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Brasil precariza cada vez mais o trabalho. Logo estaremos todos migrando rumo ao Norte

País já era famoso como o reino da desigualdade, fosso só tem se aprofundado, lançando quase 80 milhões na pobreza, quase indigência
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Segundo indicadores oficiais, o mês de setembro acusou deflação, que é contrário da inflação. Foi pequena, 0,04, mas foi inusitada e bem mais alta nos alimentos e nos eletrodomésticos. Com oferta abundante de mercadorias e sem demanda, o comércio baixou os preços para não ver seus produtos apodrecerem nas prateleiras. 

Para o super-ministro da Economia, Paulo Guedes, a deflação é positiva. Indica que a inflação poderá ficar abaixo da meta de 3% e que a economia já está em ritmo de recuperação, respondendo a seus acertos. Além de mau caráter é um cínico. Mentira das grossas, só mesmo cabível num indivíduo que tem como objetivo maior a destruição do Estado.

O pior é que a mídia, sem nenhum senso crítico, aplaude a performance do superministro. Contudo, mesmo nessa mídia transformada em porta-voz do capital financeiro, ainda é possível ler alguém de bom senso, como o professor Afonso Celso Pastore, que vem alertando insistentemente sobre o perigo da Depressão que já dura alguns anos, e pode tornar o país insanável.

O Guedes também anunciou que a deflação favorece a baixa dos juros. A taxa Selic, que está em 5,5%, pode baixar. Lembrem que isso não é novidade, posto que os agentes financeiros do tal mercado já tinham previsto que a taxa baixaria até chegar a pouco mais de 4%. Isso é bom porque diminui o custo da dívida pública, mas não resolve e não beneficia a população, que continua pagando taxas pornográficas aos bancos, cartões de crédito e crediários das lojas.

País já era famoso como o reino da desigualdade, fosso só tem se aprofundado, lançando quase 80 milhões na pobreza, quase indigência

Cut.org
Desde o golpe os direitos trabalhistas tem sido precarizados

A Ilha da Fantasia

As manifestações dos agentes desse governo militarizado de ocupação reforçam a impressão de que vivem numa ilha. Aliás, não é de hoje que Brasília ganhou o apelido de Ilha da Fantasia. A própria arquitetura e urbanização da cidade favorece essa ilusão. Tudo ali é compartimentado e o sonho dos nascidos é tornar-se funcionário público.

O salário médio dos servidores públicos está em torno de R$ 7 mil. Há os que ganham R$ 3 mil e os que ganham R$ 33 mil. É um contraste aviltante dessa gente que rebaixou o salário mínimo para menos de mil reais. O IBGE aponta que o salário médio do trabalhador brasileiro é de menos de R$ 2,5 mil e o Orçamento da União aprovado para 2020 eleva o soldo mínimo para míseros R$ 1.040,00. É o que gasta um ministro num jantar num dos badalados restaurantes de Brasília.

O Brasil já era famoso como o reino da desigualdade e esse fosso só tem se alargado e aprofundado, lançando quase 80 milhões de brasileiros na pobreza, quase indigência.

Estudo do Banco Mundial mostra que o servidor público ganha o dobro (96%) de quem exerce a mesma função na iniciativa privada. O BM pesquisou em 53 países e o Brasil sagrou-se penta campeão. Nenhum país do mundo trata tão mal o seu povo como a elite brasileira.

Essa desigualdade ocorre inclusive na Ilha da Fantasia, onde a diferença entre o menor e mais alto salário chega a ser de dez vezes.

Dos informes oficiais fizemos a tabela mostrando a desigualdade entre os funcionários públicos.  Os que ganham:

•      de 3 a 5 mil reais correspondem a 27,9%

•      de 6 a 9 mil reais, 28,3%

•      de 10 a 20 mil reais, 33,3

•      de 20 a 33 mil reais, 10,6

O salário inicial para funcionários com nível universitário e de R$ 4,8 mil. Um médico inicia com R$ 8,5; um policial com R$ 11,1; carreira diplomática, R$ 5,2; planejamento e gestão, R$ 20,7 mil; carreira jurídica, 24,1 mil. Já um professor de ensino básico, R$ 9 mil e o professor de ensino superior R$ 10,3 mil.

Como entender que o professor de ensino superior, aquele responsável por formar os que entram na carreira pública sejam os menos remunerados? Ganham menos e ainda têm de arcar com os gastos de moradia, vestimenta, transporte, etc. Ao passo que parlamentares e ministros e outros funcionários graduados têm todos esses gastos cobertos pelo Estado e ainda gozam de outras mordomias, como adicional de aluguel, passagens aéreas, diárias de hotel, etc.

No mundo real, em que uma família tem que viver com renda inferior a R$ 3 mil, o sítio salário.com.br mostra que um dentista, que segundo a tabela do conselho profissional deveria ter um piso de R$ 7,8, tem na realidade, média salarial de R$ 4 mil. Um professor de sociologia no ensino médio inicia com menos de R$ 1 mil e não consegue ganhar mais do que R$ 3,5 mil. Um agente de segurança tem o inicial de R$ 1,5 mil e o máximo que consegue ganhar é R$ 2,5 mil. Um arquiteto, que deveria ganhar R$ 12 mil, não consegue ultrapassar os R$ 8 mil. Um médico de família, que deveria receber R$ 14 mil, na realidade recebe em média R$ 10 mil. Professores em faculdades de medicina deveriam ganhar acima de R$ 12 mil não conseguem ganhar mais que R$ 7 mil.

Esse é o Brasil real, o Brasil que oferecia certa proteção através da CLT, que ficou no passado, estraçalhada pela precarização e o arrocho imposto pelo neoliberalismo. O Brasil real, cujo futuro é de pessoas desempregadas e sem aposentadoria. Um belo contraste com os servidores públicos, civis e militares, que se aposentam com salário real.

Ou mudamos isso com um projeto nacional e uma estratégia de desenvolvimento, ou estaremos num futuro muito próximo engrossando as marchas de imigrantes rumo ao Norte rico.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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