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Brasil: Saudades do futuro

Revista Diálogos do Sul

Tradução:

Seria bem vinda uma nova análise sociológica que pudesse explicar os fatos políticos e as manifestações de rua que ultimamente temos visto eclodir no País. É como se os brasileiros não mais se reconhecem uns aos outros, a luta que se observa parece não ser mais apenas entre o capital e o trabalho, mas entre todos contra todos, uma classe social contra ela mesma.

Abdelaziz Aboud Santos*
TempoÉ como se a luta de classes, em que se baseiam nossas análises sociológicas, tivesse dado lugar a algo ainda não tão bem interpretado, difuso e confuso. Claro que sei que parte dos pensadores brasileiros insistem em que tudo é aparência, e, no fundo, o que sempre coloca uns contra os outros é a luta de classes. Uma espécie de cláusula pétrea na análise sociológica contemporânea, como se nada novo pudesse ser criado e categorizado socialmente para explicar os atuais movimentos de rua.
Sinto falta de refletir sobre um Projeto para o Brasil, um Projeto de Nação que nos una a todos. Bem que o PT ensaiou um projeto, que restou quedado pela ilusão de uma governabilidade sustentada pelos sugadores da Pátria.
Escrevi repetidamente sobre a dívida pública brasileira, mostrando que é nesse núcleo que se encontram as raízes da desgraça do Brasil. Sim, para pagar amortização e juros dessa dívida sofremos as carências de uma boa educação e uma boa saúde, para ficar somente nesses dois itens basilares.
Os últimos 20 anos em que o País foi dirigido por forças do assim chamado campo progressista, ou mesmo por partido de esquerda (sic), não se ousou tocar na dívida pública. Preferiu-se, ao contrário, multiplicá-la várias vezes, até alcançar os níveis atuais, em que se compromete com o seu pagamento nada mais nada menos do que 70% de tudo o que aqui se produz. A parcela mais elevada dessa conta é paga, como sabemos, por aqueles que estão na base da pirâmide social, ou seja, a parte mais vulnerável da população, já que é esse pagamento que responde pela carência dos serviços públicos de boa qualidade de que necessita, enquanto a parte mais abastada da sociedade não lhe sente o desembolso, mas se compensa a si mesma com estratégias próprias e conhecidas.
Somados os investimentos em educação, saúde e assistência social não se chega anualmente à metade do valor da amortização dos juros e capital. Triste País, triste realidade, quanta infâmia! As esperanças de enfrentamento dessa questão parece terem sido enterradas com a morte do Brizola, única liderança nacional que tinha a coragem do enfrentamento e, por isso mesmo, fez desabar sobre si o peso da artimanha mediática cruel da direita, com o beneplácito tácito e sutil de amplos setores da esquerda. Sinto arrepios no corpo quando vejo um governo com o perfil Temer querer interferir tão profundamente na vida cotidiana dos brasileiros, com reformas da previdência, política, tributária e trabalhista. Que futuro se descortina aos desempregados, trabalhadores, aposentados, empresários de boa cepa? Os descomunais problemas da educação, saúde e segurança, da infraestrutura econômica, da tecnologia, da competitividade, tudo isso parece não perturbar os dirigentes do País, os antigos e os novos. Nenhuma palavra sobre a dívida pública. Nenhuma! Nesse crucial aspecto, no que difere o comportamento da esquerda e da direita. Absolutamente em nada. Para onde caminhamos?
Bem que os movimentos populares poderiam ir às ruas para forçar as forças nacionais (a todos envolvendo) a uma ampla discussão sobre um Projeto de Nação, numa verdadeira cruzada por uma saída do imbróglio traumático a que está submetido o País, agora que estamos com um Presidente com imensas dificuldades de gerir a coisa pública, se não por legitimidade constitucional, mas pelas das ruas, que é o termômetro político número 1 que diz da sua (i) legitimidade última.
Falo de uma concertação nacional, deflagrada pela unidade de sentimento que nos conecta uns aos outros e que nos poderá guiar a um novo olhar para o futuro que desejamos construir. Que projeto é esse? Penso que é uma construção coletiva, reflexiva e dialógica, metodologicamente próxima do que nos ensinou Paulo Freire e nos ensina o mundo atual. O Brasil inteiro respiraria na desconstrução consciente dos velhos paradigmas que nos sustentam há séculos, enquanto tomava fôlego na construção de um paradigma de mudança. A internet com braços de um polvo é o grande instrumento de comunicação horizontal que temos à nossa disposição. Pura utopia? Quem sabe!
O Brasil algum dia será esplêndido. Mas antes precisa superar o poder dos berços de ouro que tanto nos infortunam, a ponto de colocar direita e esquerda irmanadas. Mais do que nunca é a hora do contra poder popular, mobilizado por valores libertários de uma nova humanidade e de uma nova civilização. Ainda resiste a grandeza do povo brasileiro. Ímpar na sua identidade cultural, capaz de se soerguer dos destroços e ao largo dos arremedos de partidos que pululam por aí enxovalhando a vida democrática. Esperança, sim, no meio do caos que abrirá seu útero magnânimo para o nascedouro do novo.
Somos grandes demais para realizarmos tão pouco. A força que nos vem das entranhas mais profundas há que florescer auspiciosa e sedenta da justiça anunciadora da paz. Não me refiro a uma ou outra liderança que possa surgir, mas que surja das entranhas mesma do processo reconstrutivo, sintonizada com a coesão do sentimento nacional que por sua coerência imprima a qualidade desejada da linguagem entre o nosso cérebro e nosso coração.
Não devemos reforçar pela nossa ignorância o campo de consciência que queremos nocautear, lançando fractais de desacertos do passado para a constituição de um futuro em nada diferente do presente que queremos mudar. Não será pela violência, mas pelo respeito e reverência às nossas raízes ancestrais que a nossa atuação no presente moldará o futuro emergente que o nosso povo merece.
O maior dos desafios repousa na superação da decadência intelectual do país, que vem se aprofundando nas últimas décadas, pela crise política estrutural que marca a vida social brasileira, levando as instituições culturais, científicas e educacionais a um nanismo sem precedentes, cuja superação apresenta-se indispensável para a reinvenção do Brasil.
*Original do Jornal Pequeno – O economista Abdelaziz Aboud Santos, ex-vice-prefeito de São Luís e secretário de Estado de Planejamento do Maranhão no governo de Jackson Lago,


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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