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O Brasil a beira do abismo, Bolsonaro quer dar um passo à frente

Paulo Cannabrava Filho

A abertura da economia proposta pelo Chicago’s boy Paulo Guedes, para o governo de Bolsonaro, aceleraria o processo de desindustrialização e desnacionalização que vem ocorrendo desde a adoção do neoliberalismo que levou à ditadura do pensamento único imposto pelo capital financeiro, improdutivo.

Ele propõe também a extinção do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) ou melhor, sua fusão com o Ministério da Fazenda, lá onde o Guedes pretende estar caso vença a eleição. Veja, é como botar a raposa pra tomar conta do galinheiro: com isso teríamos o império absoluto do capital financeiro, aquele que nosso economista, fundador de Diálogos do Sul, Ladislau Dowbor chama de capital improdutivo.

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O capitão reformado Bolsonaro e seu "guru" econômico, o Chicago´ s boy, Paulo Guedes

É um capital que só serve para aumentar o capital e cria um círculo vicioso onde os ricos ficam cada dia mais ricos e os pobres e os remediados da classe média ficam cada vez mais pobres.

O anúncio dessa intenção levou pânico à vários setores industriais, pouco refletido pela mídia, evidentemente por estar com o rabo preso ao capital financeiro (devendo aos bancos). O Globo, de quarta-feira (24/10/18), entrevistou José Velloso Dias Cardoso, presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que com o pé no chão de fábrica sabe que a abertura está aí, más para ser negociada não concedida a troco de nada.

“A abertura precisa ser negociada, e não concedida unilateralmente. Não vamos conquistar mercados, ter ganhos de exportação e competitividade, se não pedirmos nada em troca”.

Assim se pronunciaram também Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Eletroeletrônico (Abinee), Fernando Pimentel, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), e Fernando Figueiredo, presidente da Associação da Indústria Química (Abiquim).

Antecedentes da crise

Na verdade a crise iniciada em 2008 com a quebra do Lehman Brothers (LM), ainda não terminou. Ela provocou um abalo sísmico no modelo, provou ao mundo que esse modelo não serve. Entre as sequelas desse terremoto, Trump, Brexit, Grécia, Itália, Bolsonaro, etc.

Lembram que diziam que o LB era grande demais para quebrar? Não só quebrou como arrastou economias inteiras. Afetou a todos que possuíam papéis desse banco e as seguradoras, o Citigroup, a AIG, a General Motors que teve que virar estatal pra não fechar. 

O LB quando quebrou deixou de pagar contas no valor de US$ 691 bilhões e deixou 25 mil trabalhadores na rua da amargura. Tiveram que ser socorridos os quatro maiores bancos: LB, Goldman Sachs, Morgan Stanley e Merrill Lynch. O mercado de ações, num instante quase perdeu US$ 10 trilhões.

O Fed (Banco Central dos EUA, despejou uma dinheirama sem limites comprando papéis podres que ninguém queria. Foram muitos trilhões de dólares e ainda tem na gaveta mais de US$ 4 trilhões.

Nesse mesmo contexto, a Grécia quebrou, e os 320 bilhões de euros colocados pelo Banco Central Europeu de nada adiantou. A saúde pública quase desapareceu, o desemprego entre os jovens chegou a quase 60% e a situação não piorou porque mais de 500 mil cidadãos imigraram. Hoje 40% dos jovens estão fora do mercado de trabalho e o país continua devendo.

Chegando ao fundo do poço

No Brasil a economia foi bem até 2013. Foi pro chão em 2014 e pro abismo de -3%, -3,6 em 2015 e 2016, sobe para 1% e 1,4% em 2017 e 2018.

Igualmente na questão fiscal a situação era folgada. Manteve o resultado primário acima de R$ 80 bilhões até 2013, cai para menos R$ 18,7 em 2014 e despenca para menos R$ 120 bilhões de 2015 até 2018.

A paralisação da economia chegou a gerar deflação, medida em agosto, com o IPCA fechando em 0,09%. O povo trabalhador endividado, com o salário arrochado ou sem emprego elevou a inadimplência a 40% da população, algo como 62 milhões de pessoas. Houve até um candidato a presidente que propôs perdoar pagar a dívida dessa gente para aliviar a tensão.

Apesar de o Tesouro Nacional estar praticamente quebrado, o governo do ilegítimo, com desonerações e incentivos, conseguiu uma renúncia fiscal maior que o déficit de R$ 139 bilhões que chegará a R$ 306,4 bilhões em 2019.

