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Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Cannabrava | Depoimentos comprovam a intenção de golpe

Trama golpista foi arquitetada e executada por quase todo o governo dos militares; há que aclarar a responsabilidade de cada um, julgar e punir se for o caso
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Já não pode haver dúvidas. O então presidente, Capitão Jair Bolsonaro, tramou o golpe que não deu certo porque o comandante do Exército, General Marco Antônio Freire Gomes, não aderiu e até ameaçou prender o capitão. Isso ocorreu em dezembro, bem antes do pleito de outubro.

Até aí, tudo bem, as coisas estão se esclarecendo com o depoimento de oficiais de alta hierarquia em processo conduzido pelo ministro Alexandre de Moraes. Mas é preciso estar atento, tomar cuidado com o comportamento da mídia tendendo a fazer de Bolsonaro o bode expiatório dessa torpeza que foi a tentativa de impedir a posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.

O que diz a mídia é que Bolsonaro tramou o golpe. Pode ser uma armação, toda a culpa no capitão para livrar os demais implicados. Não pode. A trama foi arquitetada e executada por quase todo o governo dos militares. Há que esclarecer a responsabilidade de cada um, julgar e punir se for o caso.

Leia também | Cannabrava | PF desvenda organização golpista; participação das forças armadas é comprovada

A dúvida que fica no ar, já expressamos isso, é o que levou o comandante do Exército a não aceitar a trama e na última hora frustrar o golpe, deixando muitos companheiros como que pendurados na brocha. É o caso, por exemplo, do Almirante Garnier, comandante da Marinha que colocou sua tropa à disposição do golpe.

Teria o General Freire Gomes sido atacado por um surto de razoabilidade? Tudo é possível. Ao Comando Sul dos Estados Unidos não interessava ter uma Republiqueta de Bananas ao sul do Rio Bravo a atrapalhar o já tão confuso processo sucessório, em que Trump ameaça entrar como um trator na Casa Branca.

Justo a Casa Branca, useira e vezeira em promover golpes, de repente, não tão de repente, atua para desfazer o golpe. É conhecida a promiscuidade entre os altos oficiais brasileiros com seus colegas estadunidenses, principalmente nas questões de inteligência.

Que não fique restrito a um só

A síntese do problema é bastante simples: que não fique um só oficial conspirador sem ser punido. Depoimentos do delator (dedo duro), Tenente-Coronel Mauro Cid, ex-chefe dos ajudantes de ordens do presidente, têm comprometido muitos oficiais e civis da mais alta hierarquia. Muitas narrativas para confundir as pessoas.

O General Freire Gomes diz ter deixado claro que o Exército não participaria da intentona golpista. Então, diante dessa evidência, por que o capitão insistiu? Contava com que se armasse o caos no Distrito Federal, ou talvez em algum outro lugar, ensejando apelar para uma GLO – Garantia da Lei e da Ordem – com decretação do estado de sítio.

Se nota que as coisas transcorriam sob forte tensão. São muitas as narrativas. O General Braga Neto, que era vice na chapa de Bolsonaro, diante da negativa de Freire Gomes, chegou a xingá-lo de “cagão”. Na realidade, cagão mesmo nessa história é o Tenente-Coronel Mauro Cid, que de cara com os inquisidores pediu delação premiada.

A Operação Tempus Veritatis ouviu também o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que disse ter sido pressionado a entrar com ação no Superior Tribunal Eleitoral (TSE) a questionar o resultado do segundo turno alegando mau funcionamento do sistema. Ou seja, queria pôr em dúvida todo o resultado eleitoral.

Alexandre de Moraes tem também sob sua responsabilidade o processo sobre as milícias digitais, para o qual estendeu por mais seis meses o prazo para a Polícia Federal (PF) investigar. Esse inquérito tem o delator Tenente-Coronel Mauro Cid e apura o caso da falsificação do atestado de vacina e das joias milionárias que o Capitão Bolsonaro tentou embolsar.

Entre os condenados pelo TSE está o deputado federal Delegado Cavalcante (PL-CE), condenado à inelegibilidade por oito anos por ter incitado à violência. Quando em discurso de 7 de setembro, disse que “se a gente não ganhar nas urnas, se eles roubarem as urnas, vamos ganhar na bala”. A turma estava mesmo disposta a botar pra quebrar.

Caso Marielle e o Partido Militar

O caso da vereadora Marielle Franco e seu motorista resvala à “famiglia” e sua ligação com as milícias. Por envolver alguém importante o caso passou para o STF. Deus, pátria e família, adotado pelo bolsonarismo, é copiado do integralismo de Plínio Salgado, o fascismo caboclo lançado nos anos 1930, que tem adeptos ainda hoje.

Assim também a ideia de um Partido Militar não foi desfeita. O governo tem que levar isso em conta. Estamos perdendo a batalha nas comunicações. Tem que se fazer a contrapropaganda, usar a educação e a comunicação para levar a verdade ao povo, não deixar uma só questão pautada pela oposição sem resposta.

Noutra linha, que se completa, a visão militarista de que isto é uma guerra. Guerra travada na área psicossocial. A Operação Lava Jato já era. Foi aproveitada pelos militares que ocuparam o governo para atormentar e desestruturar a frente democrática. Foi enterrada de vez deixando claro o uso político da mesma.

Com o fim da Lava Jato, voltam a funcionar normalmente as grandes empresas que foram alvo. Houve corrupção. É o modelo, é o sistema. Dizer que sempre foi assim não significa conformismo, apenas a constatação de um fato. Capitalismo, ditadura do capital financeiro, é sinônimo de corrupção. Não obstante, se houve corrupção, que se punam os corruptos, não se punam as empresas.

Crime da maior gravidade, crime de traição à pátria praticado por Sergio Moro, Deltan Dallagnol. Atuaram como agentes dos Estados Unidos, continuam impunes. Agora, o presidente Lula querer evitar que se rememore o golpe de 1º de abril, é o mesmo que querer tapar o sol com a peneira. Não vai diminuir nem aumentar a tensão com os militares, mas vai ficar na história como um ato de covardia. Ainda é tempo para mudar.

Paulo Cannabrava Filho, jornalista editor da Diálogos do Sul e escritor.
É autor de uma vintena de livros em vários idiomas, destacamos as seguintes produções:
• A Nova Roma – Como os Estados Unidos se transformam numa Washington Imperial através da exploração da fé religiosa – Appris Editora
 Resistência e Anistia – A História contada por seus protagonistas – Alameda Editorial
• Governabilidade Impossível – Reflexões sobre a partidocracia brasileira – Alameda Editora
 No Olho do Furacão, América Latina nos anos 1960-70 – Cortez Editora


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1967. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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