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Brasil segue vulnerável à guerra híbrida mesmo após golpes e Lava Jato, dizem analistas

Segundo cientista política Clarisse Gurgel, movimento para derrubar Dilma a partir de 2013 ilustra promoção de revolução colorida por Washington
Melissa Rocha
Sputnik Brasil
São Paulo (SP)

Tradução:

No mundo contemporâneo, dificilmente haverá um novo conflito global nos moldes da Primeira e Segunda Guerra mundiais. A conclusão é de analistas, que apontam a ascensão de novas modalidades de confronto, em que o embate direto entre tropas é a última opção, sendo a primeira a chamada guerra híbrida.

Em entrevista à Sputnik Brasil, eles apontam que essa nova modalidade tem como principal arma a tecnologia, e combina espionagem e difusão de fake news, especialmente em contexto eleitoral, no intuito de desestabilizar ou, mesmo, derrubar governos. Eles também respondem à seguinte pergunta: estaria o Brasil pronto para essa nova realidade de confronto?

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Qual a diferença entre guerra híbrida e guerra convencional?

A cientista política e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) Clarisse Gurgel aponta para dois tipos de guerra: guerra de posição e guerra de movimento. Segundo ela, a guerra de movimento se dá por confrontos diretos, enquanto a guerra de posição é calcada na estratégia. Atualmente, uma das principais estratégias é a disputa institucional.

“[A guerra de posição] é uma guerra que se dá […] no âmbito institucional, e aí a gente pode incluir nesse âmbito institucional desde o próprio Estado, a sua máquina mais bruta, o aparato burocrático do Estado propriamente, o primeiro escalão do Estado, até aquilo que a gente vai chamar de administração indireta, que são os seus órgãos da sociedade civil, até aquelas instituições que não são públicas, não são estatais, mas que fazem parte dos aparelhos de hegemonia, os aparelhos do modo de produção sob o qual a gente vive, que são a mídia, a religião, as instituições que a gente pode chamar de instituições do campo da cultura em geral.”

A cientista política, no entanto, contesta a ideia defendida por alguns analistas de que a nova modalidade de confronto excluiu o antigo formato, onde há um lado vencedor e um lado perdedor. Isso porque na geopolítica atual ainda existem blocos divergentes.

“Ainda existem também os blocos, o mundo ainda é dividido em blocos. O que há de diferença é que a hegemonia no mundo hoje é compartilhada. Porque se antes ela tinha como poder concentrado os Estados Unidos, que eram o país que exercia a hegemonia, que era unilateral, não existia um compartilhamento dessa hegemonia. Hoje a gente tem alguns países que quebram essa hegemonia única e exclusiva dos Estados Unidos, ao ponto de alguns ponderarem se essa hegemonia já começa a ser compartilhada. Por quem? Em especial, pela China. Então a gente percebe que existe aí uma disputa entre Oriente e Ocidente.”

Clarisse acrescenta que essa lógica de disputa entre Ocidente e Oriente também é traduzida no conflito entre Rússia e Ucrânia. Segundo a especialista, nesse contexto, a Rússia está em combate, principalmente com a hegemonia norte-americana e a ocidental.

Segundo cientista política Clarisse Gurgel, movimento para derrubar Dilma a partir de 2013 ilustra promoção de revolução colorida por Washington

Foto: Lula Marques/Agência PT
Busca por autonomia da Petrobras criou necessidade estratégica para os EUA de derrubar a presidenta Dilma, aponta Clarisse Gurgel

O Brasil está preparado para uma guerra híbrida?

A cientista política destaca que, embora não seja uma vítima direta de uma guerra, o Brasil já está inserido no contexto da guerra híbrida, e aponta como exemplo o que ocorreu com a Petrobras a partir de 2013, quando, segundo ela, o Brasil vivenciou uma tentativa de revolução colorida, orquestrada por Washington.

A especialista afirma que, na época, a busca pela autonomia da Petrobras criou uma necessidade estratégica para os EUA de derrubar a presidente Dilma Rousseff. Isso porque, com o pré-sal, o petróleo seria derivado de uma fonte certa e garantida, que não tornaria o investimento em sua extração um investimento arriscado, como sempre foi, o que reverteria uma tendência histórica. Diante disso, fomentou-se uma revolução colorida, com o objetivo de depor a presidente e minar a estatal.

