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Cannabrava | Argentina deve acender sinal vermelho; democracia perdeu espaço de fala

Tanto lá, como aqui falta, no projeto de país, falta o planejamento estratégico para o desenvolvimento, falta o resgate da soberania nacional
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

O que está ocorrendo na vizinha Argentina deve acender o alarme vermelho não só à esquerda como para todo o campo democrático em Nossa América. São multidões mobilizadas em torno de consignas absurdas que mostram que simplesmente a democracia perdeu o espaço de fala. Essa é a mais urgente reflexão a ser feita. Perdeu por quê?

Os discursos de campanha como o da vitória soam mais como fanfarronadas do que como verdade. Mas é o que o povo queria ouvir. Javier Milei teve 55,7%, (14 milhões de votos, 3 milhões a mais) contra 44% de Sergio Massa, convenhamos, é muito voto, uma vitória esmagadora nunca antes acontecida. Venceu em 21 das 24 províncias, inclusive na cidade de Buenos Aires. Perdeu na mais importante província, que é a de Buenos Aires. Supõem-se que aí haverá resistência, inclusive com o povo nas ruas.

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Javier Milei não tem o Congresso, toma posse em 10 de dezembro. Não obstante, tudo é possível quando se tem a máquina do Estado – e, por que não dizê-lo, o dinheiro da City de Londres e de Wall Street? Na Argentina, a Inglaterra ainda tem poderes coloniais, disputa espaço com Estados Unidos no controle da economia e da política. É sintomático que tenha anunciado suas primeiras visitas aos Estados Unidos e Israel.

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Israel porque é parceiro das denominações neopentecostais que migraram do Brasil para Argentina e estão se multiplicando. Todos sabemos que atuam planejadamente para a captura do poder e arregimentam votos fieis. Este é um fato ignorado pelos observadores, mas que tem peso.

Prometeu privatizar tudo, a começar pelo petróleo e os meios de comunicação que são públicos, como a agência de notícia Telan, a TV e a Rádio. Na desmontagem do Estado, dos 18 ministérios, diz que quer ficar com 8. Insiste em que vai acabar com o Banco Central. YPF, a petroleira estatal, foi privatizada nos anos 1990, auge do neoliberalismo, e estatizada de novo em 2012 por Cristina Kirchner, quem, tal como Lula, está sendo vítima de lawfare, desestabilização e demonização através do poder judicial.

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Seu partido, Libertad Avanza, terá 38 dos 257 deputados e 7 dos 72 senadores. Para vencer, fez aliança no segundo turno com Patrícia Bullrich, quem garantiu a vitória, (teve 24% no 1º turno), que poderá acrescentar 93 deputados e 24 senadores. Unión por la Patria, comandada pelos peronistas, tem 118 deputado e 31 senadores, uma oposição consistente.

Patrícia é política ligada ao ex-presidente Mauricio Macri, que fez uma gestão da economia neoliberal, ou seja, em obediência ao pensamento único imposto pelo capital financeiro. Nada diferente do que foi o governo de Fernández com Sergio Massa na Economia. Nada diferente do que poderá ser o governo de Milei. 

Não foi a esquerda, nem o peronismo autêntico, quem perdeu a eleição, porque não se pode dizer que Alberto Fernández e menos ainda Massa sejam de esquerda ou representem o peronismo. Massa não é diferente de Milei, questão só de estilo, pois pensam igual. Aquela multidão que saudou o vitorioso não é fascista, mas aquela multidão apoiará o fascismo porque a democracia perdeu o espaço de fala.

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Tanto lá, como aqui falta, no projeto de país, falta o planejamento estratégico para o desenvolvimento, falta o resgate da soberania nacional

Foto: Marcos Ferreira/Flickr (modificado)
O governo de Fernández, com Massa na Economia, foi um desastre. Deixou a Argentina quebrada, o povo na miséria, sem alternativa

O povo cansou de ser enganado. Vota para mudar e se dá conta que tudo permanece como dantes no quartel de Abrantes. Então aparece um louco que promete virar a mesa, empolga e vira mesmo a mesa. Aconteceu no Brasil em 2018, e está armado para acontecer de novo. Essa é a questão, a lição que há que aprender dos fatos.

Há que dar conteúdo aos discursos e aos fatos e os fatos não podem contradizer os discursos. Tanto lá, como aqui, falta o projeto de país, falta o planejamento estratégico para o desenvolvimento, falta o resgate da soberania nacional. Essa compreensão tem que vir do povo, das massas, porque as elites perderam o sentido de pátria.

