje só em 2020 e em 2022 não entendeu o tamanho do risco que a gente vive no país. Há uma agenda de retrocessos muito profunda em curso, que não será barrada apenas pela via eleitoral ou pelo Parlamento, onde temos minoria. Quando se juntam o Centrão do Maia e o bolsonarismo, eles têm uma ampla maioria. A Reforma da Previdência mostrou isso. A possibilidade que temos de derrotar essa agenda e começar a virar o jogo é nas ruas do país.

“Não dá para criar um movimento em torno apenas de agendas específicas do governo”. (Foto: Giulia Cassol/Sul21)
Precisamos nos fortalecer para aquecer essas ruas. Isso não se faz do dia pra noite simplesmente dizendo ‘vamos pra rua todo mundo’. Para que isso ocorra, é preciso ter um processo de construção, de aquecimento, de trabalho de base, de conscientização, de conversar com as pessoas sobre a gravidade do que está acontecendo no país e sobre a importância de ir para a rua para barrar esses retrocessos. Eu acredito muito nisso e é o que temos buscado fazer por meio dessas caravanas, conversando com a juventude nas universidades, nos institutos federais e nas periferias com o objetivo de construir um processo mais amplo de mobilização ainda neste segundo semestre.

Quais são, na sua opinião, os principais desafios da oposição ao governo Bolsonaro hoje?

Como eu referi antes, Bolsonaro utiliza táticas militares em sua conduta política. Uma dessas táticas é a do bombardeio de saturação. Em uma guerra, essa tática consiste em fazer vários bombardeios ao mesmo tempo, no mesmo dia para deixar o inimigo desnorteado, sem saber se desloca o bombeiro para um determinado prédio ou para o hospital que está pegando fogo. O Bolsonaro opera neste registro. No mesmo dia, ele acorda de manhã xingando a Brigitte Macron, antes do almoço ele já demitiu o presidente do INPE porque ele falou do aumento do desmatamento, às duas da tarde ele chama o Ustra de herói nacional, no final da tarde ele autorizou o garimpo em terras indígenas e à noite ele indica o filho embaixador. Esse é o padrão do governo Bolsonaro.

O primeiro efeito disso é deixar a esquerda e a oposição correndo de um lado pro outro feito barata tonta ou que nem biruta de aeroporto. Depois de oito meses, nós já percebemos como é que eles agem. Se, num primeiro momento, existia, para usar uma palavra do Moro, a escusa desse método ser uma novidade, agora não existe mais. Hoje, a esquerda tem condições de montar uma estratégia mais eficiente para lidar com o bolsonarismo. Acredito que o caminho para a esquerda brasileira agora é criar um movimento contra o governo Bolsonaro como um todo. Não dá para criar um movimento em torno apenas de agendas específicas do governo, pois ele trata dessas agendas adotando a tática do bombardeiro de saturação. Se você fica só correndo para apagar incêndios dessas agendas específicas, você acaba perdendo o foco. Precisamos criar um movimento que diga ‘Chega de Bolsonaro’, um movimento nas ruas para enfrentar e derrotar o governo Bolsonaro, a sua agenda e a sua política.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Marco Weissheimer

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