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Cannabrava | Agosto é marcado por golpes, massacres e Covid-19: O que celebrar?

Neste mês de triste memória, nada a comemorar. A não ser, o livro Resistência e Anistia, que relata vitórias e derrotas do povo em sua luta contínua por libertar-se
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Agosto é um mês incrível. Quando eu era criança metiam-nos medo dizendo que agosto é mês de cachorro louco. Depois, já avô, agosto virou mês de festas, em que se festeja pelo menos cinco aniversários de membros da famílias, todos comemorados em uma única e grande festa, com 40, 60 pessoas.

Agosto é também mês de muita lembrança, aziagas algumas, dolorosas outras, de boas lembranças, poucas.

Em 24 de agosto de 1954 eu, com 18 anos, trabalhava na Comissão do 4º Centenário da Cidade de São Paulo como guia para os que visitavam o Parque do Ibirapuera, onde todos os pavilhões estavam dedicados a eventos relativos aos festejos, um deles, a Bienal.

Lá eu soube da morte de Getúlio Vargas, presidente eleito em 1950, inclusive com o voto da minha família. Meu pai era getulista roxo desde 1930, quando decidiu apoiar o movimento revolucionário que culminou com a chegada de Vargas ao poder.

Pude muito bem avaliar o que foi a emotiva reação do povo, aquele povo que na campanha de 1949 cantava “bota o retrato do Velho outra vez… bota no mesmo lugar!”.

Choravam, inconformados, sem entender o porquê, como vocês podem ver no vídeo abaixo:

Getúlio se sacrificara para frustrar o golpe armado pela direita militar e as Cassandra, vivandeiras que, sem voto popular viviam a pregar o golpe nas portas dos quartéis. Sua Carta Testamento deu sobrevida a seu projeto de Brasil. Mas apenas adiou a revanche dos militares.

Neste mês de triste memória, nada a comemorar. A não ser, o livro Resistência e Anistia, que relata vitórias e derrotas do povo em sua luta contínua por libertar-se

Reprodução
Ex-presidente Getúlio Vargas governou o Brasil em três ocasiões diferentes; suicidou-se em 24 de agosto de 1954

1961: A “tempestade perfeita” e a (quase) revanche dos militares

Em 25 de agosto de 1961, deu-se a tempestade perfeita para os planos dos golpistas. Jânio Quadros, eleito em 1959, renunciou antes de completar 8 meses de mandato. Eleito pela UDN e o minúsculo PTN, tendo como vice João Goulart, candidato da chapa opositora, com minoria no Legislativo e diante da governabilidade impossível renunciou com o propósito de, com apoio dos militares, implantar uma ditadura.

Os militares frustraram seu sonho e colocaram no poder uma junta formada pelos comandantes das três armas. 

Eu era correspondente de Prensa Latina em São Paulo. No Rio, onde governava Carlos Lacerda, as milícias protofascistas depredaram a sede da agência, queimaram o prédio da sede da UNE na Praia do Flamengo, empastelaram o jornal Última Hora. 

Fiquei praticamente sozinho encarregado de cobrir os eventos que se sucederam e de transmitir as informações para os correspondentes em Montevidéu. Não foi fácil, pois o país inteiro se sublevou.

Jango, Brizola e a Rede da Legalidade

Foi uma das páginas mais bonitas da história de nosso povo. Esse povo não aceitou o golpe e exigiu a posse do vice-presidente eleito, João Goulart, um líder respeitado e querido pelos sindicalistas e movimentos populares em todo o país.

Leonel Brizola armou o povo do Rio Grande do Sul, subverteu o poderoso 3º Exército e, do Palácio Piratini, comandou a Rede da Legalidade. Não houve rincão neste país em que pelo menos uma emissora não aderisse à rede. No Rio de Janeiro, inclusive, a Rádio Nacional e a Rádio Roquete Pinto, Educativa, de maior audiência, aderiram.

Jango tomou posse e os militares, mais uma vez frustrados, voltaram aos quartéis e trataram de acumular forças para desfechar o golpe vitorioso perpetrado em 1º de abril de 1964, com apoio ostensivo dos Estados Unidos.

Golpe na Bolívia

Em agosto de 1971, o general Hugo Banzer, com apoio de generais brasileiros e de agentes estadunidenses perpetra um golpe de Estado na Bolívia contra o governo revolucionário de Juan José Torres e implanta uma ditadura regressiva e repressiva que durou quase uma década. 

