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Entenda xadrez da guerra final entre democracia brasileira e clã Bolsonaro

O desapreço do presidente brasileiro pelas instituições não é retórico. Seus filhos mantêm as redes sociais permanentemente mobilizadas contra o Congresso e o Supremo

Luís Nassif

GGN GGN

Brasília (DF) (Brasil)

Peça 1 – as intenções de Bolsonaro

Há duas interpretações dos especialistas para os embates entre democracia e os Bolsonaro.

Visão otimista – Bolsonaro late, mas não morde. Até agora não tomou nenhuma medida que afrontasse diretamente as instituições. Portanto, está inserido no jogo democrático.

Visão pessimista – Não tomou nenhuma medida, porque não teve condições. Havendo condições, dará o golpe.

Fico com a segunda interpretação. O desapreço de Bolsonaro pelas instituições não é meramente retórico. Em todo terreno em que não enfrenta resistências, ele avança sem pedir licença. Os filhos mantêm as redes sociais e de WhatsApp permanentemente mobilizadas contra o Congresso e o Supremo. E há um movimento irresistível de armar o país, do qual certamente estão se prevalecendo as milícias armadas de Bolsonaro, na cidade e nos campos.

Ontem (29), comparou o Supremo Tribunal Federal, a Ordem dos Advogados do Brasil, veículos de imprensa a hienas. Com a reação do decano do STF, Celso de Mello, Bolsonaro recuou e pediu desculpas.

Logo depois, um de seus principais porta-vozes, Filipe Marins, insistia no tema para mobilizar a militância. “O establishment não gosta de se ver retratado, mas ele é o que ele é: um punhado de hienas que ataca qualquer um que ameace o esquema de poder que lhe garante benefícios e privilégios à custa do povo brasileiro. Isso só mudará quando o Brasil se tornar uma nação de leões”.

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A grande tragédia brasileira é a carência absoluta de responsabilidade institucional, representatividade e visão de futuro das instituições

Peça 2 – O bolsonarismo tem raízes

Um segundo ponto de discussão é sobre a extensão do bolsonarismo no país.

Não é coisa pequena. Concordo com os que minimizam o papel das fake news e dos Steve Bannon nas eleições. O espírito captado pelo bolsonarismo tem raízes profundas na sociedade brasileira, que vieram à tona com a Lava Jato e o desmonte do sistema partidário.

O preconceito contra pobre, os ataques aos direitos, o ceticismo em relação à democracia, hoje em dia, conquistaram evangélicos, a parte mais barulhenta do Ministério Público, parte relevante do Judiciário, a classe média do sul-sudeste, os escalões inferiores das Forças Armadas e da Polícia Militar.

Por outro lado, a liberação da importação e do porte de armas permitiu o registro de mais de um milhão de armamentos, preferencialmente em mãos de milícias, ruralistas, clubes de tiro e outros grupos adeptos do bolsonarismo.

Ontem, publiquei um resumo de colunas que escrevi nos anos 90, contra o punitivismo penal e as reações suscitadas nos leitores – e sempre se supõe que os leitores de jornais eram os mais esclarecidos. Era a selvageria em estado puro, que ainda não encontrara formas mais radicais de expressão do que as cartas de leitores de jornais.

Sempre foi um sentimento forte, aos quais os jornais recorreram cada vez mais, a partir da capa da Veja contra o estatuto do desarmamento, que revelou o apelo do tema para o público em geral. Esse é um dos grandes problemas históricos da mídia brasileira: ela é pró-cíclica. Ou seja, tende a radicalizar movimentos de opinião pública em qualquer direção.

O bolsonarismo tem base social e milícias se armando. Esse é o quadro

Peça 3 – A fórmula Erdogan

Fortalecendo Bolsonaro, é questão de tempo para que se transforme em um Recep Erdogan, o ditador que, depois de anos de poder, resolveu endurecer.

Erdogan fez carreira política no voto. Ascendeu com uma pauta anticorrupção, liberalismo econômico, que lhe assegurou o apoio do mercado, e fundamentalismo religioso, que garantiu apoio da maioria islamita conservadora. Seu lema histórico era “As mesquitas são nossos quartéis, as cúpulas, nossos capacetes e os fiéis nossos soldados”.

A partir de um plebiscito, que lhe outorgou poderes absolutos, demitiu mais de 107 mil servidores públicos, 33 mil professores, prendeu mais de 50 mil pessoas, dentre os quais 150 jornalistas.

Peça 4 – um país sem instituições

A grande tragédia brasileira é a carência absoluta de responsabilidade institucional, representatividade e visão de futuro das instituições.

A visão tosca do antipetismo e do liberalismo selvagem conquistou setores empresariais.

O empresariado não dispõe de lideranças. O mercado passa a trabalhar com visão cor-de-rosa da economia, visando fortalecer as tais reformas. Um bom termômetro é o jornalismo econômico. Há uma mudança de enfoque perceptível, com a valorização de ângulos positivos menores visando criar um clima de otimismo na economia.

Pode ser porque a queda de publicidade fez a água bater no nariz. Pode estar no bojo de acordos políticos. Seja o que for, é um movimento que fortalece os próximos passos de Bolsonaro.

Há dois poderes aparentemente acordando, não sei se no ritmo suficiente para impedir o desastre.

Do lado do Supremo Tribunal Federal (STF), há quatro grupos de Ministros. O primeiro, os que consideram a Lava Jato um perigo maior. O segundo, dos pusilânimes, que tremem só de ouvir o toque do Alvorada. O terceiro, dos que tratam o STF como trampolim e não querem se comprometer com disputas, O quarto, dos que se manifestam contra os esbirros autoritários de Bolsonaro, destacando-se o decano Celso de Mello.

Pesa contra o Supremo a extrema pusilanimidade de ter endossado todos os abusos da Lava Jato e avalizado um impeachment que afrontava a Constituição mercado.

Peça 5 – Os atores do jogo

Hoje em dia se tem um presidente afrontando diariamente o decoro do cargo, claramente envolvido com organizações criminosas, atuando às claras para blindar o filho de investigações, com um conjunto de medidas e atitudes que estão rapidamente transformando o país em um pária na comunidade internacional.

O problema dos Bolsonaro não é a imbecilidade recorrente da família. É a ameaça de um endurecimento do regime, podendo espalhar sangue pelo país.

Agora, a revelação de que o segundo assassino de Marielle ingressou no condomínio de Ronnie Lessa, o assassino, entrando pela casa de Bolsonaro, coloca o elemento mais forte de uma relação óbvia, entre Bolsonaro e as milícias.

Espera-se que, ao contrário do Rei Leão, não haja pacto nem com hienas, nem com corujas.


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