“Se você fala do caso da Petrobras, fala do desmonte de uma estatal que disputava a hegemonia […] em um contexto de tentativa mínima de autonomia, de uma capacidade de superar certas condições de dependência que o Brasil ainda ocupa. A gente tem que destacar a figura do pré-sal como um elemento fundamental para que se entenda a necessidade de revolução colorida que se deu em 2013, com as tais Jornadas de Junho”, explica a especialista.

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Ela afirma que, naquele momento, o governo brasileiro resolveu investir em tecnologia própria, nacional, para a extração do pré-sal, no sentido de exercer o controle sobre a extração, “razão pela qual o Brasil desenvolveu tecnologias de fiscalização e alta tecnologia submarina”.

“Essa tecnologia [submarina], que inclusive é uma tecnologia de guerra, ela não foi aceita pelos Estados Unidos, e por isso o Brasil sofre [em 2013] o ataque que sofreu no esforço de fazer ruir uma empresa de hegemonia estatal, de maioria de ação estatal pública, ainda que uma sociedade anônima.”

Sem citar diretamente a operação Lava Jato, ela afirma que o que ocorreu nos anos seguintes a 2013 foi um exemplo muito claro de guerra de posição, “com vários tentáculos, várias frentes, desde o Judiciário, que fazia vazar informações, até as mídias, que veiculavam as informações vazadas”. Ela destaca ainda que o Judiciário contou com promotores que atuavam como juízes e juízes que atuavam como promotores e, nessas usurpações de poder, contou também com massas de mobilização contra Dilma.

Segundo Clarisse, todos esses fatores faziam parte de uma revolução colorida, que se aproveitou do ímpeto combativo da população para derrubar governantes. “Foi isso que aconteceu no Brasil, quando a gente tem o impeachment da Dilma e o impedimento do candidato da preferência do povo brasileiro [Luiz Inácio Lula da Silva] de se candidatar às eleições [de 2018].”

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A especialista cita também a ascensão da ultradireita em vários países, com táticas semelhantes de questionamento do sistema eleitoral, da democracia e difusão de fake news, que, no recorte do Brasil, culminou com as invasões do 8 de Janeiro em Brasília.

“A gente pode dizer que o Brasil testemunhou os dois modos [de guerra] no mesmo contexto, no mesmo momento. Porque, ao mesmo tempo em que se fazia isso que a gente vai chamar de guerra de posição, em uma disputa de discurso, inclusive questionando as eleições, fazendo enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal a partir dos discursos de fake news e de propaganda, contando com os aparelhos que a ultradireita já possui, […] [houve] um ataque frontal e direto, como foi no dia 8 de janeiro, às próprias instituições, na sua máquina burocrática mais estrita, que foi a invasão da sede do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto.”

Segundo Clarisse, tudo isso mostra que é possível afirmar que o Brasil já vivencia e testemunha essa nova realidade de confronto, porém ainda sem condições de enfrentamento. “Ele [Brasil] não encontrou ainda formas capazes de enfrentar e reverter, seja a guerra de movimento que enfrenta, seja a guerra de posição que enfrenta.”


Como ter paz em tempos de guerra?

Atualmente, não há consenso sobre o que é uma guerra híbrida e suas definições são sobretudo produzidas em controvérsias, que geralmente respondem por visões de mundo bastante comprometidas com o lugar geopolítico, cultural e militar de onde se fala. É o que afirma, em entrevista à Sputnik Brasil, Piero Leirner, doutor em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), pesquisador de assuntos militares e autor do livro “O Brasil no espectro de uma guerra híbrida”.

“A noção [do conceito de guerra híbrida] é 'interessada', ela faz parte do arsenal dos próprios interesses militares e envolve também uma ideia 'acusatória'.”

Ele cita como exemplo “inúmeros textos produzidos por instituições ligadas à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que afirmam que as guerras híbridas são uma forma de guerra pensada na Rússia, ligada a ataques não cinéticos, como os cibernéticos, informacionais, operações psicológicas de amplo espectro, entre outros. E aquilo que eles mesmos fazem é apenas tornar a doutrina de guerra híbrida um mecanismo de defesa”, explica o pesquisador.

“De outro ponto de vista, digamos, por exemplo, do russo, as guerras híbridas se assemelhariam muito às 'revoluções coloridas' [ligadas aos EUA], que seriam formas dissimuladas de se fazer guerras por procuração utilizando meios não convencionais, como insurgências, protestos, golpes e trocas de regime”, acrescenta.

