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Bolsonaro vive momento Geisel ou Jânio? É o fantasma do fascismo rondando o mundo

A manifestação de domingo, 26 de maio, foi mais um ato de campanha, com propósito de legitimar o que virá pela frente para assegurar governabilidade
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Tem muita gente, inclusive jornalistas que estão longe de ser iniciantes, especulando se vivemos um momento Jânio Quadros, semelhante a agosto de 1961, quando o presidente renunciou com intenção de dar um autogolpe. Quem afirma isso não entendeu a realidade daquele tempo nem o que está acontecendo hoje.

Como repórter político e correspondente da Prensa Latina eu cobri minuto a minuto aqueles acontecimentos, ajudado solidariamente por colegas. Situação difícil porque a polícia do então governador do Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, tinha invadido os escritórios da agência.

Jânio foi eleito, em 1960, assim como seria eleito Fernando Collor de Mello anos mais tarde, prometendo varrer com os corruptos do governo. Símbolo da campanha era uma vassoura. Color prometeu acabar com os marajás. A ideia era a mesma, e ambos tiveram apoio ostensivo da mídia e empresários sem amor à pátria.

A manifestação de domingo, 26 de maio, foi mais um ato de campanha, com propósito de legitimar o que virá pela frente para assegurar governabilidade

Matheus José Maria
Manifestação de domingo, 26 de maio, pró Bolsonaro

Relembre o jingle de Jânio:

O Congresso da época tinha cerca de 14 partidos, três grandes, PSD, PTB e UDN. Eleito com apoio da UDN e sem querer compor com os demais partidos, Jânio viu-se diante da governabilidade impossível. Tomou posse em janeiro de 1961 e em agosto renunciou. Sua intenção era voltar nos braços do povo, fechar o Congresso e o Judiciário e governar ditatorialmente com apoio das Forças Armadas. 

O tiro saiu-lhe pela culatra. Esta é a história, o resto é lenda. O neto de Jânio me confirmou o que eu já sabia.

Acontece que os militares não confiavam nem um pouco no sujeito, um alcoólatra contumaz e desequilibrado. Quando chegou à base aérea de Cumbica, estava preso e os comandantes das três armas já estavam organizando uma Junta de Governo.

Carlos Alberto de Carvalho Pinto, um aristocrata paulista que governou São Paulo de 1959 a 1963, foi vê-lo tentando entender e mediar, foi expulso com um pontapé na bunda. Carvalho Pinto sucedeu Jânio no governo do qual tinha sido secretário de finanças.

Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, também ainda sem entender bem, pensando que Jânio tinha sido deposto, ofereceu-lhe resistência. Mas os militares embarcaram o presidente deposto num navio para Londres e disseram: ”daqui ninguém nos tira, o vice-presidente não toma posse”. 

Depois do fracasso da tentativa de impedir a posse de Juscelino Kubistchek de Oliveira em 1951, os militares golpistas estavam convencidos de que chegara finalmente a vez deles.

Acontece que o vice-presidente de Jânio era o líder trabalhista, sucessor de Vargas no comando do PTB, o gaúcho João Marques Goulart, pela segunda vez vice-presidente pela vontade do povo. Os eleitores na época votavam separado para presidente e pra vice.

Brizola, líder trabalhista e amado pelo povo gaúcho, sublevou a Nação contra os golpistas, em defesa da legalidade que significava a posse do João Goulart na presidência. 

Foi um dos momentos mais lindos da nação brasileira. 

Brizola no Palácio Piratini ocupou os microfones da rádio Guaíba e a Rede da Legalidade, com marchas marciais e apelos a defender a legalidade, a democracia ameaçada, foi sendo retransmitida por miríades de rádios, desde as mais pequenas às tão grande como a Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro.

No Brasil inteiro jovens e não tão jovens se deslocaram em direção ao Rio Grande para somar-se à resistência. Em São Paulo, comunistas e trabalhistas ocuparam a Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal com apoio de tropas sublevadas dos quartéis da Força Pública (hoje PM), em defesa da legalidade. Trabalhadores pediam armas para resistir.

João Goulart estava na China no momento da renúncia de Jânio. Estava em missão oficial. O Itamaraty, nas mãos de Afonso Arinos de Mello Franco, um estadista, considerava que um país como o Brasil não podia ignorar a existência do país mais populoso do planeta, e tampouco a União Soviética, a grande potência, e deveria manter relações diplomáticas e comerciais com todos os países, na base do respeito mútuo. 

A diplomacia brasileira não acatou o movimento encetado pelos Estados Unidos para expulsar Cuba do sistema interamericano, ao contrário, num gesto soberano condecorou o comandante Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais alta condecoração, hoje conspurcada por esse governo de ocupação.

Esses são os fatos e os motivos que levaram os militares a tentar o golpe de estado. É o motivo também do ódio que eles alimentaram contra o Brizola. Tiveram que engolir o governo de João Goulart e se prepararam para, com ajuda do Tio Sam, assumir o poder em 1o de abril de 1964.

Dado o golpe, governaram através de Atos Institucionais até que conseguiram montar uma democracia de fachada, com congresso e judiciário domesticados, movimentos populares esmagados, sindicalismo neutralizado, intelectuais cooptados.

Quando essa democracia começou a atrapalhar, a oposição ganhando força dentro dela, o general Ernesto Geisel baixou o Pacote de Abril: fechou o Congresso e com a conivência do Judiciário, criou as sublegendas e os senadores e governadores biônicos para garantir a governabilidade.

Hoje os militares estão no poder novamente. Essa é a principal diferença de 1961 e maior semelhança com 1977, ditadura do general Ernesto Geisel. Ditadura disfarçada de democracia, como hoje, que os militares podem dizer que estão legitimados pelo voto.

É, pelo voto, só que pelo voto fraudado, obtido através de uma Operação de Inteligência. Temos hoje no Distrito Federal um Governo de Ocupação Militar, ilegítimo, retrógrado, contra o curso da história.

A diferença de 1977 é o baixo nível tanto dos civis como militares e a submissão incondicional aos Estados Unidos. 

A manifestação de domingo, 26 de maio, foi mais um ato de campanha, com caráter plebiscitário, com propósito de legitimar o que possa vir pela frente para assegurar governabilidade.

A nação corre terríveis riscos. Já não é o ovo da serpente. Eles já estão fazendo no Brasil, sem dar um tiro, o que conseguiram à bala no Iraque e na Líbia e ainda não conseguiram com o cerco à Venezuela.

Parodiando, o fantasma do fascismo ronda a Europa, ele se alimenta no terror da Casa Branca e aumenta os riscos para a nação brasileira e demais povos do mundo.

*Jornalista editor de Diálogos do Sul


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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