Foi no dia 21 de agosto, aniversário da minha companheira de toda a vida, Bia. Nós tínhamos combinado uma reunião de amigos para comemorar em casa. Eu era correspondente da France Press e editor no El Nacional, o jornal da revolução que era comandada por Torres.

Nem Torres, nem os oficiais militares que o apoiavam cumpriram com a promessa de dar armas ao povo. Esse povo combateu com velhos fuzis da 1ª guerra, revólveres, espingardas e dinamite, coisa que na Bolívia os mineiros manejam como se fosse fogos de artifício.

O povo perdeu a batalha. O governo dos fascistas entreguistas se consolidou e minha cabeça ficou à prêmio. A France Press teve que organizar uma operação de salvamento para retirar a mim e a minha família e levar-nos a salvo para o Peru. 

Preparação do golpe no Chile

Em 1972, por ordem da Pepsi Cola, em conluio com o Council of America sediado no Rio de Janeiro, com dinheiro de empresários e recursos liberados por Richard Nixon, então presidente dos EUA, iniciam o golpe de Estado no Chile.

O processo culminou no bombardeamento do Palácio de la Moneda, em 11 de setembro, acabando com o governo da Unidade Popular presidido pelo socialista Salvador Allende.

Massacre de Trelew

Nesta data, em 1972, a junta militar da Argentina foi a autora da execução extrajudicial de 19 presos políticos.Na Argentina, como livrar-se do choque causado pelo massacre de Trelew? 

Declarado delito contra a humanidade, ele ocorreu de 21 para 22 de agosto de 1972, com o fuzilamento de 19 militantes trotskistas por um grupo de oficiais do Exército.

O massacre ocorreu depois que os guerrilheiros, que tentaram uma fuga pelo aeroporto, já tinham se rendido.

Massacre na Colômbia de 2020

Agora mesmo, na Colômbia, as últimas duas semanas foram marcadas por terríveis massacres, que vitimaram 44 pessoas, principalmente jovens.

O próprio presidente, Ivan Duque, em visita a Cali, disse que entre 2019 e 2020 ocorreram 34 massacres dessa natureza. Sobre isso, conversamos com o professor Pietro Alarcón, confira:

Quem são as vítimas? Ora, camponeses envolvidos numa guerra que não é deles. 

Quem são os assassinos? As máfias do narcotráfico em disputa em alguns casos, certamente. Os paramilitares, a serviço de fazendeiros, a maioria grileiros, em outros casos, comprovadamente.

Onze pessoas foram assassinados na fronteira com o Equador, outras nove em eventos ocorrido na zona fronteiriça com a Venezuela, fortemente militarizada, onde pululam campos de treinamento de mercenários pelas tropas especiais dos Estados Unidos.

Massacre de Corumbiara

Posseiros rendidos reunidos no campo de futebol do acampamento. Arquivo Nacional Em 1995, também em agosto, ocorreu o massacre de camponeses em Corumbiara, Rondônia, quando 12 pessoas foram assassinadas por assassinos de aluguel, entre eles centenas de policiais militares do estado. 

Cerca de 600 camponeses haviam se mobilizado para tomar a Fazenda Santa Elina, tendo construído um acampamento no latifúndio improdutivo.

Na madrugada do dia 9, por volta das três horas, pistoleiros armados, recrutados nas fazendas da região, além de soldados da Polícia Militar com os rostos cobertos, iniciaram os ataques ao acampamento

Tudo isso pra devolver terras a um grileiro.

Covid-19, um outro massacre

E neste agosto de triste memória, os contaminados pela Covid-19 no mundo já somam 22.536.278 de casos confirmados com 789 197 mortes.

Nas Américas, são 12.028.928 casos confirmados e 430 964 mortes.

Na América Latina, o Brasil lidera com 3.605.783 infectados e mais de 115 mil mortos.

Um fato a comemorar

Neste agosto de triste memória, nada a comemorar. A não ser minha gente, meu livro Resistência e Anistia – A história contada por seus protagonistas, em que relato vitórias e derrotas desse nosso povo em sua luta contínua por libertar-se. 

A primeira etapa do lançamento foi uma linda festa, uma experiência fascinante, uma festa virtual belíssima. Quase morri de emoção, com tanta gente solidária, amiga.

Esse vídeo belíssimo, você pode assistir aqui:

Na próxima sexta-feira (28), faremos outra belíssima festa, a partir das 18h, e você pode acompanhar aqui

Você é meu, nosso….convidado mais do que especial….

Paulo Cannabrava Filho, jornalista, editor chefe da Diálogos do Sul e autor de vários livros, dentre os quais: “Resistência e Anistia”.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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