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Foto: Poor People's Campaign

“Campanha dos pobres” evoca Luther King e busca mobilizar milhões de eleitores nos EUA

Objetivo é mobilizar cidadãos de baixa renda que geralmente não votam e exigir dos candidatos políticas públicas sérias de combate à pobreza
Jim Cason, David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Em todo o país, trabalhadores de baixos rendimentos, defensores dos direitos das mulheres, direitos trabalhistas e da comunidade LGBTQ+, entre outros, realizaram eventos em 4 de março para lançar uma campanha nacional que, nos próximos três meses, tentará mobilizar milhões de eleitores de baixos rendimentos ou pobres que geralmente não votam, para exigir dos políticos que enfrentem a pobreza. “Se fôssemos a um funeral a cada dia, teríamos que dedicar 600 anos para ir aos funerais das pessoas que morrem silenciosamente de pobreza neste país”, afirmou o reverendo William Barber II, um dos co-presidentes nacionais da Campanha dos Pobres.

Manifestantes chegaram a Charleston e a outras 31 capitais estaduais de todo o país no último dia 4 com caixões, lápides e cartazes para apelar por uma “renovação moral” com o propósito de mobilizar 140 milhões de pobres e trabalhadores de baixos rendimentos e demandar um governo que lute contra a pobreza e não contra os pobres.

“Neste país, 800 pessoas morrem a cada dia devido aos resultados diretos da onda de pobreza. Isso é inaceitável em um dos países mais ricos do planeta”, declarou Pam Garrison, copresidente da Companhia dos Pobres em West Virginia. Falando nas escadarias do Capitólio estadual, acrescentou que West Virginia tem uma das maiores taxas de morte devido a doenças relacionadas à pobreza e uma das taxas mais baixas de educação no país. “Isso não está certo. Não podemos permitir que isso defina o que é West Virginia. Precisamos de representantes políticos que nos representem, e não que preencham seus próprios bolsos”, acrescentou diante de centenas de líderes religiosos, assistentes sociais, sindicalistas e funcionários locais reunidos para este comício.

Trabalhadores se juntam ao comício

No Capitólio estadual em Montgomery, Alabama, trabalhadores que estão se organizando com o sindicato automotivo UAW para sindicalizar uma fábrica da Hyundai se juntaram ao comício. Em Raleigh, Carolina do Norte, centenas de trabalhadores ouviram Jamey Gunter, do Sindicato de Trabalhadores de Serviços do Sul, afirmar: “Precisamos de políticos que enfrentem essas empresas e estejam do lado dos trabalhadores”.

A reverenda Liz Theoharis, copresidente nacional da Campanha dos Pobres, declarou: “Estamos apelando para uma renovação moral, por uma ressurreição moral. Estamos declarando vida em todos os lugares onde há morte”. A campanha está focada em construir alianças com sindicatos, organizações anti-guerra e anti-intervenção dos Estados Unidos, e trabalhar em conjunto com organizações culturais para ressuscitar e atualizar a última campanha liderada pelo reverendo Martin Luther King.

A pobreza, afirma Theoharis, é algo que os governos decidem ao optar por não investir em políticas comprovadas que tirem as pessoas da pobreza, ao não apoiar sindicatos e esforços de organizações de pobres.

Luta por água potável

Os participantes do comício em Charleston incluíram aqueles que estão lutando por água potável em povoados onde há escassez do líquido vital ou onde está tão contaminada que já não pode ser utilizada. Outros estão impulsionando novas formas de abordar a dependência química e reformas do sistema carcerário, defensores dos direitos da comunidade LGBTQ+, dos direitos das mulheres de controlar seus próprios corpos e por maior investimento em educação e moradia. No entanto, mais do que tudo, afirma Garrison, estão se unindo para exigir e criar poder político em um estado onde os governantes locais trabalham para os interesses dos mais ricos, especialmente as empresas de carvão, que dominam o estado.

“A maioria daqueles que sobrevivem dia a dia não acreditam que são pobres porque não estão vivendo nos guetos urbanos”, comenta Garrison em entrevista à La Jornada. “Mas qualquer incidente pode desfazê-los: se perdem um dia de trabalho por doença sem pagamento, se de repente têm que gastar em novos pneus para seus carros, qualquer coisa – isto não é uma maneira de viver”.

Ela acrescentou que quando era jovem, seu pai trabalhava nas minas de carvão e sua mãe era dona de casa. “Agora, não há família onde ambos os pais não trabalhem. Isso é pura avareza das empresas, sabemos que é pela avareza empresarial”.

No sábado, ela afirmou diante do comício uma mensagem coletiva para o futuro: “Somos pessoas orgulhosas das montanhas, sempre seremos livres. Eu venho de Mother Jones (a lendária organizadora sindical e comunitária, imigrante irlandesa, do final do século 19 e início do século 20, que foi co-fundadora do grande sindicato anarco-sindicalista IWW), dos mineiros de carvão que lutaram por melhores salários e por sua saúde, e estou sobre seus ombros para fazer o mesmo. Estamos mobilizando, educando, haverá uma mudança aqui”.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul — Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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