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Brasil e Haiti: integração na dor

Beatriz Bissio

Tradução:

Beatriz Bissio*

Beatriz Bissi. Perfil DiálogosA tragédia causada pelo terremoto que devastou a capital do Haiti, deixando milhares de mortos, entre eles pelo menos 12 brasileiros, irmana os dois povos no sofrimento.

A presença no Haiti da Força de Paz liderada pelo Brasil era tida como exemplo da cooperação possível entre países do Sul sob o patrocínio das Nações Unidas. Um exemplo que a ONU pretende transformar em referência para outras situações críticas, em diferentes partes do mundo. O Brasil e o Haiti estavam juntos na luta para assegurar a presença do governo encabeçado pelo presidente René Préval – democraticamente eleito em fevereiro de 2006 – em todo o território daquele país. Agora, o Brasil e o Haiti estão irmanados na dor e no sofrimento pelos mortos e feridos e pela destruição material provocada pelo abalo de 7 graus da escala Richter que sacudiu o país caribenho.

Zilda Arns foi fundadora da Pastoral da Criança.
Zilda Arns foi fundadora da Pastoral da Criança.

“Transmito meu pesar e minha total solidariedade ao povo haitiano e às famílias das vítimas brasileiras civis e militares”, afirmou o Presidente Luis Inácio Lula da Silva, em nota oficial divulgada pela Presidência. O chefe de Estado brasileiro lamentou, de forma muito especial, a morte da médica Zilda Arns, de 75 anos, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, vinculada à Igreja Católica. A Pastoral da Criança – dedicada ao atendimento de crianças carentes – já ultrapassou as fronteiras brasileiras e atualmente atua em vários países. Zilda Arns tinha viajado para o Haiti para participar de um encontro missionário, que aconteceu no último final de semana, e ficou depois para acompanhar as ações destinadas ao combate à desnutrição. Ela integrava o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, criado pelo presidente Lula como órgão consultivo, do qual também participam sindicalistas, empresários, acadêmicos e membros da sociedade civil em geral.

O corpo de Zilda Arns foi localizado sob os escombros de um prédio que servia de sede a um serviço de ajuda humanitária pela embaixatriz Roseana Aben-Athar, mulher do embaixador do Brasil no Haiti, Igor Kipman. O embaixador estava em Brasília quando ocorreu o terremoto.

Além  de Zilda Arns, o abalo matou pelo menos onze militares brasileiros integrantes das tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) e há sete desaparecidos. O Brasil tem mais de mil militares no país. Além dos mortos e dos desaparecidos, nove militares brasileiros ficaram feridos, dois deles em estado grave. Todos foram transferidos para a República Dominicana. Ao todo, a MINUSTAH tem um contingente de mais de sete mil militares, sendo que das tropas participam 17 países, vários deles latino-americanos. Completam a Missão aproximadamente dois mil civis.

Entre as responsabilidades dos soldados brasileiros que prestavam serviço na região da capital do Haiti estava a segurança do Palácio Presidencial, um dos prédios que desmoronou. O presidente René Préval sobreviveu, mas disse à imprensa internacional que o cenário na capital de seu país é “impossível de descrever”.

Milhares de crianças haitianas estão agora orfãs.
Milhares de crianças haitianas estão agora orfãs.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que apesar de a embaixada do Brasil em Porto Príncipe ter sido muito danificada, nenhum funcionário brasileiro ficou ferido. “Para efeitos práticos, a nossa Embaixada não existe mais”, disse Amorim. No entanto, há um diplomata brasileiro desaparecido: o representante especial adjunto da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti, Luiz Carlos da Costa. O chefe da missão da ONU, o embaixador tunisiano Hedi Annabi, está entre os mortos. Costa e Annabi estavam trabalhando juntos, dentro do prédio da missão da ONU em Porto Príncipe no momento do terremoto. O edifício desabou.

O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, fez um chamado urgente à comunidade internacional para prestar assistência humanitária ao Haiti depois da destruição de Porto Príncipe. A maioria dos prédios e grande parte da infra-estrutura da cidade sofreram graves danos. Os serviços básicos de água e eletricidade estão à beira do colapso. O número de vítimas, ainda é impossível de calcular, mais há quem afirme que supera os cem mil. O Brasil anunciou que ajudará o Haiti com 15 milhões de dólares.

A tragédia de Porto Príncipe lembra uma outra, ocorrida em 19 de agosto de 2003, em Bagdá, quando Sergio Vieira de Melo, diplomata brasileiro, funcionário daONU – organização na qual tinha se desempenhado como Alto Comissário para os Direitos Humanos – morreu junto com outras 21 pessoas, sob os escombros de prédio onde funcionava a Organização das Nações Unidas. Naquela ocasião não se tratava de um desastre natural. O prédio tinha sofrido um atentado atribuído àAl Qaeda. Vieira de Mello era considerado por muitos como o virtual sucessor de Kofi Annan na Secretaria-Geral das Nações Unidas.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Beatriz Bissio

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