Ele afirma que o único ponto em comum entre os diferentes conceitos é que as guerras híbridas “ocorrem em campos que não necessariamente estão ligados ao que habitualmente se veria como 'guerra', isto é, ao fogo do combate”. Em vez disso, o confronto passa a existir em todas as camadas da vida social, não sendo mais possível fazer uma distinção entre tempos de guerra e tempos de paz.

“Se pensarmos em um sobrevoo a tudo isso, uma guerra híbrida é aquela que consegue se infiltrar em vários campos da vida social — econômico, jurídico, político, familiar, religioso — e plasmar tudo isso em um estado de conflito permanente que não opere mais uma distinção entre tempo de guerra e tempo de paz, entre guerra e política, entre o que é militar e o que é civil, entre o estrangeiro e o doméstico, e por aí vai. De certa forma, é a teoria militar da vida social tentando se aplicar como uma espécie de profecia autorrealizável e projetando a guerra de forma generalizada na vida.”


Por que as grandes guerras foram substituídas pelas guerras híbridas?

Leirner argumenta que as novas modalidades de guerra ganharam ascensão porque “se enquadram na mesma moldura das novas formas de administração da vida exigidas pelo capitalismo neoliberal, colocando nas relações de produção uma dimensão política na extração do valor do trabalho que requer a transformação objetiva e subjetiva das relações sociais em termos de uma guerra”.

“De forma bem simples, trata-se de produzir uma espécie de 'imperialismo' na subjetividade das pessoas, onde toda sua vida está sujeita a uma extração, 24 horas por dia. Para que esse nível de exploração ocorra, é preciso adicionar uma lógica da 'guerra de todos contra todos' como ponto de vista geral. Nesse sentido, trocando em miúdos, como agora os trabalhadores são todos competidores entre si, não há mais 'visão de classe' possível, e a luta de classes foi obliterada por uma visão de guerra generalizada”, explica o especialista.

“O 'híbrido' dessa guerra se adapta bem a essa realidade, pois justamente transforma todos os campos da vida social em uma operação de tipo militar. Então o problema vai além da geopolítica e das guerras nacionais, embora as perpasse, pois, de certa forma, o Estado — ou certas camadas deste — passa a ser uma espécie de sócio do capital nessa nova forma de regulação das relações sociais”, complementa.

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Ele afirma que o segundo motivo da ascensão da guerra híbrida é mais simples: ela é muito mais barata que uma convencional.

“E seus custos não se resumem aos objetivos em relação aos 'inimigos', mas também, por exemplo, aos custos jurídicos, políticos, ideológicos que uma guerra tem. Como ela é generalizada, e em certa medida camuflada, ninguém mais pode ser responsabilizado. De certa forma, esse também é outro efeito da guerra que casa com o neoliberalismo, com a ideia de uma certa alocação dos recursos públicos.”

Espionagem contra Dilma em 2013 é exemplo de guerra de informação

Questionado sobre se o caso ocorrido em 2013, no qual a ex-presidente Dilma Rousseff e outros líderes mundiais foram espionados pelo governo americano — exposto pelo ex-prestador de serviços da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos EUA Edward Snowden —, pode ser considerado um exemplo de guerra híbrida, Leirner aponta que o episódio “deve ser pensado dentro desse quadro mais geral, do que é o sistema de informação na máquina de guerra”.

“Não só a informação em poder dos EUA e de seu domínio sobre redes de comunicação, mas também as informações e contrainformações que vazam depois. Veja o caso do Snowden. Quanto o Intercept e outros [veículos investigativos] vazaram? Já vi que foi menos de 3%. Nesse caso, o próprio vazamento é parte de uma infowar [guerra de informação], aquilo que se chama de um 'limited hangout' [jargão de espionagem para vazamento limitado]: se expõe para se encobrir a maior parte.”

Ele argumenta que espionagens como essa já existiam há tempos, mas agora “estão sendo colocadas na sacola de guerras híbridas”.

“Do meu ponto de vista, não precisamos colocar tudo na chave da guerra híbrida, é melhor circunscrevermos os casos que se enquadram melhor analiticamente a ela — por exemplo, a guerra Israel-Hamas é um tipo; a insurgência estatal no Brasil a partir de 2014 é outro; as revoluções coloridas, como na Ucrânia em 2014, outro, e assim por diante.”

