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Cannabrava | Coroação do rei Charles: Inglaterra dá salto ao passado porque já não tem futuro

Reino Unido está condenado a ser paraíso fiscal subordinado aos EUA. Só sobrou a pompa da monarquia decadente. Que futuro há para o império britânico?
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

A coroação do rei da Inglaterra, Charles III, no sábado (6), é o retrato fiel de uma sociedade enferma, que precisa mergulhar no passado porque não tem futuro. Vive da nostalgia de um passado colonial genocida escondido na pompa de uma corte decadente e extemporânea. 

Que futuro pode haver para o outrora império britânico? 

Quem pagou a conta dessa festa nababesca? O rei tem uma fortuna de 1,8 bilhões de libras, mas quem pagou a festa foi o povo, esse mesmo povo que aprovou o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). Como acumulou tamanha fortuna se nem ele, nem seus ancestrais nunca trabalharam? 

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Uma cerimônia do século 11. E o mundo foi lá beijar a mão do rei. Quem não foi, ficou vidrado na televisão. Mãos conspurcadas com o sangue de incontáveis guerras, guerras de conquista territorial para gabar-se de que o sol não se punha nas terras conquistadas. Quantos morreram nessas conquistas? 

Qual o futuro da velha Albion1? Já não é Europa. Deixou de ser europeia ao sair da comunidade de integração, tão duramente construída. O Brexit tirou a oportunidade de ser um país com um futuro comum a todos os integrantes da União Europeia (EU), de desenvolvimento com integração. 

O orgulho da raça predestinada obnubila a inteligência. 

Está condenada a ser um paraíso fiscal subordinado aos Estados Unidos. A ex-colônia engoliu a ex-metrópole. Só sobrou a pompa de uma monarquia decadente. Que méritos tem esse tal de Charles III? 

Tudo bem, a festa para inglês ver. Mas que o mundo televisivo se alinhe nessa pantomima é demais. É demais que se festeje nas ex-colônias e naquilo que ainda é vestígio do regime colonial. Ou seja, vimos o éculo 11 em pleno século 21. 

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Como esperar que a China, por exemplo, esqueça da Guerra do Ópio? A monarquia britânica, assim como as elites dos Estados Unidos, os chamados pais da pátria, se enriqueceram com o contrabando de ópio. E mais. A Inglaterra impôs, pela força das armas, a um país desarmado, a humilhação de um colonialismo sustentado na disseminação do consumo do ópio. Como resultado, parte da população chinesa foi transformada em zumbis. 

Como esperar que a África do Sul perdoe a monarquia pelos séculos de regime de Apartheid? 

Apesar do mais cruento colonialismo, ainda há 56 estados que eram colônia e ainda têm o rei como soberano, como chefe de Estado. Como as ilhas do Caribe – Antígua, Barbuda, Bahamas, Barbados, Dominique, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Granada; Belize e Guiana, no nosso continente, como era a Jamaica, o mais recente a proclamar sua independência. Incrível, países como Austrália, Canadá, Índia, Nigéria, Nova Zelândia, ainda se submetem ao rei.

Faz-me lembrar de Augusto Salazar Bondy, educador que idealizou a estratégia de educação para a revolução peruana de Velasco Alvarado (1968-1976). Ele reclamava o quanto é difícil para o ser humano aceitar ser livre. E sendo a liberdade o dom supremo da espécie. 

A cerimônia de coroação foi definida como sendo uma repetição do século 11. O que era a Inglaterra no século 11? Era uma ilha ocupada pelos normandos2 e sob a hegemonia da Igreja de Roma. Foi o século das Cruzadas, cuja terceira foi comandada por Ricardo Coração de Leão (1189-1199), lendário que mereceu romances e filmes. As Cruzadas deixaram um rastro de sangue no mundo que falava árabe e tinha como crença o islamismo. Uma ferida aberta, não cicatrizada atualmente. 

Reino Unido está condenado a ser paraíso fiscal subordinado aos EUA. Só sobrou a pompa da monarquia decadente. Que futuro há para o império britânico?

Família Real/Twitter
Retrato oficial após coroação do Rei Charles III e da Rainha Camilla em 6 de maio




ONU decreta o fim da emergência global 

A ONU decretou, em 5 de maio, o fim da emergência mundial contra a pandemia da Covid-19, que matou 7 milhões de pessoas no mundo, sendo mais de 700 mil só no Brasil. Um de cada 10 mortos é brasileiro. Não obstante, não se pode baixar a guarda. O vírus é mutante e está aí para pegar o primeiro desprevenido. 

Falta agora debelar o mais mortal de todos os vírus, que anda solto e fazendo estrago mundo afora — o vírus Bellum3. O agente mais mortal entre todos, só na Segunda Guerra Mundial deixou mais de 40 milhões de mortos, mais de 70 milhões de falecidos na conquista europeia de Nossa América. 

Tal como a pandemia, o vírus da guerra nunca acaba, e está atuando para levar o mundo a uma terceira guerra. O ex-presidente dos EUA Jimmy Carter, aos 94 anos, em maio do ano passado, respondendo a Donald Trump, explicou por que os Estados Unidos estão menos desenvolvidos que a China:

“Você sabe quantas vezes a China entrou em guerra? Nenhuma. Enquanto nós estamos constantemente em guerra. Os Estados Unidos são a nação mais guerreira da história do mundo, pois quer impor aos Estados que respondam ao nosso governo e aos valores americanos em todo o Ocidente, e controlar as empresas que dispõem de recursos energéticos em outros países. (…) 

Quantos quilômetros de ferrovias de alta velocidade temos em nosso país? Nós desperdiçamos US$ 300 bilhões em despesas militares para submeter países que procuravam sair da nossa hegemonia. A China não desperdiçou nem um centavo em guerra, e é por isso que nos ultrapassa em quase todas as áreas. 

Se tivéssemos tomado os US$ 300 bilhões para instalar infraestruturas, robôs e saúde pública nos EUA, teríamos trens bala transoceânicos de alta velocidade. Teríamos pontes que não colapsam, sistema de saúde grátis para os estadunidenses não infectarem mais milhares de americanos do que qualquer país do mundo pela Covid-19. Teríamos caminhos que mantivessem adequadamente. Nosso sistema educativo seria tão bom quanto o da Coreia do Sul ou Xangai”.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora
Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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