E os Chicago’s boys, meninos de Chicago, que seguem a cartilha neoliberal entreguista, dizem que a culpa é do PT por ter reagido errado à crise de 2008. Argumentam que o Estado não devia ter assumido o papel de grande investidor. Ou seja, na teoria dos financistas o Estado não deve investir na produção.

Desalento

Que país é esse?  Pesquisas publicadas nos jornais mostram que 82% e 86% desaprovam o governo, não acreditam mais nas instituições, não confiam nas autoridades. Esse índice era de 25% em 2010. Em estudo sobre percepção da crise, feito pela FGV, constata que além disso só 14% acreditam nas eleições. É a percepção clara de que estamos diante de um processo eleitoral fraudulento.

Esse ataque (ataque sim, porque isto que estamos vivendo é uma guerra), se agravou a partir da Operação Lava Jato, cujas acusações foram compiladas pela Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, órgão ligado à Casa Branca e ao Pentágono, ou seja, a presidência do país e o ministério da guerra lá deles. Denunciamos mais de uma vez que o juiz Sérgio Moro e o procurador Rodrigo Janot estavam prestando serviço aos Estados Unidos. Este incrível crime de lesa pátria cometido com a conivência dos tribunais superiores, do Congresso Nacional, da mídia e de uma população em estado hipnótico.

O custo disso está sendo explicitado pelos órgãos de governo e publicados nos jornais. Desde 2014, por exemplo, em apenas quatro anos, foram fechadas 2 milhões e 900 mil vagas de trabalho no Brasil, elevando com isso o desemprego a mais de 14 milhões de trabalhadores. Os que já desistiram de procurar emprego beiram os 5 milhões. É o que constatou o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged do Ministério do Trabalho, que se vangloria de que até setembro foram criadas 137 mil vagas, admitindo ser por causa da proximidade de fim de ano, quando sempre há maior oferta de trabalho temporário.

Com tudo isso, o Brasil conseguiu ficar em 79o lugar nos indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), abaixo da Venezuela e demais países da América Latina.

União quebrada

A proposta do neoliberalismo é a do Estado Mínimo. Já os radicais não querem o Estado para nada. Se acham autossuficientes. O Estado ainda não é mínimo, mas tornou-se inoperante e entreguista, a serviço do capital financeiro e dos interesses dos Estados Unidos. Em suma, o Estado perdeu o poder de decisão, virou lacaio. E também o setor produtivo perdeu o poder de decisão. A burguesia nacional, de maneira geral, foi substituída pelo estamento gerencial das transnacionais e pelos agentes intermediários, estes, hoje os maiores acumuladores de capital.

O estado inoperante quebrou. 

Assim é simples: a Nação está quebrada e se não mudar de rumo afundará ainda mais no precipício, no caos, cenário ideal para a dominação imperial. Parece que alguns setores da sociedade brasileira começam a perceber isso. É o caso dos citados nos primeiros parágrafos, aos que devemos incluir o setor sucroalcooleiro paulista, preocupado com os desmandos, como publicamos aqui.

A realidade é que o que a União arrecada mal dá para o custeio, ou seja, a manutenção da máquina: pagar salários, serviços, materiais de consumo, etc. Máquina cara porque sustenta um enorme setor que ganha muito e faz nada. Pura sinecura. Assim, não sobra dinheiro para os investimentos nas áreas vitais como saúde, educação, infraestrutura.

Hoje os mais valorizados no cenário político e econômico são os croupier do cassino global. Pra que correr risco em investimentos produtivos se podes ganhar dinheiro fácil na ciranda? Ganha dinheiro, cria fundo para ganhar mais dinheiro, uma máquina contínua de fabricar dinheiro. Dinheiro volátil.

A União quebrada alimenta esse moto contínuo. Como não tem como aumentar a arrecadação, aumenta a dívida para gáudio dos banqueiros e financistas. E como a ganância dos financistas não têm limites, exigem, para dar dinheiro, que o Estado venda seus ativos. Vende os ativos para fazer caixa, mas nunca é suficiente. E fica sem os ativos. Como viveria uma costureira se tivesse que vender sua máquina de costura?

Vende os ativos e não cobra impostos para sobreviver

Enquanto a nação sangra na angústia eleitoral e na desesperança, o Congresso Nacional, ao contrário de contribuir para aumentar a arrecadação,  tenta aprovar uma Medida Provisória (MP) para favorecer ainda mais as montadoras de veículos, chamada de indústria automobilística (me engana que eu gosto).

A chamada indústria automobilística brasileira, era a quarta maior do mundo em 2013 e em 2016 caiu 45% em automóveis e 67% em caminhões, contribuindo para a queda de 3% do PIB naquele ano. As vendas melhoraram de 2017 para 2018, ano que fechará tendo produzido 3.021 milhões de unidades, segundo a Anfavea.