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Dos milionários não se pode esperar nada. Eles são os responsáveis pela ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro. Foram eles que transformaram o capitalismo produtivo no cassino geral que é a hegemonia do capital financeiro improdutivo.

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Dos oligarcas e burgueses, transformados em agentes do capital financeiro, tampouco se pode esperar coisa alguma. Eles estão se lixando com a miséria povo. São eles que têm casas em Miami e carrões de milhão. Eles são responsáveis por transformar o país em meros produtores de produtos primários, exportadores de minérios e de grãos, com o mínimo de valor agregado. Argentina e Brasil já foram países industrializados, hoje relegados a colônia da Inglaterra e dos Estados Unidos.

O governo de Fernández, com Massa na Economia, foi um desastre. Deixou a Argentina quebrada, o povo na miséria, sem alternativa, agarrou na primeira tábua que se lhe acenou como possibilidade de evitar o naufrágio. E isso pode se repetir no Brasil. A ditadura do Centrão fará todo o possível para esse governo não dar certo e eles têm a maioria de três a um na Câmara.

Mudar a correlação de forças só com o povo organizado e conscientizado. Povo consciente é povo bem informado, e o governo, às vésperas de completar um ano no poder, ainda está a perder a batalha da comunicação. Não usa o poder que tem para comunicar a verdade ao povo.

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E a verdade é que tem que ser formada a grande frente de libertação nacional. Há que deixar claro o papel do imperialismo e seus agentes nos esforços pela manutenção do status quo.

Estabelecer o diálogo em todas as frentes para superar os dissensos que são mais graves em certas denominações religiosas neopentecostais sionistas, mas que tem que ser enfrentados para que se supere o ódio e se adquira consciência de pátria. Investir na educação para formação da consciência crítica.

Não é fácil. É necessário romper com o Estado paralelo que é o Estado Miliciano. A milícia está onde o Estado não está. Há que ocupar todos os espaços com políticas públicas e ações de linha de massa. O trabalho boca-a-boca, corpo-a-corpo para organizar e conscientizar.


Reforma fiscal

A Reforma Tributária passou no Senado por 53 a 24. Precisava de 49, quer dizer que a margem foi estreita. De qualquer forma, é para se comemorar, estava travado havia 30 anos de debate.

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Bolsonaro foi ao Senado arregimentar os senadores do PL para votarem contra. Oposição burra, votar contra só para ser do contra, sem qualquer proposta alternativa, sem argumento que justifique o voto. Quando se trata de uma questão de Estado não é racional votar contra. Dos 12 senadores, dez votaram contra, um a favor e um ausente.

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Pusilânime o cara que vota contra só por ser do contra. Na Câmara, o PL é o maior partido, com 99 deputados, mas está rachado nas questões tanto do Orçamento como da Reforma Tributária. Nenhuma proposta alternativa foi apresentada, só emendas para favorecer grupos de interesse. Muita coisa vai precisar de Lei complementar.

O pastor neopentecostal Silas Malafaia, que aparece nas listas da revista Forbes entre os mais ricos do mundo, diz que vai escancarar deputados da bancada evangélica que votaram a favor da Reforma Tributária. Este vota contra só para exibir sua força. Jogo perigoso, usa essa força para chantagear o governo.

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Os críticos dizem que o país perde a oportunidade de ter o melhor IVA do mundo. Tudo por causa dos privilégios. A original, PEC 45, do deputado Baleia Rossi (MDB), está muito diferente, e por causa disso, presume-se que o IVA terá que ser fixado em torno de 27%, ou mais, a mais alta taxa do mundo. Consequente com o país que tem a mais alta taxa de juros.

Cada um defende o seu próprio umbigo. Advogados, setor de turismo, por exemplo, cada um com seus argumentos contribui para insegurança jurídica, pois as demais profissões podem reclamar direito de isonomia, afinal, a Constituição diz que somos todos iguais perante a Lei.

Lula vai vetar o projeto aprovado na Câmara que desonera, até 2027, a folha de pagamento de 17 setores que mais empregam no país. É toda a indústria dinâmica, aquela cujo retorno do capital é mais rápido. Não faz sentido manter privilégios quando se almeja uma política fiscal democrática. Aposta na aprovação, pois os deputados querem evitar qualquer tipo de contingenciamento de suas emendas em ano eleitoral.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora
Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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