No caso da Ucrânia, a revolução colorida em 2014, apontada pelo especialista, se deu quando o então presidente, Viktor Yanukovich, considerado pró-Rússia, foi deposto e, posteriormente, assumiu o poder Petro Poroshenko, entusiasta da aproximação do país com a Europa. Assim como ocorreu no Brasil, a troca de governos se deu por protestos populares incitados por outros atores globais. No caso ucraniano, o acirramento popular foi fomentado por EUA e Europa.

Questionado sobre se o Brasil atualmente está preparado para enfrentar uma guerra híbrida, o pesquisador se mostra cético.

“Depende do ponto de vista. O Brasil enquanto população, enquanto democracia, não está. Já foi alvo de uma. E provocada por instituições do próprio Estado, particularmente as Forças Armadas e o Judiciário. Elas, sim, se mostraram prontas, e jogando no campo 'interno', se é que me faço entender.”


Qual a diferença entre guerra híbrida e Guerra Fria 2.0?

Em entrevista à Sputnik Brasil, a doutora em ciência política pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em ciência política pela UFSCar Erika Kubik afirma que a diferença da guerra híbrida para a Guerra Fria 2.0 são as estratégias utilizadas.

“A gente tem uma corrida no âmbito armamentista ou de rearmamento, ao mesmo tempo em que se tem uma questão sobre as informações, assim como na guerra híbrida. Então o que a gente tem na questão da Guerra Fria 2.0 não é uma releitura de fato, até porque hoje a geopolítica é multipolar, não é mais possível a gente falar em guerra bipolar ou em um contexto de bipolaridade como na Guerra Fria de fato.”

Ela afirma considerar que o Brasil estaria preparado para responder a uma guerra híbrida, pois o país tem potencial tecnológico e de pesquisa para se proteger de ataques cibernéticos.

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“A gente já tem mostrado, inclusive, potencial nesse sentido, principalmente quando a gente pensa se o Brasil está ou não, se o Brasil consegue ou não se proteger, quando a gente pensa no processo eleitoral. As campanhas eleitorais, de fato, elas ainda são objeto tanto da guerra híbrida quanto da Guerra Fria 2.0, mas o nosso processo político está protegido desse tipo de ataque. Então o Brasil tem ferramentas e potencial para, de fato, se proteger desse tipo de ataque”, explica a cientista política.

Sobre o caso de espionagem envolvendo a ex-presidente Dilma Rousseff em 2013, Erika afirma que, embora seja feita de uma outra maneira atualmente, a espionagem é algo que existe entre Estados desde antes das guerras clássicas. Segundo ela, a diferença está nos meios utilizados.

“Isso [espionagem] é uma estratégia que é usada historicamente. Então é por isso que é interessante a gente pensar sobre a guerra híbrida, o que ela traz de novo? Ela traz de novo o que a gente tem como uma ferramenta que não existia até então, que é a questão das informações. Ou seja, a questão da rede, a questão do ciberespaço, que é algo que a gente não tinha, essa é a nova dinâmica, esse é o ingrediente usado pela guerra híbrida, e que foi percebida a potencialidade que isso pode trazer.”


Eleições municipais de 2024 reacendem o risco de guerra híbrida

Erika diz concordar com a avaliação de que o Brasil vivenciou um período de guerra híbrida, iniciado em 2013, com as manifestações contra o aumento das passagens do transporte público. Ela acrescenta que depois, em 2014, com a reeleição da presidente Dilma, deposta em 2016, e até o final do governo de Jair Bolsonaro, em 2022, “nós fomos o tempo todo bombardeados por fake news e por informações que questionavam o processo eleitoral brasileiro”.

“Ou seja, a insegurança das urnas eletrônicas e o quanto isso foi custoso para a democracia. Então a guerra híbrida é custosa para a democracia”, argumenta a especialista.

Ela acrescenta que o processo eleitoral brasileiro foi blindado e conseguiu provar a eficácia e transparência das urnas eletrônicas, mas o Brasil ainda carece de segurança cibernética, “principalmente a questão de segurança das informações e de controle sobre essas informações, no que tange à questão da campanha”.

“Isso é uma necessidade, a necessidade de controlar a questão das informações ainda durante o processo de campanha. Não o processo técnico da eleição, mas o processo anterior, que é o processo de campanha, nisso realmente a gente precisa de regulamentação”, conclui.

Ludmila Zeger e Melissa Rocha | Sputnik Brasil


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
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