A única fonte de recurso para o Estado é o que arrecada através dos impostos e taxas. O programa Rota 2030, lançado em junho deste ano, com duração de 15 anos, que concede descontos na cobrança do Imposto de Renda, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e na Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL). Além disso, cedendo a pressões, os carros importados pagarão as mesmas taxas de impostos que os carros montados aqui.

O Estadão calcula que o Estado deixará de receber R$ 7,2 bilhões, sendo R$ 2,3 bilhões referentes ao Rota 2030 e R$ 4,6 bilhões pelas isenções e incentivos para as montadoras que estão no Norte, Nordeste e Centro Oeste.

O Brasil não tem estradas mas tem umas 15 montadoras de automóveis, todas estrangeiras: Ford, GM (EUA); Fiat Chrysler(Itália); Renault, Peugeot Citroen (França); Mercedes, Volkswagen, BMW e Audi (Alemanha); Jaguar/Land Rover (Reino Unido); Mitsubishi/Suzuki, Toyota, Nissan (Japão); Hyundai/Caoa (Coréia do Sul). De Caminhões e máquinas agrícolas e de terraplanagem: Volvo, Scania  (Suécia); AGCO do Brasil, Caterpillar, Case (EUA); DAF (Holanda); Komatsu (Japão).

O Estado precisa de dinheiro, mas o governo cede à pressão e eleva subsídio para fábrica de xarope de refrigerante na Zona Franca de Manaus e deixa de arrecadar R$ 708 milhões.

Que xarope é esse? Vai curar a tosse, bronquite, ronquidão? Claro que não.

Esse xarope é utilizado para fabricar a Coca Cola, um produto químico estadunidense vendido como refrigerante em todo o mundo. Esse xarope isento é vendido para as engarrafadoras no território nacional. Vale lembrar que a Zona Franca foi criada com o objetivo de isentar de impostos produtos de exportação. E a Coca Cola, além de vender também água mineral que não vem de nenhuma fonte, é uma transnacional gigantesca que produz alimentos industrializados e é usuária em desestabilizar governos. 

O domínio estrangeiro

A captura do setor mais dinâmico da economia, começou nos anos 1960, e hoje o capital estrangeiro praticamente domina todo o setor. É aquele setor que produz retorno do capital mais rápido, com muito produto agregado e grande margem de lucros:

  • Indústria farmacêutica
  • Indústria química
  • Indústria produtos de banho e beleza
  • Indústria de alimentos
  • Indústria branca (pra copa e cozinha)
  • Indústria eletroeletrônica
  • Indústria de informática
  • Indústria de autopeças

E assim por diante

Nos últimos cinco anos, 400 empresas foram parar em mãos estrangeiras, a um custo de R$ 133 bilhões. Maior crescimento ocorreu de 2016 a 2018, que de 75 passou para 108 empresas.

Ianques, chineses e franceses foram os que mais se aproveitaram dos ativos postos em liquidação. Veja quantas empresas cada um levou:

  • Estados Unidos    75
  • China            33
  • França        22
  • Reino Unido    20
  • Alemanha        17
  • Países Baixos    15
  • Canadá        13
  • Suíça            11
  • Luxemburgo    10
  • Japão            09

Lembro que um dia o Abílio Diniz, dono da Península, empresa de investimento, na época ainda dono também do Pão de Açúcar, dizer, com ar preocupado que o Brasil está em liquidação. Vende tudo baratinho como quem está na bacia das almas.

Depois de abiscoitar o creme, avançaram sobre as indústrias pesadas e sobre o comércio atacadista e varejista. Agora estão avançando no setor de infraestrutura. Estão de olho na Embraer (querem tudo) e da Braskem. Querem a Petrobras. Se o Paulo Guedes assumir o poder não sobrará nada, nem o Banco do Brasil.

Os investimentos privados estrangeiros em infraestrutura em 2010 era em torno de 27%, em 2028 já é de 70%.

O volume total dos investimentos no setor também despencou, de US$ 142 bilhões em 2010 para US$ 49 em 2017. E isso, claro, por conta da Lava Jato que paralisou o setor e quase quebrou as maiores e melhores empresas de engenharia.

As sequelas da Lava Jato já foram mostradas em artigo aqui. Outra sequela que fica evidente, é a candidatura do capitão Bolsonaro à Presidência. Ciente disso ele até já prometeu ao Sérgio Moro indica-lo para a sinecura do Supremo Tribunal Federal. Já pensou o que ele poderá fazer lá? 

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